O Campeonato Mexicano é repleto de clubes tradicionais, mas todos com seus próprios donos. O sistema de franquias não se difere nada do que acontece nos Estados Unidos e, vez por outra, alguma equipe acaba mudando de cidade graças à vontade de quem manda. Necaxa e Atlante, originalmente fundados na Cidade do México, são exemplos dessa política que não respeita muito a tradição ou a base de torcedores – em transferências que não significaram desenvolvimento a ambos. Já nesta semana, os Monarcas anunciaram que também fará as malas, após 70 anos em Morelia. A agremiação iniciou os trâmites para se mudar a Mazatlán, cidade 670 quilômetros mais ao norte, que oferece um moderno estádio como principal atrativo.

O texto do anúncio, aliás, trata o clube como se fosse um negócio qualquer desprovido de paixão: “Pela primeira vez na história, o futebol da primeira divisão chegará a Mazatlán, um dos portos mais importantes da América Latina, com um projeto inovador que buscará impulsionar o espírito incansável dos sinaloenses. Desde já, o futebol e todo o esporte serão parte da construção da nova visão social e econômica que Mazatlán e Sinaloa estão vivendo. A inovação e a modernidade, combinadas com o espírito caloroso e irreverente dos Mazatlecos, permitirão desenvolver um projeto de longo prazo, com o qual se promoverão os valores esportivos e a essência de uma cidade com enorme potencial de fazer história no futebol mexicano”.

Os Monarcas até podem crescer economicamente e fomentar o desenvolvimento do futebol em Sinaloa. Entretanto, deixarão para trás suas raízes e sua torcida fiel em Morelia. A mudança reflete a parca perspectiva de ascensão que existe no futebol mexicano, com divisões engessadas e dependência da aprovação da Liga MX para consumar a promoção. Por causa da pandemia, os times da primeira divisão aproveitaram para virar a mesa e garantir que as próximas cinco temporadas não terão descenso, sob a justificativa de que apoiarão financeiramente os participantes da atual segundona. Com isso, o Dorados de Sinaloa (outro time da região de Mazatlán) não subirá tão cedo. Momento perfeito para o negócio com o ex-Morelia.

Os Monarcas surgiram em 1950, na própria cidade de Morelia, disputando inicialmente a segunda divisão do Campeonato Mexicano. A equipe conquistou o acesso pela primeira vez ao final daquela década, embora tenha se estabelecido na primeira divisão a partir dos anos 1980. Desde então, os Canários chegaram a mudar de donos e viveram seu período mais abastado sob o controle da TV Azteca. O ápice veio em 2000, com a conquista do Torneio Inverno do Campeonato Mexicano, com mais três vices até 2011. Além disso, o time foi duas vezes vice-campeão da Concachampions e disputou a Libertadores em três oportunidades.

Ao longo dos últimos anos, porém, os Monarcas passariam a acumular campanhas mais modestas no Campeonato Mexicano. E a chance de elevar os lucros da TV Azteca surgiu em Mazatlán, onde o governo estadual construiu um moderno estádio. O poder público negociou com outros clubes da Liga MX, incluindo Atlas e Santos Laguna. Ao final, o acerto da mudança veio com o Monarcas Morelia. Construído em 1989 e com capacidade para 38 mil espectadores, o Estádio Morelos é que ficará sem dono.

O governo de Sinaloa garantirá a concessão da nova arena aos Monarcas e também pagará 500 milhões de pesos (cerca de US$23 milhões) à agremiação por temporada – 12 vezes mais do que recebiam do governo de Michoacán, onde fica Morelia. Apesar disso, a TV Azteca seguirá como dona do clube. As autoridades esperam aproveitar o potencial de Mazatlán como um destino turístico na costa do Pacífico. A cidade de 502 mil habitantes tem uma população menor que Morelia, com 784 mil habitantes. Enquanto isso, estima-se um prejuízo de 4,5 bilhões de pesos anuais em Michoacán, com a extinção de 9 mil empregos relacionados ao futebol.

Os símbolos dos Monarcas serão apagados em Mazatlán, com uma provável mudança de nome e até de cores. Joga-se fora uma cultura esportiva e uma paixão de milhares por causa do negócio. Obviamente, a notícia não foi bem recebida em Morelia. No final de semana, apesar das recomendações sanitárias para evitar aglomerações, centenas de torcedores já saíram às ruas da cidade e fizeram uma passeata contra a transferência, antes mesmo do anúncio oficial. A única esperança é de que a Liga MX barre a mudança. Todavia, pelas declarações do próprio presidente da entidade, dificilmente se evitará a conclusão do processo.

A associação de jogadores profissionais do México se manifestou contra a mudança. A entidade declarou sua solidariedade aos futebolistas do Monarcas Morelia, que receberam a notícia de última hora. “Desafortunadamente, este caso é outro exemplo da falta de atenção às necessidades dos protagonistas desta grande indústria. Que se entenda a importância do lado econômico, é lamentável que se deixe à deriva quem entrega tudo em campo e, de igual forma, uma falta de respeito à grande torcida da cidade de Morelia e do estádio de Michoacán”, escreveu a associação. Enquanto os jogadores profissionais terão que se mudar, não está claro o que acontecerá com o time feminino e com as categorias de base.

Na nota que anuncia a mudança, os donos do Monarcas Morelia concluem sem o menor pudor: “O agradecimento e o respeito do clube com a cidade de Morelia e com os michoacanos perdurarão para sempre. O Monarcas Morelia foi parte da história contemporânea da cidade. Pertencem a Morelia e à sua gente os troféus conquistados e o nome de Monarcas. As mudanças de sede aconteceram com distintos clubes em todo o mundo, são parte natural do esporte. A mudança a Mazatlán, ainda que difícil, dará viabilidade em longo prazo a uma organização comprometida com o esporte”. Naturaliza o desaparecimento de toda uma história com a mera canetada dos engravatados, como se isso fosse facilmente aceitável.