José Mourinho já marcou época, conquistando inúmeros títulos por onde passou. Até hoje, no entanto, a temporada 2011/12 segue como uma de suas melhores na carreira. No comando do Real Madrid, levou o título de La Liga com recordes batidos, em um momento de supremacia do rival Barcelona. Mas aquela campanha teve em si também a mais dolorosa derrota da trajetória do português: a eliminação para o Bayern de Munique nas semifinais da Champions League.

Em entrevista ao Marca, Mourinho revelou que a derrota nos pênaltis para os bávaros foi a única em sua carreira como técnico que o levou às lágrimas.

“A noite em que o Bayern nos eliminou da Champions League nos pênaltis é a única vez em toda minha carreira como treinador em que chorei depois de uma derrota. Lembro-me bem. Karanka e eu, parados em frente à minha casa, dentro do meu carro, chorando… Foi muito duro, porque, naquela temporada 2011/12, éramos os melhores da Europa”, recordou.

A essa altura, ninguém precisa ser avisado de que Mourinho é um cara de muita autoconfiança. Porém, sua afirmação tem um grande fundo de verdade. O Real Madrid de 2011/12 talvez tenha sido o último time de Mourinho a verdadeiramente encantar o mundo. Jogando um futebol de contra-ataques rápidos e fulminantes, a equipe alcançou recordes de vitórias (32), pontos (100) e gols (121) no Campeonato Espanhol.

Entre as temporadas 2008/09 e 2010/11, o Barcelona, então comandado por Pep Guardiola, tomou de assalto o futebol espanhol e europeu. Os blaugranas haviam vencido três títulos de La Liga seguidos, além de levarem duas Champions Leagues no mesmo período. Não era uma superioridade qualquer, e a maneira como Mourinho respondeu àquilo deixou igualmente sua marca na história do futebol espanhol.

Na conversa com o Marca, Mourinho não chegou a reconhecer aquele como o seu ápice, mas ressaltou o significado daquele trabalho: “É muito difícil para mim dizer se aquele foi o ápice ou não. Mas, desde então, tenho certeza que foi um momento muito importante, porque veio em um período especial, de domínio do Barcelona. Acabar com aquele domínio do Barça e fazê-lo alcançando um recorde de pontos e de gols torna ainda mais interessante e importante, porque o fizemos da melhor maneira possível. Não é só por termos vencido La Liga, mas porque fizemos de uma maneira que entrou para a história”.

À época, a imprensa espanhola definia o futebol daquele Real como “rock and roll”, por seu ritmo elevado e seus contra-ataques letais. Mourinho diz lembrar bem do termo e reflete com orgulho sobre aquele estilo.

“Tínhamos uma identidade de jogo muito definida. Defensivamente, estávamos sempre muito bem organizados em todo o campo, e cada um sabia perfeitamente o que tinha que fazer. Havia muita disciplina e organização também por trás do jogo daquela equipe. E éramos capazes de fazer transições muito explosivas, velozes e diretas, sempre visando o gol, com conexões que eram quase imparáveis. Eram grande jogadores que jogavam como uma verdadeira equipe. No fim das contas, isso era a chave de tudo.”

Diversos momentos ficaram marcados para a posterioridade naquela campanha, mas o mais emblemático foi a vitória por 2 a 1 sobre o Barcelona, em pleno Camp Nou, pela 26ª rodada. Um clássico que basicamente confirmou o caminho que a taça estava tomando e em que Cristiano Ronaldo fez uma de suas mais famosas comemorações: “Calma”. Mourinho define aquele encontro como um embate entre razão e emoção.

“São boas memórias. Jogamos contra o Barcelona em busca de dois resultados, porque uma vitória seria bom para nós, mas o empate também. Preparamo-nos para aquele jogo no Camp Nou muito bem. Eu disse várias vezes aos meus jogadores: ‘Vamos vencer este jogo, vamos vencer’. A emoção e, sobretudo, a pressão estão com eles. Eles estavam jogando em casa, e nós, em uma transição, vamos matá-los. Quando eles empataram, foi isso que aconteceu. No fim, a emoção perdeu para a razão”, observou.