Certos países têm uma figura fundamental na história de seu futebol, sejam mais ou menos tradicionais. Craques aparecem e desaparecem, técnicos vêm e vão, jogadores passam, torneios acontecem… mas esses nomes servirão sempre como figuras de proa, serão o guia a ser eternamente respeitado. Se ainda está no segundo escalão do futebol mundial, título da Euro 1992 à parte, a Dinamarca tem um nome desses. Um nome que simboliza a história do futebol nela. E nesta quarta, ela celebra o aniversário de 70 anos dele: Morten Olsen.

E é possível dizer que o cidadão nascido em Vordingborg personificou não somente o desenvolvimento do futebol em seu país natal, mas também o desenvolvimento tático da modalidade. Porque quando Olsen começou a jogar, em 1957, no Vordingborg IF, era escalado como ponta direita, muito longe da zaga em que se notabilizou. Em 1970, quando a carreira começou para valer, ele foi levado para o B 1901, da primeira divisão dinamarquesa, a pedido do técnico Kurt “Nikkelaj” Nielsen. Que já tinha um ponta direita titular – e por isso, recuou Olsen para o meio-campo, como um volante.

De qualquer modo, não houve problemas. Porque logo Olsen pôs a técnica enorme que tinha com a bola nos pés a serviço da nova posição. Agradou tanto que foi convocado já em 1970 para as seleções da Dinamarca. Sim, seleções: tanto para a sub-21, já marcando gol na estreia (um 2 a 2 com a Polônia), quanto para a principal – na qual estreou em 23 de setembro de 1970, numa derrota por 1 a 0 para a Noruega, no Campeonato Nórdico, um torneio amistoso.

Naquele começo de década de 1970, porém, se um dinamarquês quisesse seguir a sério no futebol, tinha de mudar de país: ali, o profissionalismo não havia chegado ainda. Era o caso daquele promissor jovem. Que tomou o caminho da Bélgica para se desenvolver: em 1972, se transferiu para o Cercle Brugge, por recomendação do compatriota e novo colega de time Benny Nielsen a Urbain Braems, treinador do Cercle. Ali, o loiro de 1,83m apurou ainda mais sua versatilidade: só não jogou de goleiro. De resto, mostrava qualidade na defesa e no ataque – principalmente na defesa. Jogando recuado, como volante, líbero ou até zagueiro, Olsen demonstrava capacidade notável de organizar as jogadas de sua equipe, mostrando categoria na saída de bola e nos longos lançamentos.

Tal versatilidade – valiosa num período histórico em que o Futebol Total holandês impressionava – ainda aparecia pouco na seleção da Dinamarca, então no terceiro escalão (se tanto) do futebol mundial. Basta dizer que Morten Olsen sequer pudera participar da campanha dinamarquesa no torneio olímpico de futebol, nos Jogos de Munique, em 1972: afinal, se tornara um jogador profissional com a ida para o Cercle Brugge. Nos clubes da Bélgica, ele já constituía um grande caminho. A tal ponto que, em 1976, se transferiu para o Molenbeek. Lá, tinha mais alguns compatriotas a seu lado: além do mesmo Bennie Nielsen que encampara sua ida ao Cercle Brugge, o zagueiro Kresten Bjerre. Num clube maior, os resultados foram melhores: o Molenbeek passou a frequentar constantemente as primeiras posições do Campeonato Belga.

Engrenagem-chave na “Dinamáquina”, da construção ao funcionamento

Mas o cenário amador do futebol na Dinamarca mudou a partir de 1979, quando o técnico alemão Josef “Sepp” Piontek foi contratado pela federação do país com uma obrigação: formar uma seleção de qualidade, com os bons jogadores que já se espalhavam pela Europa, e a partir dela catalisar o advento do profissionalismo no ludopédio danês. Nos 11 anos em que treinou a seleção alvirrubra da Escandinávia, Piontek conseguiu isso. E Morten Olsen foi engrenagem fundamental nessa construção. Também, pudera. Quando Piontek chegou, o já experiente Olsen era titular absoluto da Dinamarca havia nove anos. Logo virou uma espécie de “técnico dentro de campo”, figura fundamental na tática que o técnico desejava para a Dinamarca.

Em clubes, sua evolução era ainda mais notável: em 1980, Olsen seguiu na Bélgica, mas trocou de camisa – do Molenbeek para o Anderlecht. Nos Mauves, o “multi-homem” enfim chegou aos títulos, começando com o Campeonato Belga, em 1980/81. Olsen também se converteu em figura fundamental no clube de Parc Astrid. Já além dos 30 anos, foi transformado em capitão. Jogava em qualquer lugar, da defesa ao meio-campo, sendo até surpresa nas chegadas ao ataque. Isso, até 1982: sofrendo com uma lesão renitente na canela, passou a jogar mais fixo, como líbero, por obra do técnico do Anderlecht, o sérvio Tomislav Ivic.

