Futebol e música estão entre os terrenos mais férteis à criatividade humana. A inspiração causada pelo som aprimorou o swing de diversos craques, assim como a devoção à bola motivou inesquecíveis canções. As misturas de chutes e batuques são constantes na história do futebol brasileiro e da MPB, em duas diferentes artes que servem de estandarte à nossa cultura. E poucos souberam fundir tão bem as duas coisas quanto Moraes Moreira. O talento da música se tornou amigo de tantos talentos da bola. Apreciou o jogo de dentro do campo, onde também exibia as suas qualidades, e das arquibancadas, se unindo como mais um apaixonado à multidão, capaz de traduzir esses sentimentos em letra e melodia.

O falecimento de Moraes Moreira nesta segunda-feira, aos 72 anos, causa um enorme impacto à MPB. Sua obra inovadora está ao alcance de todos, da revolução gerada pelos Novos Baianos a partir dos anos 1970 até os sucessos da carreira solo. E o futebol também sentirá muitas saudades de Moraes Moreira: a bola, por seu bom trato nos campinhos da vida; os futebolistas, que o acompanharam nas peladas e nos palcos; os rubro-negros, que perderam um de seus nomes mais ilustres; e os torcedores em geral, que não ganharão mais as canções do baiano, mas podem apreciar seu legado boleiro.

Nascido na cidade baiana de Ituaçu, em julho de 1947, Antônio Carlos Moraes Pires entrou em contato com o futebol durante a infância. O rádio que apresentava diferentes canções e aprimorava o gosto do menino pela música, ao mesmo tempo, também o transportava ao Maracanã nas tardes de domingo. Moraes Moreira sintonizava as emissoras cariocas e começou a nutrir seu amor pelo Flamengo através das narrações. Seria fisgado pelo ardor rubro-negro, ainda que declarasse simpatia ao Bahia e cantasse o hino do tricolor no carnaval de Salvador.

VEJA TAMBÉM: Beth Carvalho exaltou o Botafogo em seus sambas e o amou por toda a sua vida

“A música e o futebol sempre estiveram presentes na minha vida. Não era à toa que eu, ainda menino, na minha Ituaçu, vivia cantarolando aquela antiga cantiga que dizia: ‘Mamãe, eu não quero trabalhar de sol a sol, quero ser cantor de rádio ou jogador de futebol’. Sempre fui flamenguista doente. Aquele que detestava perder, principalmente pro Vasco”, escreveria à revista Placar, em 1995. “Vestir a camisa do Flamengo sempre foi um desafio para qualquer jogador, pois, além das qualidades técnicas, teria também que provar em campo o amor, a raça e a vontade de vencer”.

Com boa estatura, Moraes Moreira jogava de centroavante na equipe de seu bairro. “Era uma mistura de Roberto Dinamite e Dario Peito de Aço”, conforme definiu ao Jornal dos Sports, em 1989. Em casa, o garoto era leitor assíduo da antiga ‘Revista do Esporte’ e tinha mais de 300 edições em sua coleção. “Sabia a escalação de todas as equipes do Rio”, segundo ele. Já diante do rádio, se unia à massa rubro-negra num momento bastante favorável ao Flamengo. Entre 1953 e 1955, o esquadrão dirigido por Manuel Fleitas Solich conquistou o tricampeonato carioca, o segundo da história do clube. Foi um momento essencial para que o Fla expandisse sua torcida, e não só na geral do recém-inaugurado Maracanã. A relação do baiano com o time seria alimentada também pela identidade nordestina presente naquelas escalações.

Nomes como o potiguar Dequinha, o cearense Babá, o paraibano Índio, o pernambucano Duca e o alagoano Tomires faziam sucesso no Rio de Janeiro. O preferido de Moraes Moreira era Dida, outro de Alagoas, também o mais querido pelo restante da torcida. Era o craque que concretizava os sonhos de uma multidão, inclusive daqueles que estavam a centenas de quilômetros de distância das arquibancadas, mas sintonizados através das ondas do rádio. “Desde a época de Dida, lá na Bahia, eu já era Flamengo. Ouvia no rádio os jogos e adorava ver as cores da camisa: o vermelho e o preto. Apesar de o Vitória também possuir essas cores, nunca torci para ele e nem para outro clube”, contou ao Jornal do Sports, em 1994. Dizia que o Flamengo “está no sangue, na raça, é a cara do país”.

