Quando um time entra para a história como “O Time do José”, é comum haver algum José envolvido nele, e, no caso do Racing campeão da Libertadores e do Mundo em 1967, a identidade dessa pessoa era Juan José Pizzuti, que morreu nesta sexta-feira, aos 92 anos, como o maior ídolo da história da Academia, pelo que fez como jogador e treinador.

Durante as tardes do Campeonato Argentino de 1966, o último conquistado pelo Racing antes de um jejum de 35 anos, as arquibancadas do Cilindro cantavam “como podem ver, como podem ver, é o time do José”, o que provavelmente rima melhor em castelhano e serviu de inspiração para batizar o maior Racing de todos os tempos com o nome do seu mentor.

Antes de treinar um time histórico do Racing, Pizzuti fez muitos gols em outros. Era um tremendo meia-esquerda, mais artilheiro do que a média para a posição. Começou no Banfield, pelo qual foi o maior goleador do Campeonato Argentino durante uma campanha de décimo lugar em 1949, com 29 tentos.

Não passou despercebido pelos grandes – entre outros motivos porque, em dois anos seguidos, ele marcou contra os cinco: Boca, River, Independente, San Lorenzo e Racing, bicampeão argentino – o futebol de Pizzuti, que aproveitaria a debandada de craques para a liga pirata da Colômbia para ganhar um contrato com o River Plate.

Muito tempo em campo, porém, ele não conseguiu, mas a boa notícia é que, a partir de 1952, ele se integraria aos quadros do Racing, que havia acabado de completar um tricampeonato consecutivo. Não fez tantos gols naquele ano, quando a Academia ficou a um ponto do River Plate, e ele já devia estar começando a ficar incomodado por estar no lugar certo na hora errada.

Na temporada seguinte, Pizzuti foi novamente artilheiro do certame, marcando 22 gols pelo Racing. Caiu de rendimento em 1954 e foi emprestado ao Boca Juniors, que havia conquistado o campeonato nacional e faria um bom início de campanha no ano seguinte, antes de deixar o título escapar para o River. Pizzuti voltou a Avellaneda, agora como meia-direita, e mais preocupado em armar as jogadas do que finalizá-las.

E, ainda assim, marcou 18 gols em 1958, quando o Racing recuperou a coroa de melhor clube da Argentina, e lhe deu seu primeiro título nacional. O feito se repetiria 1961, cuja escalação, com Pizzuti, foi declamada no emblemático “Segredo de Seus Olhos”, filme argentino vencedor do Oscar em 2010: “Negri; Anido, Mesías, Blanco, Peano, Sacchi, Corbatta, Pizzuti, Mansilla, Sosa e Belén”.

“Em 1961, eu era o chefe do time. Havia aprendido a parar e caminhar pelo gramado, encontrando os espaços. Eu buscava a posição que me parecia mais conveniente para explorar minhas possibilidades”, afirmou, segundo o Clarín. No entanto, no ano seguinte, sairia rachado com os dirigentes do clube para o Boca Juniors – pelo qual ganharia mais um caneco do Argentino. “O presidente era Sisco, o “Louco” Sisco, como o chamávamos. Ele me disse que eu era o líder do elenco e me vendeu ao Boca. Na verdade, eu era capitão, artilheiro, campeão. Acho que ele me expulsou do clube por isso”, contou.

A sua carreira como jogador terminou em 1963, na Bombonera, com 182 gols em 349 partidas, sendo 118 em 215 pelo Racing, média de mais de meio tento a cada vez que entrava em campo.

Teve também protagonismo na seleção argentina, pela qual teve uma passagem intermitente. O melhor momento foi em 1959, quando fez sua estreia, aos 31 anos. Abriu a campanha da primeira Copa América realizada naquela temporada com dois gols contra o Chile, mas entraria para a história graças ao peixinho que valeu o empate na partida decisiva contra o Brasil de Pelé, recentemente coroado campeão do mundo, e garantiu à Argentina o título do torneio, que o país voltaria a conquistar apenas em 1991.

Foi mantido na equipe para a segunda Copa América de 1959, com resultados muito mais frustrantes. A Argentina ficou em segundo lugar e levou 5 a 0 do Uruguai. Voltaria dois anos depois para suas últimas partidas vestido de albiceleste, pouco antes de iniciar a nova carreira como treinador.

O Time do José

Atrás: Cejas, Alfio Basile, Roberto Perfumo, Ruben Díaz, Miguel Ángel Mori e Oscar Raimundo Martín. Na frente: João Cardoso, Juan Carlos Rulli, Juan Carlos Cárdenas, Norberto Santiago Raffo and Humberto Dionisio Maschio. (Photo by Keystone/Hulton Archive/Getty Images)

Quando Pizzuti retornou ao Racing como treinador, em 1965, após seu primeiro trabalho pelo Chacarita, a Academia estava em baixa, após um primeiro turno que a aproximou da última posição. O impacto foi imediato: uma vitória contra o River Plate por 3 a 1 e, pouco depois, o início de uma sequência de 39 jogos de invencibilidade que seria o recorde do Campeonato Argentino até 1999, quando foi quebrado pelo Boca Juniors de Carlos Bianchi – com 40. Afastou os apuros naquele ano e preparou o título da temporada seguinte.

