Ninguém nunca viu. Ou melhor, muitos viram, poucos registraram, porque, na época em que jogou, poucos registravam a segunda e a terceira divisão argentinas, nas quais militou quase exclusivamente, embora dissessem que tinha futebol para muito mais. Esses garantem: Tomás Felipe “El Trinche” Carlovich, jogador do Central Córdoba entre 1972 e 1986 que morreu aos 74 anos na última sexta-feira, era craque. Um craque, por escolha própria, invisível.

Carlovich andava de bicicleta, uma bicicleta novinha, nas ruas de Rosário, as mesmas em que viveu a vida inteira, quando recebeu um golpe de um garoto que queria roubar sua bicicleta. Bateu com a cabeça no chão e sofreu um derrame cerebral. Não resistiu a uma cirurgia de emergência para tentar conter os danos. A Justiça argentina determinou, neste domingo, a prisão preventiva do suspeito, acusado de latrocínio – roubo seguido de morte.

Sua despedida foi no estádio do Central Córdoba, onde construiu a sua lenda na mais precisa acepção da palavra. Formado nas categorias de base do Rosario Central, fez apenas um jogo oficial pelo clube e quatro no total na elite do futebol argentino. Seu negócio não era a elite. Filho de encanador e caçula de sete irmãos, nasceu e viveu todos seus anos em um bairro operário de Rosário e tirava do futebol o prazer mais essencial de poder jogar bola com seus amigos.

Aqueles que relatam sua lenda, com seus duplos rolinhos, jogada que era sua marca registrada e envolvia passar a bola entre as pernas do marcador duas vezes, talvez porque apenas uma fosse fácil demais para ele, não são quaisquer uns. Um deles, por exemplo, se chama Diego Armando Maradona, que em fevereiro deu a Carlovich o maior presente que um ex-jogador de futebol argentino pode receber: um atestado divino de que o seu futebol era melhor que o de Dios.

O encontro foi relatado por Carlovich em sua última entrevista, à rádio Súper Deportivo, reproduzida pela TyC Sports:

“Eu nunca dei bola para ninguém. Não gosto de amolar, mas alguns garotos dirigentes do Central Córdoba aqui de Rosario insistiram tanto para que eu fosse ver Diego em um hotel quando ele veio a Rosário (como técnico do Gimnasia), que disse, ok, vamos. Então, fomos ao hotel, com um amigo. Eu estava a 20 metros de Diego, que estava rodeado por 15 ou 20 pessoas. Passa Fatu Broun (goleiro do Gimnasia) e me diz: ‘Que está fazendo aqui?’. Respondo que vim ver Diego, o único que poderia ter vindo ver. Não sei como ele aparece na minha frente e a primeira coisa que faz é se lembrar da minha mãe. ‘Trinche, puta que o pariu…’.. Então veio, me abraçou, começou a falar ao meu ouvido e não parava. Até que me autografou a camiseta e colocou: ‘Trinche, você foi melhor que eu’. O único que poderia contestar isso era Diego, agora posso morrer tranquilo”.

Em um ótimo perfil do El País sobre Carlovich, o ex-jogador não deixou transparecer nenhum arrependimento por não ter almejado mais sucesso profissional sua carreira, até porque relativizou bastante o conceito de “sucesso profissional”. “Eu não tive outra ambição que não fosse jogar futebol. E, sobretudo, não quis me afastar do meu bairro, da casa dos meus pais, de estar com Vasco Artola, um dos meus melhores amigos. Sou uma pessoa solitária. Gosto de estar tranquilo, não é por má vontade”, disse, negando que o motivo de ter ficado no Central Córdoba foi por não gostar de treinar ou ter disciplina.

Mas uma ambição realmente ficou em aberto, como relatou Carlovich na entrevista à rádio Súper Deportivo, com mais hipérboles mórbidas, aparentemente sua especialidade:

“Ter jogado com Diego teria sido a glória. Digo mais, eu teria dado a minha vida para dividir o campo com Diego. Se em algum momento da minha carreira, me dissessem ‘Trinche, jogará com Diego por 45 minutos, mas depois se vai, para cima ou para baixo’, eu aceitava e assinava na hora”.

Uma oportunidade para Carlovich mostrar seu futebol ao grande público poderia ter sido a seleção argentina. Em 1976, dois anos depois de participar de um amistoso entre um combinado de Rosário contra o time nacional, no qual a lenda conta que jogou tão bem que precisou ser substituído para equilibrar o duelo, foi convocado para treinos pelo então treinador César Menotti. Mas não foi. Não podia. Estava pescando. “Não sei se havia saído para pescar ou a uma ilha. Não lembro. A resposta que me deu foi que não podia voltar porque o rio estava alto”, lembra o ex-treinador. “Não lembro de ter sido convocado, mas se Menotti disse, pode ser…”, completou.

Em sua última entrevista, com ares premonitórios, foi questionado como gostaria de ser lembrado. E respondeu: “Que gostassem de mim como gostam agora, que me cumprimentem ou buzinem para mim do ônibus como fazem agora, porque vou de bicicleta para todos os lados aqui em Rosario”.

“Com isso, me fazem feliz e isso me faz pensar que ainda estou vivo”.

Para saber mais sobre Carlovich, fiquem com este documentário da Movistar e este ótimo texto de Leo Lepri no Globo Esporte.

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