Sanfoneiro em festas de São João no interior da Bahia, Moraes Moreira aprendeu violão na adolescência e se mudou a Salvador com 17 anos, onde ampliou seu contato com a música – influenciado pela Tropicália, além de amigo de Tom Zé. E, assim como seus ídolos do Flamengo, faria as malas ao Rio de Janeiro, após a criação dos Novos Baianos. Aos 20 anos, o interiorano chegou à metrópole acompanhado por Luiz Galvão, Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo e Pepeu Gomes – entre outros, seus principais parceiros de criação. A cidade impulsionaria os músicos, colocando-os na vanguarda da MPB a partir dos anos 1970. Mais do que isso, a mudança também estreitaria os laços de Moraes Moreira com sua paixão rubro-negra, frequentando o Maracanã e conhecendo os próprios jogadores do Flamengo.

Os Novos Baianos fundiram diferentes elementos em suas canções. A amizade com João Gilberto influenciou o trabalho do grupo, que inovava com instrumentos do rock para tocar samba e outros ritmos distintos. Assim estouraram com ‘Acabou Chorare’, seu segundo álbum, lançado em 1972 – e considerado pela revista Rolling Stone o melhor disco da história da música brasileira. Ao lado de Luiz Galvão, Moraes Moreira era o principal compositor. Sete das nove faixas daquele álbum são assinadas pelo rubro-negro. E o futebol seria mencionado. ‘Besta é tu’ cita o “Maraca domingo”. Já ‘Menina dança’ versa: “Só entro no jogo porque / estou mesmo depois / depois de esgotar / o tempo regulamentar”.

VEJA TAMBÉM: Nos 70 anos de Robert Plant, um pouco de sua paixão insaciável pelo Wolverhampton

Nesta época, os Novos Baianos já viviam no Cantinho do Vovô, um sítio na estrada para Jacarepaguá. Os cerca de 20 moradores do local tinham um estilo de vida comunitário inspirado nos hippies – algo ainda mais significativo em tempos de ditadura militar. E a rotina por lá incluía o futebol, com um campinho à disposição dos músicos ávidos a bater sua bola. Além disso, também conseguiam emprestar o campo do Guanabara Esporte Clube, logo ao lado do terreno, com dimensões oficiais.  “Depois do café da manhã, Galvão ia compor, Moraes ficava tocando. A gente se exercitava muito, ia pra praia de bicicleta. Quando o sol estava acabando, começava o baba”, contou Paulinho Boca de Cantor, um dos principais nomes do grupo, à Revista Trip em 2010.

O fim de tarde era sagrado às peladas dos Novos Baianos, que juntavam não apenas os moradores do sítio, como também outros músicos e até mesmo jogadores de futebol renomados – em lista estrelada que inclui Zico, Roberto Dinamite, Paulo Cézar Caju, Dé Aranha, Brito, Jairzinho, Nei Conceição, Geraldo Assoviador e outros craques da época. Afonsinho, que entrou em litígio com o Botafogo, foi quem mais se aproximou dos Novos Baianos. Chegou a assistir à Copa do Mundo de 1974 ao lado dos músicos no Cantinho do Vovô. “A vida era muito intensa. Os músicos eram apaixonados por futebol e nós, jogadores, éramos apaixonados por música”, contou Afonsinho à Revista ESPN, em reportagem de 2013.

Segundo Luiz Galvão, os moradores do Cantinho do Vovô ofereciam “uma feijoada ou uma peixada” e, assim, alguns dos principais nomes do futebol carioca compareciam ao campinho. Foi desta maneira que os Novos Baianos criaram seu próprio time, que disputava amistosos contra adversários da região e até mesmo clubes profissionais. Moraes Moreira estava sempre presente nas escalações, como centroavante. Por vezes, Baby Consuelo representava a ala feminina nos babas. E enquanto Paulinho da Viola calçava chuteiras, Gilberto Gil e Caetano Veloso apareciam por causa da música.