Foi perfeito: a qualidade técnica e a visão tática de Olsen encontravam o lugar perfeito para ajudarem. Assim, ele foi um dos nomes que simbolizou um grande momento na história do Anderlecht, com um bicampeonato belga (1984/85 e 1985/86) e, acima de tudo, com o título da Copa UEFA (1982/83). Assim ele foi eleito o “Jogador Dinamarquês do Ano”, em 1983. Na seleção da Dinamarca que Sepp Piontek erigia ao longo daqueles anos 1980, Olsen deixou de ser um dos organizadores para virar “o organizador”: passou a ser capitão dela a partir de 1983, também nela se tornou o líbero, também se tornou o grande iniciador das jogadas. Sua ascendência era tanta que Piontek o ouvia a ponto de adotar a linha de impedimento e a marcação por pressão a partir de conselhos do seu comandado – e de um colega de Olsen no Anderlecht, o zagueiro Soren Busk.

Em meio ao nascente profissionalismo, enfim a seleção da Dinamarca teve o seu primeiro destaque, com a ótima estreia numa fase final de Eurocopa, chegando às semifinais do torneio continental de seleções em 1984. Havia jogadores de maior velocidade na marcação, como Frank Arnesen e Sören Lerby; havia armadores mais ofensivos, como Michael Laudrup; havia nomes mais goleadores, como Allan Simonsen e Preben-Elkjaer Larsen. Mas se havia um grande comandante daquela geração que começava a impressionar a Europa, ele já tinha 35 anos em 1984, e seu nome era Morten Olsen.

A seleção seguiu assim ao longo da campanha nas eliminatórias da Copa de 1986, quando a Dinamarca se impôs em seu grupo, superando até a União Soviética, bem mais tradicional. Ao chegarem ao México para o Mundial, os daneses estavam em ponto de bala. Tão logo as partidas começaram, o capitão foi um dos nomes mais impressionantes da seleção apelidada “Dinamáquina” (em algumas fontes, “Dinamite”). Nas três vitórias dentro de um grupo dificílimo, os dinamarqueses se impuseram – e Olsen era a cabeça tática do time. Acalmava a marcação na defesa, saía com a bola no meio-campo, chegava ao ataque se deixassem. Foi assim, aliás, na jogada do primeiro gol contra a Alemanha, no 2 a 0 que encerrou a campanha perfeita no grupo: Olsen pegou a bola no campo de defesa, viu o espaço e foi chegando. Mesmo já aos 37 anos, sem que ninguém lhe parasse, foi veloz e só parou num carrinho na área, resultando no pênalti convertido por Jesper Olsen. O sonho dinamarquês na Copa de 1986 parou nas oitavas, goleado pela Espanha (5 a 1). Mas a história já era marcante. E se havia gente mais falada então – Michael Laudrup, Elkjaer-Larsen, Arnesen, Jesper Olsen, Lerby -, Morten Olsen era o líder da Dinamarca em campo. Tanto que o “Jogador Dinamarquês do Ano” de 1986 foi ele.

O fim mais honroso possível – dentro de campo

E se chegava na reta final da carreira, no fim dos anos 1980, Olsen parou da melhor maneira possível. Logo após a Copa, se transferiu para o Köln, da Alemanha. Podia ser escalado como volante (no time alemão) ou como líbero (na seleção), sem prejuízo da qualidade técnica e da classe que exibia em campo. Seu status de capitão também era intocável – Olsen sempre foi elogiado pelo comportamento educado, e só levou um cartão amarelo em todos os jogos pela Dinamarca. O sinal de que o fim estava próximo veio na má campanha pela Euro 1988: a seleção ficou na fase de grupos, e Olsen precisou mudar de posição – foi escalado como volante, já que estava lento demais para ser líbero. Depois daquela Euro, após 18 anos e 99 jogos, ele chegou a parar com a seleção. Mas merecia uma despedida em alta.

E ela veio: em 1989, Olsen voltou a ser convocado, e disputou mais três jogos. Em 26 de abril de 1989, na vitória dinamarquesa sobre a Bulgária, pelas eliminatórias da Copa de 1990 (2 a 0), o homem de quase 40 anos se tornou o primeiro jogador a chegar às 100 partidas pelo seu país. Mais um jogo, e enfim a 102ª e última partida. Um cenário especial: num triangular amistoso de celebração do centenário da federação dinamarquesa, em Copenhague, contra o Brasil. A Dinamarca viveu um dos grandes momentos da história de seu futebol ali: goleou uma fragilizada Seleção por 4 a 0. Quem abriu a goleada? Olsen, em seu jogo derradeiro, de pênalti. Era o fim mais honroso possível – dentro de campo.

