“Era chamado de Charro, por sua pinta de galã de cinema mexicano, mas ele vinha de várzea, do riacho de Buenos Aires. José Manuel Moreno, o mais querido dos jogadores da Máquina do River, gozava despistando: suas pernas piratas se lançavam por aqui mas iam por ali, sua cabeça bandida prometia numa trave e cravava na outra.

Quando algum adversário o derrubava com um pontapé, Moreno se levantava sem protestar e sem pedir ajuda, e por mais machucado que estivesse, continuava jogando. Era orgulhoso e fanfarrão, e era brigão, capaz de lutar a murros contra toda a torcida, que o adorava, mas tinha o mau costume de insultá-lo toda vez que o River perdia.

Milongueiro, mulherengo, homem da noite de Buenos Aires, Moreno acordava enrolado nos cabelos de alguma mulher, ou debruçado em algum balcão de bar: “O tango é o melhor treino: levas o ritmo, mudas numa corrida, manejas os perfis, fazes trabalhos de cintura e de pernas”.

Nos domingos ao meio-dia, antes de cada partida, devorava uma tigela de ensopado de galinha e esvaziava mais de uma garrafa de vinho tinto. Os dirigentes do River mandaram ele acabar com aquela vida, indigna para um atleta profissional. Ele fez o possível. Não participou de noitadas durante toda uma semana nem bebeu nada além de leite, e então jogou a pior partida de sua vida. Quando voltou a suas escapulidas, o time o suspendeu. Seus companheiros fizeram greve, em solidariedade ao boêmio incorrigível, e o River teve que jogar nove rodadas com reservas”.

As palavras do mestre Eduardo Galeano, no clássico ‘Futebol ao sol e à sombra’, dão conta da personalidade de José Manuel Moreno. Um goleador nato, de físico privilegiado apesar de toda a farra. E que, se festejava tanto pelos bares de Buenos Aires, é porque se valia do enorme talento para o trato com a bola. Poucos jogadores sul-americanos foram tão cerebrais quanto o atacante. Se a Máquina do River Plate dos anos 1940 foi pródiga em fazer explodir craques, talvez nenhum deles se aproximasse da maestria nata de Charro. Alguém que conseguia fazer a diferença em campo de todas as formas, seja por sua capacidade técnica, na criação ou nos arremates, sobretudo de cabeça. Que, por isso mesmo, conseguiu ser vitorioso em praticamente todos os momentos da carreira.

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Moreno rodou bastante como jogador. Defendeu sete clubes de cinco países. Foi campeão em quatro deles. E só não triunfou no Uruguai porque recusou uma proposta do Nacional para atuar pelo Defensor, onde tinha amigos. Lutou para não ser rebaixado e salvou o time da queda. As maiores glórias vieram mesmo pelo River Plate, no qual chegou em 1933, de um clube de bairro, em teste facilitado pelo fato de trabalhar na revista El Gráfico. O jovem começou a despontar aos 19 anos, durante amistosos pelo Brasil. O suficiente para que logo fosse alçado aos titulares, e depois protagonizasse os primeiros títulos. Em 1936 e 1937, já se tornou nome importante no bicampeonato nacional. Até a formação da Máquina nos anos 1940.

moreno

A alcunha surgiu em outro bicampeonato, em 1941 e 1942, amassando o arquirrival Boca Juniors. Moreno, naquela época, já era um ídolo nacional. O craque famoso pelos gols, pela plasticidade de seus lances e também pelas noitadas – nas quais costumava ser acompanhado pelo próprio pai, um policial aposentado que tentou convencer o filho a seguir nos estudos, mas logo se transformou em seu maior admirador. Em meados da década de 1940, El Charro ainda viveu uma aventura pelo México, depois de entrar em litígio com os dirigentes alvirrubros por questões contratuais e pela indisciplina. Consagrou-se pelo Real España em 1945, em ataque notável com o basco Isidro Lángara. Antes de voltar a liderar a Máquina millonaria em novo triunfo, em 1947. Ao seu lado, atuaram monstros do porte de Labruna, Pedernera, Loustau e Di Stéfano. Craques que também tiveram a honra de conferir a genialidade do Charro bem ao lado.

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Moreno ainda se aventurou pelo Chile, onde fez a Universidad Católica campeã. Voltou à Argentina para vestir justamente a camisa do Boca Juniors, clube que poderia ser o rival do River Plate, mas estava no coração do garoto que nascera em La Boca. Realizou um sonho de infância e também uma vingança de juventude, quando foi recusado em um teste, mesmo marcando dois gols, por ter um estilo “rebelde demais”. Não ergueu taças com os xeneizes, mas ajudou a tirar o clube de uma fase crítica. Depois, rodou de novo pela Católica, além de Defensor e Ferro Carril Oeste. Encerrou a carreira no ocaso do Eldorado Colombiano, com a camisa do Independiente Medellín. Resultado? Mais duas vezes campeão nacional, a nona em 22 anos como profissional.

Em tempos no qual o futebol acabou atrapalhado pela Segunda Guerra Mundial, Moreno é daquelas lendas que não puderam elevar seu nome além em uma Copa do Mundo. Em 1942 e 1946 seria candidato a craque, por tudo o que jogava com a camisa da Argentina. Entre 1936 e 1950, disputou 34 partidas pela seleção. E, obviamente, também botou a faixa no peito. Em 1941, balançou as redes três vezes na campanha vitoriosa na Copa América. Repetiu a dose seis anos depois, quando terminou apontado também como o melhor jogador do torneio. Por fim, a desistência da Argentina da Copa do Mundo de 1950, diante da queda de braço com o Brasil, tirou de Charro a última chance concreta de disputar o Mundial.

Aposentado aos 43 anos, Moreno ainda tentou a carreira de técnico, sem muito sucesso. Longe do futebol, desfrutava de suas histórias. As conquistas que se deram no campo e no tango. Sua aura permanecia tão grande que, durante a primeira visita de Pelé à Argentina, o garoto brasileiro pediu para se encontrar com o velho artilheiro. “Nessa época, Moreno vivia em sua casinha de Merlo. Foram buscá-lo e José disse: digam a Pelé que tenho preparado um ‘asadito’. Eles acabaram não se vendo. Tinham admiração mútua, mas nunca se conheceram”, conta Manuel Arriagada, ex-companheiro do argentino.

A boemia, contudo, cobrou o seu preço cedo. Moreno faleceu em 1978, aos 62 anos, vítima de uma doença no fígado. Nesta quarta, resta a lembrança no exato dia em que completaria 100 anos. Ficam as anedotas e as glórias. As lembranças do galã de bigode cheio e cabelos bem aprumados, que gostava de conquistar corações pelas ruas de Buenos Aires. Mas muito mais corações conquistava nos estádios, por toda a sua capacidade de encantar a partir de uma bola. Não à toa, é considerado um inovador no futebol. Por tudo o que fez e que conquistou, assim como pela representatividade que construiu junto ao público.

Sempre vale recomendar também a leitura do especial feito pelo amigo Caio Brandão no Futebol Portenho, com informações complementares e outros causos da vida de Moreno, dentro e fora dos campos.