VEJA TAMBÉM: O dia em que Rod Stewart e uma multidão de escoceses invadiram o gramado de Wembley

“Muitos viam o Cantinho do Vovô assim, como uma comunidade hippie. Para nós, era a concentração de um time de futebol, jogando por música”, comentaria Moraes Moreira ao Correio Braziliense, no último mês de dezembro. Ou como o baiano também confessaria à Placar, em 1995: Podia faltar grana para a comida [no Cantinho do Vovô], mas sempre tínhamos dinheiro para comprar maconha e os equipamentos esportivos”.

O maior símbolo da relação dos Novos Baianos com o futebol surgiu em 1973, no terceiro álbum do grupo: ‘Novos Baianos F.C.’, em que uma foto da equipe em suas peladas ilustra a capa do disco. Naquele mesmo ano, Solano Ribeiro dirigiu um documentário homônimo, produzido a uma emissora de televisão alemã. O filme registra a rotina da banda em seu sítio. E o futebol toma parte do curta. Durante os primeiros minutos, a turma brinca em um racha sem muito compromisso, com várias camisas de clubes presentes. Moraes Moreira veste a 10 do Flamengo, antes de tocar ‘Preta Pretinha’ no violão. Depois, o filme mostra o time dos Novos Baianos totalmente uniformizado, subindo na caçamba de um caminhão e partindo a um de seus amistosos. Moraes Moreira era o 9, com o fardamento vermelho de listra transversal branca.

“Eles eram fanáticos a tal ponto que se consideravam melhores jogadores do que músicos, o que evidentemente não correspondia à realidade. Quando fiz o documentário, tive que dar, sim, alguma ênfase ao futebol, mas sem levar muito a sério. O futebol era muito importante para eles a tal ponto que tínhamos feito um cronograma de filmagens e o último dia seria um domingo à noite. Eles falaram que precisávamos acabar antes de tal hora pois tinha jogo do Vasco. A gente terminou a tempo de conseguirem assistir ao jogo”, revelou o diretor Solano Ribeiro, ao repórter Janir Júnior.

VEJA TAMBÉM: No dia em que Michael Jackson faria 60 anos, três episódios pitorescos entre o futebol e o Rei do Pop

Entre as letras do álbum ‘Novos Baianos F.C.’ que mencionam o futebol está ‘Só se não for brasileiro nessa hora’. Nesta canção, Moraes Moreira relembra a infância em Ituaçu, quando jogava futebol com outros meninos na rua, quebrava vidraças e via os vizinhos furarem sua bola. “Que a vida que há do menino atrás da bola / Para carro, para tudo/ Quando já não há tempo / Para pito, para grito e o menino deixa a vida pela bola / Só se não for brasileiro nessa hora”, versava a música. Citações mais breves ocorrem também em ‘Vagabundo não é fácil’ e ‘Os Pingos da Chuva’.

Em entrevista ao ProduçãoCultural.org.br, Moraes Moreira chegou a declamar um cordel sobre a equipe dos Novos Baianos: “Aquela banda formava um time já respeitado por outros da região, e quase sempre ele estava pra lá de bem reforçado por craques de seleção. Nei Conceição, Afonsinho, além do jogo bonito. Também corriam atrás da força de Jairzinho, a segurança de Brito. Galvão, Baixinho, Moraes, Gato, Negrita, Jorginho. Vou dando a escalação, sendo assim, muito franco: ninguém ali, meu irmão, queria ficar no banco”. Tempos depois, cansado de ficar no banco por ser mais novo que os outros, o baixista Dadi Carvalho fundou um time com amigos cariocas: era o ‘Passa Bola Meu Bem’, que rivalizava com o Novos Baianos FC.

Durante o planejamento de uma turnê pelos Estados Unidos naquele período, os Novos Baianos quase apresentaram um espetáculo em estádios. A ideia era jogar futebol por um tempo, para difundir o esporte no país, e depois iniciar o show. Conforme o músico Luiz Galvão, em depoimento ao livro ‘Novos Baianos: A história do grupo que mudou a MPB’,  a proposta chegou à Warner (dona do New York Cosmos) e alguns jogadores viajariam com a banda, incluindo Afonsinho e Nei Conceição. Contudo, por conta de uma mudança na relação entre gravadoras, aquela iniciativa não saiu do papel.