Eternizando a história fora de campo

Notabilizado pela liderança e pela visão tática que passara a ostentar ao longo dos anos dentro de campo, era previsível que Morten Olsen virasse técnico. E já iniciou a carreira no banco em 1990, no Brondby de seu país natal, um ano após parar. Pelo clube auriazul, o começo foi ótimo: enfatizando a preparação física da equipe, Olsen conseguiu montar um time aguerrido e sólido o suficiente não só para buscar o bicampeonato nacional (1990 e 1991), mas também para alcançar as semifinais da Copa UEFA (1991/92). Mas aí, o Brondby passou a sofrer com problemas financeiros. E Olsen foi demitido, em maio de 1992.

Aí, sua carreira como técnico se tornou meio errática. Em 1993, foi contratado pelo Köln em que terminara como jogador, mas o time da cidade de Colônia nunca conseguiu ir muito além de luta para fugir do rebaixamento na Bundesliga – e a eliminação nas quartas de final da Copa da Alemanha em 1994/95, para um time amador, foi seu ponto final nas Cabras. Em 1997, sua volta ao banco foi em alto estilo: escolhido como sucessor de Louis van Gaal para treinar o Ajax, Olsen até começou bem. Motivou Michael Laudrup a escolher o clube de Amsterdã como ponto final de sua carreira, e ainda comandou um Ajax bom o suficiente para conquistar a dupla coroa (campeonato e copa) na Holanda. Porém, na primeira metade da temporada 1998/99, veio a queda: alguns destaques campeões europeus em 1995 estavam desgastados com o clube – como os irmãos De Boer, Frank e Ronald, que chegaram a boicotar treinos enquanto não fossem vendidos ao Barcelona. Morten Olsen foi vítima indireta disso: sem conseguir controlar os problemas, foi demitido já em dezembro de 1998.

Era tentação demais para a federação dinamarquesa. Eis que, já em setembro de 1999, a entidade acertou com Olsen: tão logo Bo Johansson terminasse o trabalho na Euro 2000, para a qual os daneses já estavam classificados, o ex-zagueiro passaria a treinar a seleção que tão bem conhecera dentro de campo. Era só o começo de uma longa história. E um bom começo: tendo como auxiliar um pupilo a quem ajudara em campo (Michael Laudrup), Olsen comandou a Dinamarca que se classificou à Copa de 2002, superou a França na fase de grupos daquele Mundial e foi às oitavas de final.

E a partir dali, a influência já gigante de Morten Olsen na história do futebol da Dinamarca ficou praticamente eternizada. Estivesse ou não nas grandes competições, ele era o técnico – e a confiança de torcida e federação em seu trabalho era absoluta. A tal ponto que, mesmo após o fracasso nas eliminatórias da Copa de 2006, a Dansk Boldspil Union (União Dinamarquesa de Futebol) renovou o contrato de Olsen – e não só para comandar a seleção principal, mas para montar um planejamento de condução do trabalho nas seleções de base, pela próxima década.Algumas vezes, seu trabalho foi coroado com a ida a Euros (2004 e 2012) e a Copas (2010). Se fora o primeiro a romper a barreira dos 100 jogos pela Dinamarca dentro de campo, Morten Olsen fez a mesma coisa fora de campo, em 2009. Recebeu do governo do país a Ordem de Dannebrog, em 2010, dada a dinamarqueses reconhecidos por grandes feitos e colaborações civis.

Mas um dia, a história teria de acabar. E ela acabou em 2015: sem conseguir conduzir a seleção danesa à Euro 2016, Olsen anunciou que, daquela vez, não renovaria seu contrato. Entregou o comando, que depois foi dado ao norueguês Age Hareide. Sem mágoas: seu papel já estava feito. Foi reconhecido em 2016, com a federação fazendo dele um dos primeiros incluídos no Hall da Fama do futebol de seu país. Nada mais justo. Afinal, de Allan Simonsen a Dennis Rommedahl, de Michael Laudrup a Jon Dahl Tomasson, de Ivan Nielsen a Daniel Agger: todos eles sabem que o nome do mais novo septuagenário da vez é Morten Olsen, mas podem chamá-lo de “futebol dinamarquês”. Nenhum outro cidadão teve tanta influência no futebol do país.