Que a fase do Real Madrid não seja boa, Luka Modric continua no centro das atenções. O meio-campista é o favorito para faturar a Bola de Ouro neste ano, depois de já ter levado para sua casa o prêmio The Best oferecido pela Fifa. E, às vésperas de mais uma disputa, o croata deu uma longa entrevista à France Football. Como prévia, a revista divulgou algumas falas mais “quentes” do veterano, especialmente sobre o troféu e a situação atual dos merengues. Contudo, a conversa foi bem mais longa e trouxe algumas divagações de Modric sobre sua própria maneira de conceber o esporte. Abaixo, separamos alguns dos principais trechos:

O futebol e a guerra na Croácia

“Havia uma guerra e uma das melhores maneiras de escapar, de fugir de todos esses momentos difíceis, era jogando futebol. Eu encontrei meus amigos chutando uma bola. Então, de pouco a pouco, comecei a aprender o futebol de uma maneira mais estruturada no Zadar. Acho que queria ser jogador desde que nasci, ou quase isso. O futebol sempre foi onipresente em minha vida. Mesmo hoje, quando você pega uma foto minha quando criança, certamente estarei com a bola. O futebol foi realmente o meu primeiro amor. Quando eu era pequeno, sonhei em ter sucesso, mas meu primeiro desejo real era defender a seleção. A Croácia tinha acabado de conquistar a independência e isso tinha um significado forte. Um pouco depois, aconteceu a Copa de 1998. Eu tinha 12 anos e meus ídolos alcançaram as semifinais. Queria ser como eles”

O que o futebol sempre representou a ele

“Eu sinto o mesmo prazer desde que comecei a jogar. Em geral, a visão sobre o futebol que eu tinha quando criança é igual à que tenho hoje. Quero me divertir a todo momento. Fico feliz quando as pessoas percebem isso. Eu me sinto bem quando tenho a bola nos pés, quando faço uma boa jogada. Essa é a forma que melhor consigo me expressar. É uma boa notícia que analisem meu jogo assim. Porque significa que os torcedores também estão curtindo me ver jogar. Incomoda que as pessoas possam pensar que estar em campo é uma dor ou um grande esforço para mim”

Futebol bonito e futebol competitivo

“Meu primeiro objetivo é sempre estar feliz no que faço. Mas a obrigação é vencer, porque é da vitória que nos lembramos. Então, tento combinar as duas coisas, alcançar a vitória com um jogo bonito. Sim, todo mundo sabe que algumas partidas são vencidas sem elegância na forma de jogar, depois de uma partida que não é bela. Entretanto, aprendi a levar vantagem nisso também, porque sem a vitória o resto importa menos. Você precisa saber como levar vantagem em ambos. Um gol de libertação no último minuto, depois de um jogo parelho, também pode trazer felicidade coletiva e individual”

Como sentir prazer jogando

“O prazer pode estar em muitos lugares. Um simples passe no meio-campo pode me deliciar, assim como oferecer uma bela bola a um parceiro que a transforma em gol. O prazer pode estar também em um movimento especial, aquele que surpreende o oponente. Eu me recuso a fazer sempre as mesmas coisas. Eu gosto de improvisar, sobretudo com a parte externa do pé. Isso é muito natural para mim. No início da minha carreira, o técnico na base era Slaven Bilic e ele dizia que eu chutava mais forte com a parte de fora do pé”

A técnica sempre prevalecerá sobre o físico

“Sim, acredito que é possível ter uma visão quase idealista do futebol. Além do mais, há equipes que provam ser possível oferecer ao mesmo tempo um bom espetáculo enquanto se vence. Há maneiras diferentes de entender o futebol, mas penso que é possível combinar os dois. Mesmo hoje em dia, enquanto o físico dos jogadores é melhor do que nunca, há espaço para o talento e para a técnica. Para a busca do jogo bonito. E isso sempre será assim porque o futebol é um esporte jogado com a mente. Você pode colocar toda a força física que quiser, mas há algo chamado de inteligência do futebol, que sempre será essencial. O físico nunca suplantará a inteligência. O número 10 nunca acabará, é o melhor número do mundo”

Não seria melhor a ele atuar nos anos 1970?

“Difícil dizer que eu teria mais liberdade nos anos 1970, porque é complicado comparar duas épocas tão diferentes. Tenho dificuldades em me projetar, porque o futebol evoluiu e é o que é atualmente. Sim, me parece mais difícil jogar em nosso tempo porque há menos espaço e precisamos aceitar isso. A cada temporada que passa, o futebol fica mais rápido. Cabe a mim me adaptar. Sou um amante do esporte e gosto de ver jogos do passado, dos anos 1970 e 1980. É fantástico o que você pode ver, mas acho difícil de imaginar”

Jogadores com quem desejaria ter atuado

“Gostaria de ter jogado primeiramente com Boban, meu ídolo na seleção. Então, com Zidane, que tive a sorte de ser meu técnico. Com ele vivemos os momentos mais bonitos no Real Madrid, incluindo estas três Champions em sequência. Algumas vezes ele vinha jogar conosco e era impressionante ver a sua elegância e os seus movimentos em campo. Amaria tê-lo um dia como companheiro. E o terceiro é Ronaldo Nazário”

As lembranças da Copa

“Difícil dizer o que levo da Copa do Mundo. Alcançamos a final representando nosso país, o sonho de toda criança. Não vou esconder que foi muito difícil perder a final. Houve muita tristeza, desapontamento. Mas quando retornamos à Croácia, quando vimos todas as pessoas nos esperando, percebemos que alcançar a final já foi um grande sucesso. Foi uma façanha para um pequeno país como o nosso. Então, com o passar do tempo, acima de tudo o sentimento de orgulho permanecerá”