VEJA TAMBÉM: No Maracanã ou no Pacaembu, Angela Maria também era apaixonada por futebol e entendia do riscado

Outro causo relacionado ao Novos Baianos F.C. envolveu Gilda Horta, empresária dos músicos. Na época em que ‘Preta Pretinha’ ganhava as paradas de sucesso, Gilda chegou ao Cantinho do Vovô acompanhada pelo empresário do Jackson Five, com uma proposta irrecusável aos seus clientes: abrir um show do grupo de Michael Jackson. Porém, bem no meio de sua pelada, os Novos Baianos não quiseram dar muita trela e acabaram desperdiçando a oportunidade.

“Tivemos que parar o jogo para atendê-los. Gilda traduziu pra gente as palavras do empresário: ‘Eu pago tanto para os Novos Baianos abrirem o show do Jackson Five’. A quantia era considerável. Mas a gente só queria saber de bola. Acredite se quiser, rejeitamos a proposta, agradecemos o convite e o empresário voltou perplexo. Enquanto isso, retornamos ao futebol”, relembrou Luiz Galvão, à Revista ESPN em 2013.

Como definiu Moraes Moreira, ao ProduçãoCultural.org.br: “Começamos a levar o futebol tão a sério quanto a própria música. Chegava o Afonsinho para jogar, Jairzinho jogava no nosso time, entendeu? E a gente começou a jogar contra os times da região. Os caras morriam, mas não queriam perder para os cabeludos. Era uma loucura. Muitas vezes, a gente só jogava viajando de ácido. Fazia uma jogada e caía no chão dando risada. Os caras não entendiam nada. Chegamos em Recife para fazer show, ganhamos do juvenil do Santa Cruz. Se ia ter show, tinha que ter jogo antes”. Entre os adversários do Novos Baianos FC, esteve o Botafogo de Marinho Chagas e Ubirajara. Os alvinegros golearam por dois dígitos, em duelo no campo do Guanabara.

VEJA TAMBÉM: Aznavour FC, o time da elite armênia que homenageava Charles Aznavour, lenda da música francesa

Nos discos seguintes dos Novos Baianos, outras composições de Moraes Moreira que se destacam por causa do futebol são ‘Reis da Bola’ (“Esse onze aí vem do jogo de rua, da bola de meia / É anos e anos de futebol correndo na veia”) e ‘O Prato e a Mesa’ (“Eu sou o ataque, você a defesa, o prato e a mesa”). Em 1976, o músico deixou o grupo para seguir carreira solo. Mesmo longe do Cantinho do Vovô (que compraria anos depois), o baiano mantinha o esporte como parte fundamental de sua vida.

Em paralelo, o talento de Moraes Moreira como centroavante ajudava outros times. O baiano também participou do Trem da Alegria, equipe criada por Afonsinho. O elenco incluía jogadores sem contrato, veteranos aposentados e outros amigos. Lendas como Garrincha e Nilton Santos estiveram presentes na equipe, assim como Fágner e Paulinho da Viola. Moraes Moreira se misturava a todos esses dentro de campo. João Nogueira, por sua vez, criou o hino do Trem da Alegria ao lado de Roberto Ribeiro.

Moraes Moreira ainda participou do célebre jogo armado a Bob Marley durante a visita do jamaicano ao Brasil, em março de 1980. O campo de futebol de Chico Buarque abrigou o evento. O time de Bob incluía Chico Buarque e Toquinho, além de Paulo Cézar Caju. Moraes Moreira jogou do outro lado, numa equipe formada por funcionários da gravadora Ariola, responsável por trazer o ‘rei do reggae’ ao Rio de Janeiro – Alceu Valença era um dos companheiros mais ilustres. Foram 20 minutos de brincadeira, com a vitória por 3 a 0 dos amigos de Bob Marley, com um gol do jamaicano – apaixonado pelo esporte e fã da seleção brasileira. Mais à noite, Moraes Moreira fez seu show na festa de recepção oferecida ao visitante.

“Eu já era admirador de Bob Marley antes mesmo de saber que ele vinha ao Brasil. Como eu era um dos contratados da Ariola, fiz questão de conhecê-lo e, na medida do possível, acompanhá-lo enquanto estivesse aqui. Jogamos bola, fumamos alguns cigarros juntos e ele também foi a um show que fiz no Morro da Urca. A gente ficou no mesmo camarote e conversamos bastante”, contou Moraes Moreira ao livro ‘O eterno verão do reggae’, de Carlos Albuquerque. A música ‘Ver Bahia’, de Moraes, homenageia Marley.

