Luka Modric é o jogador de futebol mais bem sucedido na Croácia, com seus três troféus de Champions League e uma carreira que envolve boas passagens pelo Tottenham e pelo Real Madrid. Com quase 100 aparições pela seleção, o meia de 31 anos teria tudo para ser herói incontestável em um país que ama o esporte, mas a realidade está cada vez mais diferente neste sentido. E o responsável tem nome e sobrenome: Zdravko Mamic.

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Mamic é um daqueles homens que utilizam o futebol a seu favor, por poder, por enriquecimento e, no caso dele, pelos dois. Tem uma péssima imagem entre os torcedores pelas diversas acusações de corrupção e negócios no mínimo imorais que conduziu. Foi o principal executivo do Dínamo Zagreb na época em que Modric foi vendido para o Tottenham, em 2008. Esta transferência está no cerne do problema que pode resultar em cinco anos de prisão para o meia do Real Madrid por perjúrio.

Mamic, seu irmão Zoran, o ex-diretor do Dínamo Zagreb, Damir Vrbanovic, e o coletor de impostos Milan Pernar estão sendo processados em uma corte de Osijek – o julgamento foi movido de Zagreb porque o dirigente é amigo de muitos juízes da cidade, uma amostra do seu poder que transcende o futebol – por terem supostamente fraudado o Dínamo em 116 milhões de kunas croatas, o equivalente a R$ 56 milhões.

Modric é um das principais testemunhas do julgamento. Ele recebeu ajuda financeira de Mamic no começo da carreira e retribuiu concordando em dividir seus rendimentos posteriores com o dirigente. Quando Modric foi vendido ao Tottenham, a taxa de transferência de € 21 milhões (ou R$ 77 milhões) foi dividida entre o Dínamo Zagreb e o jogador. Logo, a parte referente ao jogador, em uma venda convenientemente negociada por Mamic, foi dividida entre Modric e o dirigente. Segundo o Independent, dos € 10.5 milhões a que teria direito, o jogador ficou com apenas € 2 milhões. O resto ficou com Mamic.

A defesa de ex-executivo do Dínamo nem tenta negar que isso é verdade. Alega que não tem nada de ilegal nesse procedimento, embora, do ponto de vista ético e de conflito de interesses, a história seja mais complicada. O que a procuradoria tenta provar, no entanto, é que a cláusula que estabelece a divisão da taxa de transferência entre o Dínamo Zagreb e o jogador foi assinada depois que a venda havia sido concretizada.

No seu primeiro testemunho, Modric confirmou a versão da procuradoria. Semana passada, porém, ele voltou atrás, como descreve o Independent: “Enquanto o procurador apresentava o testemunho de Modric para o próprio, o jogador pediu, primeiro, para que ele fosse repetido. Enquanto estava sendo lido novamente, ele pareceu nervoso e começou a balançar a cabeça. Então, mexeu-se na cadeira, colocou as mãos na mesa e gaguejou: ‘Isso… Isso eu nunca disse… isso… isso… isso de que foi assinado posteriormente. Eu disse que não lembrava quando havia sido assinado'”. E, depois, completou: “Quando eu falei sobre isso, eu me referia a um contrato pessoal entre mim e Mamic, que regulou a divisão da taxa de transferência”.

O que o recuo de Modric causou foi uma mudança de percepção entre os torcedores: de refugiado da guerra da independência da Croácia que topou qualquer coisa para perseguir o sonho de ser jogador de futebol, mesmo que isso significasse ser explorado por um dirigente corrupto, Modric passou a ser visto como defensor ativo deste mesmo dirigente. Não é mais uma criança inocente da qual os inescrupulosos tiram proveito: é um tricampeão europeu de 31 anos protegendo um investigado pela Justiça.

Poucas horas depois do testemunho, torcedores do Hajduk Split – a influência de Mamic na Federação Croata também é notória e causa incômodo no mundo do futebol do país – apareceram em um evento do clube xingando Modric. Uma mensagem foi escrita na frente do hotel Iz In Zadar, onde a família de Modric morou, como refugiados, nos anos noventa: “Luka, você se lembrará desse dia”.

Para piorar a história, nesta segunda-feira, a Procuradoria anunciou que Modric está sendo investigado por perjúrio – mentir para a Justiça – por causa do que disse no julgamento de Mamic e pode pegar de seis meses a cinco anos de prisão: “A Procuradoria de Osijek abriu uma investigação contra o cidadão croata (1985) pela existência de dúvida razoável de que, ao dar um testemunho diante da Corte de Osijek, ele teria cometido crime contra a Justiça ao dar falso testemunho sob o artigo 305, parágrafo 1 do Código Criminal”.

O julgamento seguiu com o testemunho de Dejan Lovren, do Liverpool, outro jogador que caiu na rede de influência de Mamic, que deu um show teatral ao demitir seus advogados, diante do juiz, e anunciar que defenderia a si mesmo no decorrer do caso. A dúvida é como essa história impactará a carreira de Modric e, também, a campanha da seleção croata nas Eliminatórias Europeias para a próxima Copa do Mundo. O time lidera o Grupo I, com 13 pontos, mesmo número da Islândia, com Turquia e Ucrânia, com 11, muito próximos. E o clima, tanto com a torcida quanto entre os jogadores, alguns envolvidos no julgamento, não é dos melhores.