O principal mérito creditado a Pizzuti foi encontrar as melhores posições para seus jogadores. Como ele próprio conta, “Perfumo, que era 6, coloquei de 2. Basile, que jogava no meio, coloquei de 6. Depois, subi Rubén Díaz ao time principal e o coloquei de 3”, antes de ressaltar que não havia dinheiro para contratações, o que o incentivou a buscar soluções dentro do time e das categorias de base.

Outro trunfo era a questão física, o que permitia aos jogadores trocarem constantemente de posição dentro de um esquema tático dinâmico e fluído, que levou a imprensa argentina a caracterizar aquele Racing como um precursor do Futebol Total de Rinus Michels e Johan Cruyff que abalaria a Europa e o Mundo na década seguinte.

“Um ponto chave era a questão física”, afirma Humberto Maschio, repatriado por Pizzuti da Itália, onde estava defendendo a Fiorentina, e uma das tacadas de mestre do treinador na formação do time que faria história em 1967. “Introduziu coisas da Alemanha e matávamos os rivais fisicamente. Sempre íamos à frente, tínhamos (Jaime) Martinoli (ponta direita), Chango (Juan Carlos Cárdenas), que se desmarcava, (Juan Carlos) Rulli e (Miguel Ángel) Mori eram trabalhadores pelo meio, os de trás subiam dois de cada vez. Pizzuti mudou a posição de vários. E todos os dias conversava por meia hora conosco, sobre futebol, sobre a vida. Sobre tudo, menos sobre os adversários”.

Se tinha um lado próximo aos jogadores, tinha também métodos extremamente rígidos para mantê-los sob controle, com direito a espiões para garantir que eles haviam chegado em casa, como conta o brasileiro João Cardoso, em entrevista ao Futebol Portenho: “Uma vez um brasileiro que jogava no Newell’s, o Zuca, foi jogar em La Plata. Eu estava concentrado em casa. O ônibus do Newell’s passaria a umas duas ou três quadras. Disse a minha mulher falar que se alguém do Racing chegasse que o avisasse que saí rápido. Fiquei conversando uns cinco minutos com o Zuca. No dia seguinte, ao chegar ao treino, fui multado porque não estava em casa. Falei que saí só para ver meu amigo, e o Pizzuti respondeu ‘sim, eu sei disso, mas tu saiu de casa, não adianta’.”

Os métodos de Pizzuti levaram o Racing a conquistar o Campeonato Argentino de 1966 com uma campanha formidável de 24 vitórias, 13 empates e apenas uma derrota, para o River Plate, responsável por encerrar a sequência invicta, com 70 gols marcados e apenas 24 sofridos, mas o grande feito daquele time viria no ano seguinte, em palcos internacionais.

Primeiro na Libertadores. A campanha do Racing na fase inicial começou mal. Depois de vencer o River Plate, perdeu por 3 a 0 para o 31 de Outubro, da Bolívia, mas emendaria oito vitórias consecutivas, com direito a goleadas por 6 a 0 sobre os dois representantes bolivianos – além do 31 de Outubro, o Bolívar.

O empate por 0 a 0 com os compatriotas na rodada final garantiu o primeiro lugar. Na segunda fase, superou novamente o River, o Universitário de Lima e o Colo-Colo para marcar um encontro com o Nacional, do Uruguai, na grande decisão.

Após dois empates por 0 a 0, ganhou a partida decisiva em Santiago, tornando-se o segundo clube argentino campeão sul-americano, depois do Independiente, seu arquirrival. O ineditismo viria no fim daquele ano.

O Mundial de Clubes começou no Hampden Park, onde o gol solitário de Billy McNeill deu ao Celtic a vitória no jogo de ida do duelo. Duas semanas depois, o Cilindro vibrou com os gols de Norberto Raffo e Cárdenas que viraram a partida contra os escoceses de Jock Stein e forçaram a realização de um desempate no Centenário de Montevidéu.

Pizzuti escalou o Racing com Agustín Cejas, Oscar Martín, Perfumo, Nelson Chabay, Alfio Basile, Rulli, João Cardoso, Raffo, Cárdenas, Rodríguez e Maschio para uma partida que certamente alimentou a fama de violência que a Copa Intercontinental tinha naquela época.

Ao fim de um primeiro tempo muito brigado (literalmente), Alfio Basile, para o Racing, e Bobby Lennox, para o Celtic, foram expulsos. Uma falta em Oscar Martín levou Jimmy Johnstone mais cedo ao vestiário. A partida ainda teria mais três expulsões, uma no lado argentino – Rulli – e duas no europeu – John Hughes e Berti Auld, que bateu o pé e ficou em campo antes de o árbitro encerrar a partida, por volta dos 45 minutos, após entrada forte de Bobby Murdoch em Cárdenas.

Sorte do Racing que, àquela altura, o placar já era a seu favor graças a um golaço de Cárdenas de fora da área, o único daquela partida em Montevidéu que consagrou a Academia como o primeiro time argentino campeão do mundo.

Aquele Racing não foi além daquilo, também porque não havia para onde ir depois de conquistar seu país, seu continente e seu planeta. Pizzuti retornaria para o Racing outras duas vezes, sem grande sucesso. A última delas foi em 1983, em uma tentativa desesperada e infrutífera da diretoria para evitar o rebaixamento.

Nada que pudesse arranhar a lenda do Time do José.