O bairro de Molenbeek-Saint-Jean representa a face cosmopolita de Bruxelas. A região próxima ao centro da capital belga recebeu imigrantes desde meados do Século XX, quando italianos se estabeleceram no local. Atualmente, possui uma população majoritariamente composta por estrangeiros, 62% vindo do norte da África e com 80% de muçulmanos. E o mais pobre dos 19 distritos da cidade, marcado pelas altas taxas de desemprego (28%, mais que o triplo da média nacional de 8,5%) e por mais de 60% dos habitantes abaixo da linha da pobreza, acaba representando faces distintas da Bélgica. Se o bairro ajudou a fornecer talentos para a seleção nos últimos anos, como o antigo morador Romelu Lukaku, também serviu de berço para alguns dos piores atentados terroristas da Europa nos últimos anos.

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Nesta terça, Molenbeek voltou a ser foco das investigações na Bélgica, depois que explosões a bomba realizadas pelo Estado Islâmico no aeroporto e no metrô de Bruxelas deixaram 34 mortos, além de 187 feridos. Movimentos jihadistas já se articularam na região desde a última década. Ex-moradores do local participaram dos ataques a Madri (2004) e Paris (2015), os dois maiores registrados na Europa desde os anos 1980. Em Molenbeek, inclusive, membros do EI coordenaram em tempo real os tiroteios nas ruas parisienses há quatro meses, que deixaram 137 vítimas fatais.

Molenbeek também serviu de residência a Nizar Trabelsi, um elo entre o terrorismo e o futebol. Nascido na Tunísia, o meio-campista chegou a atuar profissionalmente por clubes alemães, entre eles o Fortuna Düsseldorf e o Wuppertaler. Contudo, o veterano juntou-se à Al-Qaeda em meados da década de 1990, servindo de ponte entre o Afeganistão e a Europa. Em 2001, ele planejava um ataque à embaixada dos Estados Unidos em Paris, mas acabou preso e condenado a 10 anos em regime fechado.

Nizar-Trabelsi

Entretanto, as liberdade que os terroristas têm em Molenbeek não incrimina toda a população local. E, à mesma medida que há receio, também brota a esperança no futebol. As categorias de base do RWDM Bruxelas (chamado de RWD Molenbeek até 2003) estão entre as mais qualificadas do futebol belga. O clube atualmente disputa apenas a terceira divisão da liga nacional. Contudo, ajudou na formação de nomes de Adnan Januzaj, Michy Batshuayi, Jason Denayer e Dedryck Boyata – os três últimos, convocados para a seleção que disputará amistosos contra Portugal e teve seu treino nesta terça suspenso pelos ataques. Não à toa, os Diabos Vermelhos acabam marcados por essa miscigenação, abraçando os imigrantes.

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O Royal White Star, outro clube representante de Molenbeek, assinou um contrato de investimento com a prefeitura de Bruxelas e conquistou o campeonato nacional de juniores nos últimos dois anos. “Temos um papel social. Porque Molenbeek é uma das localidades mais pobres do país, o futebol pode significar a cura dos males sociais para os jovens. Nós oferecemos professores que ajudam os mais jovens e nós acompanhamos os resultados escolares”, afirma Julien Carpentier, diretor de comunicação do White Star, em entrevista à Gazzetta dello Sport.

E ainda há o FC Jeunesse Molenbeek Académie, dedicado exclusivamente na formação de promessas. “Nosso objetivo além do futebol é retirar os jovens das ruas. O esporte ocupa o tempo suplementar, que eles passarão em um ambiente estruturado”, afirma o presidente Mohamed Tabakkalt, em entrevista à Sport Magazine. “Estamos em um bairro violento. Isso é essencial para oferecer aos jovens outras possibilidades, lhes dar sensações mais positivas através do futebol. Especialmente porque eles estão em uma idade de se opor às autoridades, como parte de seu amadurecimento. Eles precisam de orientação”. 85% dos jogadores afiliados ao clube tem origem árabe.

O futebol se oferece como um caminho para a população mais jovem de Molenbeek. Não à toa, é visto como um empecilho para o recrutamento feito pelos terroristas, por proporcionar uma atividade permanente e promover a socialização. Uma alternativa ao ambiente de desconfiança que se instaurou no bairro, mesmo que não seja suficiente por si. Aos garotos, ao menos, garante uma opção de vida.