Germán Burgos atravessou a década inteira como um importante coadjuvante no Atlético de Madrid. O ex-goleiro permaneceu ao lado de Diego Simeone em toda a ascensão vivida pelos colchoneros desde 2011, rumo à reconquista dos títulos e às finais de Champions. “El Mono” complementava a vibração e a voz de comando de “El Cholo”, por vezes o substituindo em suas suspensões – como na final da Liga Europa de 2018. Até pelo histórico notável como atleta, Burgos foi um dos assistentes mais representativos do futebol europeu durante os últimos anos. E a ligação se encerra com emoções, diante do anúncio do veterano, que deixará o Metropolitano para seguir o seu próprio caminho como treinador principal.

Assim como Simeone, Burgos também defendeu o Atlético de Madrid como jogador. O goleiro com estilo de rockstar e por vezes algumas patacoadas sob as traves já era bastante conhecido, sobretudo por seu protagonismo no River Plate e na seleção da Argentina. Assinou com o Atleti em 2001, quando o clube disputava a segunda divisão. Mesmo em fim de carreira, o Mono se tornou muito querido pelos torcedores rojiblancos ao contribuir ao retorno à elite do Campeonato Espanhol. Também daria um exemplo de superação antes de pendurar as luvas, superando um câncer nos rins.

A parceria entre Simeone e Burgos, iniciada desde os tempos de seleção, se repetiria quando o antigo meio-campista se tornou treinador. Mono foi seu assistente ainda no Catania e no Racing. Quando Cholo acertou sua volta ao Atlético de Madrid, em dezembro de 2011, o ex-goleiro estava incluído no pacote. Foi o braço direito do comandante em todo o seu trabalho, que rendeu dois títulos da Liga Europa, um do Campeonato Espanhol e um da Copa do Rei, além de duas finais na Champions League. Mas, depois de quase nove anos com os colchoneros, Burgos anunciou que sairá ao final da temporada.

“Sei que até o último minuto em que estarei aqui, tratarei de completar os objetivos. Eu quero me retirar do Atlético sendo campeão. Que isso fique claro a todo mundo. Vou buscar os sonhos, como o que tenho de sair como vencedor da Champions”, declarou Burgos, em vídeo publicado pelo Atlético. “Simeone é um amigo que tenho há muito tempo, nos entendemos com sinais, cabeçadas, olhares. Sempre digo que almocei e jantei mais com Cholo do que com a minha família, depois de tantos anos na seleção e no Atlético”.

Uma das imagens mais constantes durante os últimos anos nos jogos do Atlético era a presença de Burgos na beira de campo, conversando com Simeone para transmitir alguma informação. Era ele quem costumava destrinchar os adversários, varando madrugadas no centro de treinamentos rojiblanco. Chegou até a inovar nessa obtenção de dados, ao usar o Google Glass à beira do campo para fazer suas análises. Também se responsabilizava por parte das jogadas que viraram arma ao Atleti. A postura mais “professoral” do ex-goleiro, ainda assim, não anulava sua energia e sua conexão com a torcida. Era um dos raros casos de assistente que, também ídolo, via seu nome gritado nas arquibancadas.

Além do mais, Burgos era visto como um componente essencial para aproximar os jogadores da comissão técnica. Segundo matéria do jornal El País, enquanto Simeone preferia manter distancia dos atletas, Mono era quem estabelecia uma relação mais direta para aliviar as tensões e lidar com os ânimos. É um sujeito querido por todos nos corredores do Atlético de Madrid e que, agora, tentará firmar os próprios passos. O ex-assistente declarou que está intensificando os estudos para assumir o posto principal de uma nova equipe. Quem sabe, futuramente, se torne uma opção a Marcelo Gallardo no River Plate ou mesmo a Simeone no Atlético.

“Levo comigo o carinho de muitíssima gente. Dirigentes, jogadores, roupeiros, a moça da limpeza… Todas as pessoas que reconhecem a honestidade e que considero como pares, porque põem o coração a serviço do clube. […] Tenho orgulho da convivência com os jogadores. Ver crescer garotos como Koke, como Saúl, que se converteram em homens. Como Giménez ou Thomas. Meninos que agora são os capitães, que maravilhoso! Também de ter treinado campeões do mundo, levo isso no coração, nem todos têm a possibilidade de sair campeões do mundo e mesmo de treiná-los”, apontou Burgos.

“Os rapazes sabiam da minha vontade, não falamos, mas ninguém é tonto e todos se deram conta do que aconteceria. Creio que vão aceitar bem, sabem que necessito dar esse passo e é algo que também acontecerá com eles – em algum momento vão buscar os seus sonhos. Isso é um até logo, não um adeus. O futuro dirá, e o futebol dirá, se voltaremos a nos ver. Que sigam lutando, persigam seus sonhos. Sabemos que não só no Atlético, mas na sociedade inteira não estamos vivendo um período agradável, pessoas perderam familiares e amigos, não podem dar um abraço ou comemorar um gol. Mas não desistam, sigam lutando, entreguem seu coração, lutem pela vida. Por todo meu carinho e por todo meu amor, digo: nos vemos no futebol”, complementou.