VEJA TAMBÉM: O ‘ponta direita’ Luiz Melodia, sua paixão pelo Vasco e a composição esquecida ao amigo Dener

E através das homenagens transformadas em música, Moraes Moreira expressou diversos de seus gostos. O futebol seguiu eloquente em sua carreira solo. Em 1979, a grande fase rubro-negra seria cantada em ‘Vitorioso Flamengo’. A composição surgiu logo após o clube confirmar o título do Campeonato Carioca. Na letra, o baiano diz que “esse Flamengo de agora faz lembrar aquele do tri / quem conhece sua história diz assim eu nunca vi”, uma referência ao esquadrão de Dida que povoou sua imaginação em Ituaçu. O torcedor seria profético: sete meses depois, o Flamengo faturaria o chamado ‘Carioca Especial’, que consumaria o terceiro tricampeonato estadual da história do clube.

Nesta época, Moraes Moreira passou a se apresentar com frequência nos eventos organizados pelo Flamengo, sobretudo nos aniversários do clube. E uma passagem curiosa ligou o cantor ao maior título da história rubro-negra. Moraes Moreira tinha show marcado na sede do Olaria Atlético Clube em 13 de dezembro de 1981, mesma madrugada do Flamengo x Liverpool na final do Mundial. A solução? Um telão seria montado ao lado do palco, para que o público (e o baiano) acompanhasse a partida em Tóquio. Certamente Moraes Moreira tocou com uma energia a mais após a imponente vitória do Fla por 3 a 0.

VEJA TAMBÉM: O dia em que Mick Jagger foi pé quente e um show dos Stones marcou o tri mundial da Itália

Zico, em especial, mantinha uma relação próxima com Moraes Moreira. Os dois se conheceram muito antes do estrelato do camisa 10, quando ele era uma promessa requisitada nas categorias de base. “Conheci Zico ainda nos aspirantes e não tive dúvida de que estava diante de um futuro craque, completamente identificado com o espírito e com a mística do clube. Nascido em Quintino e criado na Gávea, o Galinho entrou pra valer no time principal, começando ali uma longa história que marcou, sem dúvida, a vida de toda a nação rubro-negra. Craque se faz em casa”, escreveu o baiano à Placar, em 1995.

Zico foi um dos assuntos prediletos nas canções de Moraes Moreira. O melhor exemplo veio em 1983, no álbum ‘Pintando o Oito’, em que o baiano veste a camisa 8 rubro-negra na capa. A última faixa do disco é ‘Saudades do Galinho’, frevo dedicado a Zico logo após sua transferência à Udinese. “E agora como é que eu fico nas tardes de domingo sem Zico no Maracanã / Agora como é que eu me vingo de toda derrota da vida, se a cada gol do Flamengo eu me sentia um vencedor”, versava o torcedor, que também lamentava pelos meninos, pelos arquibaldos e pelos geraldinos sem a inspiração do ídolo a cada domingo. E pedia: “Volta, Galinho, que aqui tem mais carinho e dengo / Vai e volta em paz que o Flamengo já sabe o que esperar, você voltar”.

VEJA TAMBÉM: Kurt Cobain, 50 anos: Quando a final da Eurocopa criou um clima insano para o show do Nirvana

Moraes Moreira, que visitava a Gávea de tempos em tempos, ficou meses sem retornar ao clube após a venda de Zico. Quando o fez, em 1984, estava acompanhado do filho Davi Moraes – então um menino de 11 anos, igualmente fanático pelo clube. Segundo o Jornal dos Sports, o baiano conversou com Tita, Andrade e Nunes. “O Flamengo provoca emoção na gente. De vez em quando olho para a torcida e ela me inspira a composição de uma melodia ou um poema. O Flamengo é uma loucura”, afirmou Moreira, na época. Todavia, a visita mais feliz ocorreria em 1985, quando os rubro-negros também reapresentaram Zico após dois anos na Itália.

