Não duvidaria se alguém me disser que se escreveu mais sobre o último Real Madrid x Barcelona do que sobre a morte de Osama bin Laden. Já comecei a escrever sobre o assunto cinco vezes, e em todas parei ou porque alguém me fez pensar melhor ou porque li em algum lugar o que pensava em escrever. Com uma segura distância de mais de 24 horas para o jogo, entretanto, e incentivado pelo leitor João Daniel Araújo, atrevo-me a meter minha colher nesse coletivíssimo angu. E digo: o Barcelona é extra-terrestre, mas José Mourinho não só treme como se equivoca ao enfrentar o único rival que precisa vencer. E que não vence.

Acredito que o equívoco tem uma origem clara: os jogos em que a Inter bateu os Blaugrana em casa e depois os segurou fora para se classificar para a final da LC 2010. Especificamente o jogo de volta, quando conseguiu “segurar” o Barça, o que ninguém tinha feito antes nem fez depois. A impressão que tenho é de que Mourinho não se conforma com o fato de que teve uma dose absurda de sorte, e, com isso, fica tentando repetir o irrepetível. Ninguém repete um vulcão em erupção que fez o Barcelona passar 10 horas em um ônibus. Ninguém repete uma autação de gala de Thiago Motta. Boas atuações de Maicon e Sneijder se repetem e até jogos sem Lucio e Julio Cesar errarem, mas todas essas coisas juntas só podem acontecer uma vez a cada 100 anos.

Mourinho, entretanto, com toda a fé que possui em si mesmo, não pode atribuir o resultado a nada que não seja sua genialidade. FIca, portanto, tentando repeti-lo. Os problemas aí são dois. O primeiro está citado acima: a Inter teve – além da extrema competência – muita sorte. O segundo: digamos, por outro lado, que isto pudesse ser repetido. Os times da Inter e do Real Madrid são diferentes em tudo. Não é porque funcionou com os nerazzurri que funcionará com os Merengues. Além disso, Mourinho tem opções no Real Madrid que não sonhava em ter na Inter. Ou seja: não faz nenhum sentido não atacar o Barcelona. E neste sábado, a despeito do que diz a escalação, ele não atacou. Porque, embora tivesse quatro jogadores ofensivos em campo, desperdiçou-os perseguindo os meias do Barça.

Pode ser que não funcionasse, e há bastante gente que argumenta que ele já tentou fazer isso e não funcionou. E aqui entra outra diferença entre o Real Madrid e a Inter: embora não fosse um time com tantos talentos, a Inter tinha uma espinha dorsal melhor, e que jogava junta havia mais tempo. Tenho minhas muitas críticas a Lucio, mas não dá para compará-lo a Pepe. E o sistema defensivo jogava junto há mais tempo, o time estava mais acostumado a jogar naquele estilo. Embora os principais jogadores do Real Madrid estejam juntos há mais de uma temporada, não se pode dizer que a equipe tenha um padrão de jogo com esta idade. O que faz toda a diferença quando se joga contra um time que joga junto há 100 anos, ou quase, como o Barcelona.

Por fim, parece claro que a “pilha” que Mourinho põe em seus atletas, no caso dos jogos contra o Barcelona, joga contra. Se teve alguma organização em campo no começo do jogo, o Real Madrid começou a perdê-la quando Daniel Alves virou atacante, e se transformou em um bando depois de levar a virada. E aí não há que se poupar o técnico: time bem treinado em que estar preparado para ficar atrás no placar, ainda mais jogando contra o Barcelona.

José Mourinho é um técnico vencedor, seu Real Madrid da atual temporada é um belo time e ainda é favorito para ganhar o título nacional. Precisa, porém, para ficar de bem com a história, vencer o maior time do mundo em um jogo que importe. Não tenho, como ninguém tem, a fórmula para isso. Mas junto meus dois dedos de teoria à receita.