MLS

Jogador do Dallas ficou “puto” com torcedores do seu próprio time vaiando protesto contra racismo: “Foi nojento”

Reggie Cannon, jogador negro do Dallas desde 2017 e com 11 partidas pela seleção americana, ficou “puto” com os torcedores do seu próprio clube que vaiaram o protesto contra o racismo realizado em conjunto com o Nashville, na última quarta-feira, no primeiro jogo da temporada regular da Major League Soccer desde março e o primeiro com arquibancadas abertas de uma grande liga dos Estados Unidos desde a eclosão da pandemia. O time texano perdeu por 1 a 0.

A morte de George Floyd, um homem negro assassinado por um policial branco de Minneapolis que se ajoelhou durante oito a nove minutos em seu pescoço, gerou uma nova onda de protestos do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) que se espalhou pelo país e pelo mundo.

As manifestações chegaram ao esporte. Jogadores da Bundesliga enviaram mensagens contra o racismo e a brutalidade policial na retomada do futebol alemão, e todos os times da Premier League se ajoelharam antes do apito inicial das partidas realizadas na reta final da edição 2019/20. Os jogadores da NBA, completando a temporada em um sistema de bolha em Orlando, usaram suas camisas para estampar o nome do movimento e mensagens como “Nos respeite”, “Nos ouça”, “Chega”, “Liberdade” e “Vote”.

Houve uma manifestação conjunta de 170 jogadores negros da Major League Soccer antes do início do torneio MLS is Back, também no complexo da Disney, e outros protestos pontuais, como Thierry Henry se ajoelhando durante 8min46s, tempo que inicialmente se considerava que o policial manteve o joelho no pescoço de Floyd. Os promotores depois admitiram que erraram por um minuto e seriam 7min46s. Vídeos do New York Time avaliam que foi pelo menos 8min15s, mas, independentemente do tempo exato, 8min46s se tornaram um marco do movimento.

O ato de se ajoelhar em protesto contra a brutalidade policial e o racismo foi criado por Colin Kaepernick, ex-jogador de futebol americano da NFL, que o fazia durante o hino nacional dos EUA quando era quarterback do São Francisco 49ers. Kaepernick foi duramente criticado pelo presidente Donald Trump, que considerou o gesto um “desrespeito à nação e à bandeira”, disse que o jogador deveria ter sido suspenso e que quem se ajoelhava durante o hino “talvez devesse sair do país”.

A NFL chegou a emitir protocolos que proibiam jogadores de se ajoelhar durante o hino nacional, mas recuou e permitiu o protesto para a próxima temporada, após as manifestações pela morte de Floyd. Embora Dallas tenha dado 61,1% dos votos à candidata democrata à presidência na eleição de 2016, Hillary Clinton, os condados de Collin e Denton, onde fica o estádio do Dallas FC, na região metropolitana, são majoritariamente republicanos, com votações de 56,2% e 57,7% a favor de Trump naquele pleito.

“Eu acho que foi nojento. Acho que foi absolutamente nojento. Seus próprios torcedores vaiando pessoas que estão se posicionando pelo que acreditam. Milhões de outras pessoas apoiam esta causa e discutimos com todos os outros times e com a liga o que iríamos fazer, e tivemos torcedores nos vaiando em nosso próprio estádio”, afirmou Cannon. “O quão vergonhoso é isso? Honestamente, pela falta de uma palavra melhor, fiquei puto. Você não pode nem ter o apoio dos seus próprios torcedores em seu próprio estádio. É assustador para mim”.

Dallas e Nashville foram excluídos da bolha da MLS em Orlando pelo excesso de casos positivos de coronavírus em seus elencos. Foi o primeiro jogo de ambos desde março. “Como time, tentamos apresentar o melhor produto possível em campo, e esses últimos seis meses foram um inferno para nós. Apareceu a chance de jogar e infelizmente ficamos bravos e chateados de não conseguir a vitória, mas eu fiquei puto. Todo mundo em volta de mim ficou puto”, disse.

“Ryan Hollingshead (zagueiro do Dallas, branco), a primeira coisa que ele me disse quando levantamos foi ‘desculpa’. Eu lamento pelos nossos torcedores porque tivemos alguns gritando ‘EUA’ e eles não entendem o que se ajoelhar significa, eles não entendem por que estamos nos ajoelhando, eles não conseguem ver a lógica, eles somente pensam que somos ignorantes e é muito frustrante”.

“Peço desculpas por este tom, mas eu tenho que chamar as coisas pelo nome. Eu até sabia, quando decidimos nos ajoelhar, que isso aconteceria. Isso deveria dizer alguma coisa. Eu sabia que teríamos uma reação negativa por ter uma resposta unificada ao que está acontecendo. Esse é o problema, isso é um problema”, completou.

Um torcedor atirou uma garrafa de água nos jogadores durante o protesto e foi retirado do estádio, segundo o Dallas Morning News. O hino nacional não foi tocado no torneio MLS Is Back, mas a liga confirmou que ele será sempre que houver torcedores nas arquibancadas.

“Isso me machuca porque eu amo nossos torcedores, amo este clube e quero ver o apoio que a liga tem nos dado, que todos têm nos dado, dos nossos torcedores. Eu amo as pessoas que vieram esta noite, mas, assim que ouvi aquela vaia, eu sabia o que esperar. Vamos levar um dia por vez e estamos unificados nesta resposta e todos estão juntos, negros, brancos, laranjas, todos estão juntos nisso”, encerrou.

Haverá torcida na Major League Soccer onde as autoridades regionais permitirem, com capacidade reduzida e seguindo regras de distanciamento social. Os clubes precisam apresentar um protocolo criado com orientação de especialistas e aprovados por autoridades sanitárias locais, seguindo as diretrizes do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) e o próprio protocolo da MLS.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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