Moraes Moreira, de novo, não deixou a ocasião passar em branco. Desta vez compôs ‘O Galo voltou’, que fez parte da peça publicitária para confirmar o retorno e era cantada pelos torcedores no desembarque de Zico no Galeão. “Que bom que toda essa história teve um final feliz / Que bom ver o Galinho de novo feliz”, falava. Na Gávea, o baiano deu uma canja com suas duas músicas ao ídolo. E também estaria em campo no Maracanã, no amistoso entre Flamengo x Amigos de Zico. Já em 1989, quando o Galinho de Quintino se despedia do futebol profissional (antes de voltar a atuar no Japão), Moraes Moreira compôs ‘Só pra ver Zico jogar’.

Além do Flamengo, Moraes Moreira prestou tributo à seleção brasileira por duas vezes. Antes da Copa do Mundo de 1982, em meio à empolgação com o time de Telê Santana, lançou ‘Sangue, swing e cintura’. Com menções aos personagens daquela equipe, também fala de Pelé e Garrincha. As narrações esportivas são transformadas em letra: “Tá lá, tá lá, tá lá, tá no filó, tá na filosofia / Quem sabe, sabe: o craque brasileiro tem sabedoria / Sangue, swing e cintura / Mistura de fé, futebol e arte que em nenhuma outra parte do mundo não há”.

Já em 1990, ao lado de Pepeu Gomes, seu antigo parceiro nos Novos Baianos, Moraes Moreira lançou ‘Brasil campeão’. Estava bastante confiante antes do Mundial da Itália, como comentou ao Jornal dos Sports em 1989: “Temos jogadores para três seleções, pelo menos. Veja: os artilheiros da Holanda (Romário), da Espanha (Baltazar) e o vice da Itália (Careca) são brasileiros. Craques espalhados por Portugal, França, Espanha, Itália. É claro que precisamos ficar atentos à evolução tática moderna, mas sempre fazendo mais bonito, dando dribles, desarmando os esquemas. Lembremos de Garrincha. Acredito na criatividade do profissional brasileiro. Vamos competir, sim, mas com arte”.

VEJA TAMBÉM: Freddie Mercury, 70 anos: O dia em que o cantor, por acaso, fez amizade com o jovem Maradona

Em 1995, Júnior idealizou o disco ‘Uma vez Flamengo, sempre Flamengo’ para comemorar o centenário do clube e contou com a participação de Moraes Moreira. Na época, à Placar, o músico analisava o momento do Fla: “Continuo flamenguista doente. Sou aquele que ainda não perdoou Bebeto por ter ido para o Vasco; aquele que sempre desconfiou que a camisa rubro-negra não vestia bem o corpo de Romário. O mesmo pode estar acontecendo com Edmundo, que também veio do Vasco. Não estou discutindo aqui o talento dos dois. São craques, só que eles não têm, como o Sávio, a cara do Flamengo. Quem sabe não é por isso que o ‘ataque dos sonhos’ ainda não deu resultados? Precisamos urgentemente voltar a dar valor à prata da casa. A megalomania, a política do estardalhaço que tomou conta da atual diretoria do Flamengo, pode nos custar muito caro”. Dizia ainda que “não bastava ser apenas um bom administrador”.

Durante o seu aniversário de 70 anos, em 2017, Moraes Moreira recebeu um baita reconhecimento do Fla: pôde celebrar a data no próprio salão nobre da Gávea, em evento recheado de jogadores históricos. Zico, Adílio, Rondinelli, Júlio César, Marinho e Lico foram dar os parabéns. Houve, logicamente, um show do músico – com atenção especial às suas canções boleiras. Naquela comemoração, o baiano ganhou uma camisa personalizada e uma placa do clube, além de receber uma carinhosa visita de Zico em seu camarim. O filho Davi Moraes o acompanhou no palco.

A mente de Moraes Moreira não deixou de pensar em música à medida que a idade se passou, assim como permaneceu vidrada no futebol. Em 2018, ele declarou à Veja São Paulo que “estava cheio de projetos” e continuava fazendo muitas músicas, inclusive sobre “Copa do Mundo e futebol”. Naquele mesmo ano lançou ‘Ser Tão’, seu disco mais recente, dedicado à cultura nordestina e inspirado na literatura de cordel. Era o último legado de uma trajetória brilhante. O futebol, inspiração ao longo de décadas, foi agraciado tantas vezes com a obra daquele ‘novo baiano’ que para sempre será vanguardista.