Moratti deixa a presidência da Inter e põe fim a uma era

Erick Thohir assume oficialmente o posto, depois de Moratti recusar continuar, e chega ao fim um período de muitas altas e baixas dos nerazzurri

A Internazionale viu uma era chegar ao fim nesta sexta. O clube apresentou uma nova configuração da diretoria, que passa a ter o indonésio Erick Thohir como presidente. É o fim da era Massimo Moratti no comando do clube nerazzurro, posição que ocupava desde 1995. Com Moratti, a Inter passou por períodos muito diferentes, gastou muito, ficou na seca de títulos por anos, mas também ganhou muito na segunda metade da gestão. Foi do fim da seca do scudetto, que durou 15 anos, 10 deles com Moratti, à conquista da Liga dos Campeões depois de 45 anos – em 1965, data da última conquista, o presidente era justamente o pai de Massimo Moratti, Angelomaria Moratti.

A era Moratti teve Javier Zanetti como o primeiro contratado pelo então novo presidente, em 1995, trazido no Banfield. Seria o jogador mais longevo da gestão de Moratti, já que ele ainda está na ativa, 18 anos depois de assinar com o clube. Mas essa foi só uma das muitas contratações de Massimo Moratti no comando da Inter. Foram muitos milhões gastos pelo empresário, que é dono de uma empresa de petróleo. Muitas delas não vingaram e acabaram sendo só um gasto à toa.

Ronaldo quando defendia a Internazionale (Foto: AP Photo/Luca Bruno)
Ronaldo quando defendia a Internazionale (Foto: AP Photo/Luca Bruno)

A maior contratação da história da Inter foi Christian Vieri, então astro da Lazio. Foi levado a Appiano Gentili por € 45 milhões na temporada 1999/00. Acabou se tornando um ídolo do clube, que defendeu até 2005.  A segunda maior contratação da história da Inter veio para substituir a terceira. Ronaldo custou € 28 milhões em 1997/98 e defendeu o clube até 2002, quando foi campeão mundial pela Seleção Brasileira e trocou a Inter pelo Real Madrid, vendido por € 45 milhões. Então, Moratti usou parte do dinheiro para levar Hernán Crespo para o clube, por € 36 milhões.

Entre as dez maiores contratações, estão também Francesco Toldo (€ 26,5 milhões), Diego Milito (€ 25 milhões), Zlatan Ibrahimovic (€ 24,5 milhões), Ricardo Quaresma (€ 24,6 milhões), Clarence Seedorf (€24,5 milhões), Fabio Cannavaro (€ 20,24 milhões) e Francesco Coco (€ 22,5 milhões). Destes, Toldo, Milito e Ibrahimovic foram grandes sucessos, ganharam títulos e se tornaram ídolos. Os demais… Só contratações caras.

O clube também vendeu jogadores por quantias muito altas. Em 2009/10, conseguiu a venda mais alta da sua história, quando o Barcelona pagou €69,5 milhões para contratar Ibrahimovic. Ronaldo foi para o Real Madrid em 2002/03 por € 45 milhões e Mario Balotelli foi contratado pelo Manchester City por € 29,5 milhões. Samuel Eto (€ 27 milhões), Hernán Crespo (€ 26 milhões), Clarence Seedorf (€ 22,5 milhões), Sébastien Frey (€ 21 milhões), Andrea Pirlo (€ 18 milhões), Robbie Keane (€ 18 milhões) e Angelo Peruzzi (€ 17,9 milhões) completam o top 10.

Além de Ronaldo e Vieri, a Inter de Moratti ainda teve Álvaro Recoba, contratado junto ao Nacional por € 17 milhões em 1997/98 e que se tornou um ídolo da torcida. Mas faltavam títulos ao clube, que entrou no século XXI com um jejum de 10 anos da último scudetto, em 1989/90, com o trio de alemães Matthäus, Klinsmann e Brehme.

A Inter de Milito conquistou a Europa e a Tríplice Coroa em 2010  (AP Photo/Victor R. Caivano)
A Inter de Milito conquistou a Europa e a Tríplice Coroa em 2010 (AP Photo/Victor R. Caivano)

Os títulos viriam a partir de 2005/06. O Calciopoli fez um título cair no colo do clube, o que entra para a história, mas não é digno de comemoração dos torcedores. Depois desse, foram quatro títulos consecutivos, até o ano da tríplice coroa, em 2009/10, quando o clube conquistou, além da Serie A, a Copa da Itália e a Liga dos Campeões. Essa temporada, o auge da era Moratti, já quando não se acreditava que conquistar todos os títulos na temporada era possível.

