Moise Kean tem apenas 19 anos, porém, se você estivesse mais desatento, daria até mais idade para o atacante da Juventus.

Ouve-se falar no italiano já há algumas temporadas, especialmente porque ele teve sua primeira chance como profissional logo cedo, aos 16 anos e 23 dias de idade.

O comportamento de Kean em campo também faz qualquer um chutar idade mais avançada para o jogador. Destemido, entra no jogo que for sem hesitar diante da marcação. Aproveita os minutos que tem e balança a rede com frequência impressionante para alguém que sequer completou duas décadas – em 11 jogos nesta temporada de Serie A, anotou seis gols, um a cada 73 minutos, segundo dados do Transfermarkt.

E ele deve essa conduta destemida às suas origens, batendo bola no asfalto atrás de uma igreja em Asti, na região do Piemonte, perto de Turim.

Em relato publicado no Players’ Tribune, na série “Remember the Name”, ou “Grave o Nome”, Kean nos dá um vislumbre de sua infância na comuna italiana de 70 mil habitantes. O texto sobre um dos importantes personagens da temporada do futebol europeu — seja por sua rápida ascensão ou por se ver colocado em uma polêmica racista ao ser ofendido por torcedores e criticado pelo companheiro Bonucci — começa com uma frase de abertura promissora: “Uma vez eu estava tão desesperado para jogar futebol que roubei uma bola de um padre.”

“Se você quisesse jogar no nosso bairro, sempre dava para encontrar uma bola de futebol no escritório do padre, no oratório perto de casa. O padre era um homem legal, que mantinha todas as bolas em uma gaveta. Mas é o seguinte, sabe: ele nunca a trancava. Então, sempre que perdia minha bola — talvez por chutá-la por cima de uma cerca —, eu entrava sorrateiramente no oratório, esperava o padre subir as escadas e então pegava uma bola da gaveta dele.”

O futebol nos fundos da igreja em Asti era especial — e tinha seu próprio funcionamento. Os jogadores se dividiam em equipes de seis, cada um pagava 10 euros, e o vencedor levava todo o dinheiro. “Eu implorava, pegava emprestado, roubava e economizava a semana inteira para que pudesse bancar minha taxa”, admite Kean.

Moradores de Asti apareciam, aqueles com e sem dinheiro, e eram acompanhados até por turistas que só estavam de passagem pela comuna. “E era uma batalha toda semana. Se você tomasse uma pancada, tinha que fingir que não doeu, para que os outros não ficassem te zoando. Foi assim que aprendi a jogar futebol.”

“Quando você joga futebol assim, você aprende a jogar com apetite. Você aprende que o futebol, como a vida, tem altos e baixos. Às vezes, você marca no último minuto de um jogo, e todo mundo ganha 60 euros. Às vezes, não. Dar caneta no adversário era quase tão importante quanto marcar um gol quando você jogava no nosso campo. Quando você cresce dando caneta nos outros valendo dinheiro, dar caneta no Giorgio Chiellini no treino não parece tão assustador.”

Kean volta atrás em sua provocação a Chiellini, deixando claro que é melhor não mexer com o o companheiro. “Ainda tenho uma cicatriz no meu tornozelo da última vez que tentei dar um drible no Chiellini.” Melhor se precaver mesmo.

Confira o relato de Moise Kean ao Players’ Tribune na íntegra (em inglês), incluindo trechos em vídeo, clicando aqui.