O isolamento social ordenado pelo governo do Reino Unido não permite que qualquer equipe de futebol realize treinamentos. O Tottenham, porém, desobedeceu a determinação ao realizar atividades físicas em conjunto no norte de Londres nesta terça-feira. O treino, orientado pelo próprio José Mourinho, aconteceu em um parque da região e contou com a participação de diversos jogadores do elenco profissional. As cenas acabaram flagradas por pessoas que passavam no local e não demoraram a viralizar nas redes sociais.

Mourinho usava um agasalho lilás do clube, sem fazer muita questão de se disfarçar. Além disso, jogadores como Tanguy Ndombélé, Ryan Sessegnon e Davinson Sánchez realizavam exercícios na área verde, sem utilização de bola. Segundo o jornal The Guardian, no entendimento do técnico, o distanciamento entre os jogadores seria suficiente para que as determinações do governo seguissem respeitadas. Contudo, as atividades físicas em conjunto só estão autorizadas se as pessoas viverem na mesma casa.

A atitude de Mourinho quebra a própria hierarquia interna do Tottenham. Através de um porta-voz, o clube comunicou que os treinamentos não estavam autorizados: “Todos os nossos jogadores foram lembrados a respeitar o distanciamento social quando se exercitam ao ar livre. Continuaremos a reforçar esta mensagem”. Fica a própria questão do exemplo ao restante da população, que permanece afastada de suas atividades normais e confinada em casa.

Mourinho chegou a participar de ações assistenciais nas últimas semanas, ajudando entidades que distribuem bens essenciais à população. Voluntariamente, o português empacotou alimentos para serem entregues a idosos. Além disso, o Tottenham disponibilizou as estruturas de seu estádio para ser utilizado pelo Serviço Nacional de Saúde. O clube também vinha usando o estacionamento no subsolo do estádio para armazenar alimentos à London Food Alliance, um banco de alimentos para abastecer pessoas vulneráveis.

Nos últimos dias, porém, o Tottenham também vinha recebendo críticas por suas atitudes com os próprios funcionários. O presidente Daniel Levy optou por reduzir em 20% os salários de 550 trabalhadores que não fazem parte do elenco de futebol, alguns deles submetidos a um esquema de ajuda do governo britânico. Aos jogadores, o dirigente solicitou uma redução na mesma proporção, sem qualquer obrigatoriedade – o que ainda não foi confirmado.

O Tottenham registrou a oitava maior receita do futebol mundial na temporada 2018/19, ganhando duas posições na lista e superando os €500 milhões. Além disso, o próprio Levy embolsou £7 milhões em salários ao longo do último ano, com £3 milhões em “bônus pela conclusão do novo estádio”. Há uma pressão dos torcedores para que a diretoria reverta a decisão e pague os empregados normalmente. Eles questionam não apenas a necessidade de recorrer ao dinheiro público, mas também os próprios danos que isso traz à imagem do clube. O Liverpool, após anunciar medidas parecidas, reverteu sua decisão nesta segunda.