O anúncio de José Mourinho como técnico do Tottenham não foi uma surpresa, porque àquela altura, todo mundo esperava por isso. Mauricio Pochettino tinha sido demitido na noite de terça-feira, e o português era o principal nome. A sua cogitação foi o que mais surpreendeu. Na manhã da quarta-feira, veio o comunicado dos Spurs e começava a era Mourinho no time do norte de Londres. Ele chegou falando em paixão, que era o que ele poderia prometer, em sua primeira entrevista à TV do clube. Mas o melhor viria depois.

Em sua apresentação, na própria quarta, dia 20, as palavras do técnico foram de uma humildade pouco vista antes. Admitiu erros e disse que avaliou a carreira nos 11 meses parado. Também disse que não pretende mudar muito o que o técnico anterior deixou. Mesmo com tudo isso como novidade, algo não mudou: a sua língua afiada para dar boas respostas.

“Eu acho que eu estou novo e melhorado. Eu tenho que acreditar”, afirmou o treinador, assumindo o Tottenham. “Eu sempre pensei que esses 11 meses não foram uma perda de tempo. Foram meses para pensar, analisar, preparar, antecipar as coisas. Você nunca perde o seu DNA, você nunca perde a sua identidade, mas eu tenho que pensar sobre muitas coisas”.

“Não me pergunte que erros são esses, mas eu percebi que durante a minha carreira, eu cometi erros. Eu não irei cometer os mesmos erros. Eu irei cometer novos erros. Eu sou humilde, humilde o suficiente para tentar e analisar minha carreira, não apenas no último ano, mas a coisa toda, a evolução, os problemas e as soluções. Sem culpar ninguém mais”.

“Foi algo grande. Eu fui realmente fundo com essa análise. Uma parada que foi positiva para mim. Foi o primeiro verão que eu não trabalhei e eu me senti um pouco perdido durante a pré-temporada. Eu sempre fui humilde, do meu modo. O problema é que vocês não entendem isso”.

“Eu estou mais forte do ponto de vista emocional, eu estou relaxado, eu estou motivado e eu estou pronto e acho que os jogadores sentiram isso em dois dias. Eu estou pronto para apoiá-los, isso não se trata de mim”.

“Na sua carreira, não apenas na carreira, mas na vida, você passa por períodos, e eu estou em um período em que não se trata de mim mesmo. Se trata do clube, meus torcedores do clube, meus jogadores. Não se trata de mim. Eu estou aqui para tentar ajudar todo mundo”.

Para os torcedores com medo de mudanças drásticas, até pelos estilos diferentes de Mourinho e Pochettino, o treinador português deu declarações para acalmá-los. “Eu tentei contratar alguns deles por clubes diferentes e eu não consegui. Eu não preciso de [novos] jogadores. Eu amo este elenco”.

“Nós não podemos ganhar a Premier League nesta temporada. Nós podemos, e não estou dizendo que iremos, ganhar a Premier League na próxima temporada. Se nós ganharmos títulos, não será por causa de mim, mas como consequência do trabalho que fazemos no clube”.

“Esse é um pacote, uma visão. O estádio é parte da visão, o centro de treinamento é parte da visão, a categoria de base é parte da visão. Tentar manter todos os melhores jogadores e se recusar a deixar os melhores jogadores saírem é parte da visão também. Talvez ter um técnico da minha experiência é também parte da visão. É tudo sobre a visão. Se nós ganharmos títulos, não importa quando, não será por minha causa, será uma consequência natural de uma visão e um plano”.

O Tottenham é rival do Chelsea, clube com o qual o português se identificou muito. Alguns o chamam de “Mr. Chelsea”, mas ele refuta o termo. “Eles têm que me ver como Mr. Inter, Mr. Real Madrid, Mr. Porto. Eles têm que me ver como Mr. Club. O que significa que todo clube que eu vou, eu chego e visto o pijama do clube. Eu trabalho e durmo, eu confundo o agasalho com o pijama”, declarou o jogador.

“Eu sou um homem de clubes, mas um homem de muitos clubes. Eu decidi na minha carreira ter essa aventura indo para muitos países até que eu tive o que eu chamo de Grand Slam – Espanha, Itália, Inglaterra. Eu não parei, eu queria fazer isso. Então a Premier League é o meu habitat natural. É onde eu sou mais amado, é a liga que eu considero a melhor e mais agradável e onde eu sou mais feliz”.

“Eu tenho uma única paixão, uma coisa na minha cabeça e é o meu clube e agora é o Spurs. Eu dou tudo para todos eles e é isso que eu vou fazer aqui, dar absolutamente tudo que eu tenho. Não há um torcedor no mundo que queira que o Spurs vença mais do que eu. Talvez o mesmo que eu, mas não mais do que eu. O Chelsea é passado, um grande passado, dois períodos com títulos, mas está no passado”.

“Eu li uma frase de Kobe Bryant em que ele diz: ‘As pessoas dizem que eu sou difícil, mas eu só sou difícil para aqueles que não compartilhar meus princípios’. Comigo, é basicamente o mesmo. Para mim, tudo se trata do time, não de pessoas egoístas. Então, se há alguém que não compartilha esses princípios comigo, então nós temos um problema e nós iremos sempre ter um problema porque esta é a forma como o futebol tem que ser”.

Mourinho disse que “aprendeu que às vezes você precisa trabalhar com pessoas que você não ama e trabalhar bem”. “Foi uma das lições, se você quer chamar de lição. É apenas um acúmulo de experiências. É algo muito importante, mas eu não posso dizer que é uma lição porque novamente eu volto à minha resposta anterior: isso é também sobre princípios e se as pessoas compartilham princípios”.

“Você nunca perde o seu DNA, sua identidade, quem você é. Quando eu não venço, eu não posso ficar feliz. Eu não posso mudar o meu DNA. Eu espero que eu possa influenciar os jogadores em não ficarem felizes sem ganhar jogos de futebol. Mas o controle emocional, manter a autoestima e a confiança em si mesmo e mostrar confiança nos outros e em quem você trabalha é muito, muito importante como princípio”.