O futebol italiano já vivia um momento difícil, já estava ameaçada pela Alemanha de perder uma vaga – o que aconteceu na temporada seguinte – e o dinheiro minguava nos clubes, abalados pela crise. Mesmo Juventus, Inter e Milan sofriam. E os craques deixavam o país. A Inter se livrou dos seus campeões da tríplice coroa simplesmente porque não conseguia pagar seus salários. Saíram Wesley Sneijder, Maicon, Júlio César, Lúcio… Todos jogadores com altos salários e já veteranos. Foi então que a ideia de vender o clube passou a ficar mais forte e, anos depois, acabou se concretizando.

A recusa de Moratti
Thohir homenageia Moratti: camisa comemorativa pelos 18 anos à frente da Inter (Foto: AP)
Thohir homenageia Moratti: camisa comemorativa pelos 18 anos à frente da Inter (Foto: AP)

A Inter já tinha anunciado a venda de 70% das ações do clube à International Sports Capital, empresa que tem Erick Thohir como o principais acionista. Havia a especulação que Massimo Moratti poderia continuar no cargo de presidente, mesmo não sendo mais o acionista majoritário. Porém, no anúncio feito nesta sexta, foi informado que o presidente será mesmo Erick Thohir. Mas a possibilidade de Moratti continuar realmente existiu. Foi ele que recusou a proposta de continuar exercendo o cargo à frente da diretoria.

“Eu acho que é certo que a pessoa que carrega a responsabilidade da operação seja também presidente do clube”, afirmou Moratti. “Eu devo dizer também que o senhor Thohir e seus sócios insistiram que eu ou meu filho deveríamos ser o presidente e eu os agradeço por isso. Contudo, nós sentimos que fazer alguma coisa com a responsabilidade nos ombros de outra pessoa não seria certo, não é algo que estamos acostumados a fazer”, explicou ainda o agora ex-presidente.

Moratti foi eleito como presidente honorário do clube, algo que ele agradeceu. “Ser presidente honorário e meu filho ser vice-presidente é importante para nós”, declarou. “Isso nos permite a continuar próximo do time e do clube, respeitando as posições dos que estão chegando”, afirmou ainda o empresário de petróleo.

O novo presidente
Thohir, novo presidente da Inter (Foto: AP)
Thohir, novo presidente da Inter (Foto: AP)

Thohir, que é acionista majoritário também do DC United, time dos Estados Unidos, além de acionista no Philadelphia 76ers, franquia da NBA. É bastante ligado ao basquete, já que é o atual presidente da Federação de Basquete do Sudeste da Ásia e dono de dois clubes da modalidade no país, Satria Muda BritAma Jakarta e Indonesia Warriors. Foi presidente da Federação de Basquete da Indonésia até 2006 e foi o chefe de delegação da Indonésia na Olimpíada de Londres 2012. É dono do clube de futebol Persib Bundung.

“Este é verdadeiramente um dia especial na minha vida. A Inter é uma magnífica história de paixão, uma tradição de vencer e compromisso com a excelência. Como disse Giacinto Facchetti, ‘o segredo de cada triunfo está na sua própria crença’. Nossa crença está na nossa paixão e nossa paixão irá pavimentar o caminho para o sucesso da Inter”, disse Thohir em seu discurso de posse.

“Nós precisaremos ser criativos para atrair novos torcedores para a Inter. Nós precisamos ser criativos para encontrar novos patrocinadores e atrair novos torcedores ao estádio. Para conseguir isso, nós teremos que ser ainda mais criativos com os eventos. Isso irá permanecer como um sonho da nossa gestão não conseguir colocar em prática essas ideias. Nós precisaremos de apoio para conseguir isso. Eu espero que vocês nos recebam nessa família para trabalhar bem juntos e chegar aos nossos objetivos. Forza Inter!”, concluiu o indonésio.

A nova diretoria da Inter tem oito membros. Erick Thohir é o presidente, com Rosan Roeslani, Handy Soetedjo, Thomas Shreve, Hioe Isenta, Angelomario Moratti, Rinaldo Ghelfi e Alberto Manzonetto. Angelomario Moratti, filho de Massimo Moratti e neto de Angelomario Moratti, será o vice-presidente.

Thohir tem um discurso ponderado e indica que não deve fazer investimentos vultosos como os do Chelsea, Manchester City e do Paris Saint-Germain. Mas o clube deve ter uma saúda financeira suficiente para não precisar vender ou dispensar jogadores porque seus salários são muito altos e prejudicam as finanças do clube.