Durante os primeiros anos do Mundial de Clubes no atual formato, sempre havia uma grande expectativa sobre o que os clubes mexicanos poderiam aprontar. A teórica “terceira força”, entretanto, muitas vezes decepcionou no torneio da Fifa. A partir de 2006, quando o país sempre teve um representante, foram sete eliminações nas quartas de final em 14 edições. Mesmo quando passaram, não necessariamente os mexicanos incomodaram. O Pachuca, que levou a semifinal contra o Grêmio até a prorrogação, foi quem mais se aproximou da decisão. Mas, nesta quarta-feira, o Monterrey escreveu uma nova história. Não arrancou a inédita classificação. Ainda assim, caiu em pé, depois de todas as dificuldades que impôs ao Liverpool. A vitória dos Reds por 2 a 1 custou a sair.

O Monterrey tem grande parte na fama ruim carregada pelo México no Mundial de Clubes. Tricampeões da Concachampions entre 2011 e 2013, os Rayados só uma vez avançaram às semifinais. Tinham uma equipe tarimbada na época, estrelada por Humberto Suazo. Porém, caíram diante do Kashiwa Reysol nos pênaltis em 2011 e contra o Raja Casablanca na prorrogação em 2013. Só conseguiram derrotar o Ulsan Hyundai em 2012, mas logo sucumbiriam para o Chelsea nas semifinais. Ao menos, naquela edição, o clube alcançaria a terceira colocação. Apenas o Pachuca de 2017 repetiria tal desempenho, o melhor da história dos mexicanos no Mundial.

O Monterrey de 2019 não vinha tão badalado, até pelas naturais desconfianças sobre os mexicanos. Mas bastava ver o desempenho dos Rayados ao longo do ano para saber como poderiam dar trabalho no Mundial. A equipe de Diego Alonso faturou a Concachampions em abril, ao derrotar o rival Tigres. Um mês depois, o clube caiu nas semifinais do Clausura 2019, na revanche dos rivais. Já no Apertura 2019 (sim, disputado no segundo semestre), a classificação aos mata-matas aconteceu de maneira apertada, mas os regiomontanos eliminaram o líder Santos Laguna e o Necaxa, até alcançarem a decisão contra o América. Embalado, o time agora treinado por Turco Mohamed (de volta à agremiação que dirigiu de 2015 a 2018) deu uma pausa nas finais da Liga MX justamente para viajar ao Catar.

Durante as quartas de final contra o Al-Sadd, o Monterrey temeu um pouco mais nos minutos finais. Construiu o resultado positivo e tomou sustos por conta de suas debilidades defensivas. Ante o Liverpool, em contrapartida, os Rayados deixaram para trás o nervosismo da estreia e o peso da responsabilidade. Foi uma equipe muito mais segura de si e que não sentiu o gol precoce dos Reds. Pelo contrário, os mexicanos se mostraram superiores durante a maior parte do jogo e esbarraram repetidas vezes em Alisson.

Que se pese as circunstâncias favoráveis, contra um Liverpool cheio de desfalques e muitos jogadores poupados, o Monterrey aproveitou a oportunidade para apresentar suas virtudes. Os avanços rápidos atormentaram a desentrosada defesa inglesa e geraram diversas oportunidades. Além disso, os Rayados não tinham problemas para arriscar seus chutes, com muitas tentativas de fora da área. Substituindo o lesionado Vincent Janssen, Rogelio Funes Mori comprovou seu oportunismo ao anotar o gol que deu o empate aos mexicanos e foi bastante acionado como homem de referência. Ao seu lado, outros companheiros se destacaram. Dorlán Pabón travou duelos constantes com Alisson. Jesús Gallardo também aparecia muito no apoio, enquanto Charly Rodríguez controlou o jogo no meio.

O Liverpool atuava em uma marcha mais lenta que o costume, é verdade. Era letárgico no ataque e errava demais na hora de construir suas jogadas. Ainda assim, o Monterrey apresentou um bom nível de organização defensiva . Não deu tantos espaços para os Reds finalizarem e mantiveram certa tranquilidade, mesmo quando o desespero batia nos ingleses. O goleiro Marcelo Barovero foi pouco testado. Logo à frente, César Montes ajudava a liderar a zaga, até se lesionar no fim. Uma pena que o desgaste físico tenha pesado contra os mexicanos.

O gol de Roberto Firmino nos acréscimos caiu como um balde de água fria sobre o Monterrey. O abatimento era visível entre os jogadores ao apito final, muitos deles estirados no gramado, enquanto o técnico Turco Mohamed fazia cara de poucos amigos – bronqueado com a arbitragem. De qualquer maneira, reduzida a adrenalina por aquilo que ficou no quase, o sentimento deve ser de orgulho. Os mexicanos ficaram pelo caminho, mas nunca honraram tanto suas condições no Mundial. Estiveram a um triz de derrubarem os europeus pela primeira vez antes da final. Seria uma façanha, e merecida, por tudo aquilo que os Rayados jogaram.

Tecnicamente, este não foi um Mundial de Clubes com nível exuberante. Todavia, poucas edições da competição apresentaram equipes tão fortes. Monterrey e Al-Hilal jogaram para ganhar as semifinais e estiveram próximos disso, não fosse a queda de rendimento nos minutos finais. Por aquilo que ambicionaram nesta semana, certamente merecem um lugar entre os mais fortes representantes de seus respectivos continentes. E podem fazer um bom jogo na decisão do terceiro lugar. Mais do que o bronze, o importante será manter a honra em pé no último compromisso pelo torneio.