MLS

Depois de sair de “ambiente turbulento para treinadores”, Miguel Ángel Ramírez assume o Charlotte na MLS

Miguel Ángel Ramírez continuará a carreira em ambiente que lembra mais o Independiente del Valle do que o Inter: com muita paciência e pouca pressão

O Charlotte FC anunciou que o espanhol Miguel Ángel Ramírez, de 36 anos, será o primeiro treinador da história do clube. A franquia estreia na MLS em 2022 e o técnico terá tempo para montar o elenco, até o fim do ano. Seu último trabalho, no Internacional, foi um fracasso e a diretoria decidiu demiti-lo no começo de junho, depois de cerca de três meses no cargo. A demissão veio depois da eliminação na Copa do Brasil diante do Vitória, em pleno Beira-Rio.

O treinador teve um enorme sucesso no comando do Independiente del Valle. Depois de ser técnico nas categorias de base do clube por um ano, de 2018 a 2019, ele assumiu o cargo no time principal em 2019 e ficou até dezembro de 2020. Por lá, ele foi campeão da Copa Sul-Americana, em 2019. Chamou a atenção não só pelos resultados, mas principalmente pelo futebol jogador. Havia condições muito específicas ali, em um clube que investiu em um projeto da base, tem poucos torcedores e baixíssima pressão. Um ambiente muito diferente do que ele encontrou no Internacional.

“Ele era desejado por metade dos grandes clubes da América Latina depois de conquistar a Copa Sul-Americana”, afirmou o diretor esportivo do Charlotte, Zoran Knerta, ao MLSsoccer.com. “Ele teve propostas da Europa e outros clubes do mundo. Ele está se tornando uma estrela”.

O treinador fechou com o Internacional ainda em dezembro de 2020. Na época, o time comandado pelo técnico Abel Braga ia muito bem, brigando pelo título. Foi assim até a última rodada. Como o Campeonato Brasileiro foi adiado até março, Abel ficou no comando do clube até ali. Deixou o clube, o que incomodou alguns colorados. Miguel Ángel Ramírez foi anunciado e, como dissemos na época, seria preciso paciência.

O trabalho no Inter teve muito pouco tempo para ser desenvolvido, o que é verdade. Também é verdade que o técnico conseguiu fazer pouco no time, mesmo nas ideias mais básicas de uma equipe de futebol. A soma de um trabalho ruim, a impaciência da torcida e dos dirigentes, e mais uma dose de xenofobia que sempre há no Brasil, ele acabou demitido. Não dá para dizer que a demissão foi uma surpresa, quando todos os elementos são colocados na mesa.

É curiosa forma como o MLSsoccer.com se refere ao futebol brasileiro. O site conta que o Charlotte já queria o treinador no final de 2019, mas ele estava fora do alcance de um clube como esse, que nem jogaria até 2022. Eis que vem o trecho interessante na forma como os americanos já sabem como funciona no Brasil.

“Ramirez passou quase dois anos no Independiente com um emprego no Internacional do Brasil, embora não tenha saído como planejado; ele assinou um contrato de dois anos em março deste ano, mas, em um dos ambientes mais turbulentos para treinadores, ele estava desempregado em junho. Isso, porém, abriu a porta para Charlotte contratar um talento em ascensão”, diz o texto.

“Percebemos que é alguém que precisamos olhar seriamente e passar pelo processo e nós o colocamos no mesmo processo que todos os outros e ele [se saiu] fantasticamente bem”, afirmou Krneta. O Charlotte, segundo conta o MLSsoccer, entrevistou mais de 30 pessoas para o cargo desde que começaram a buscar um técnico, incluindo treinadores nos Estados Unidos e internacionais.

“Ele é baseado em posse de bola”, disse Krneta. “Ele joga um futebol atrativo, ofensivo, que entretêm. Ele quer controlar a bola e o que acontece no campo. Nós queríamos um técnico que não teria medo de mergulhar nessa piscina e desenvolver os jogadores. Nós queríamos um técnico que é um educador, e ele é um líder, o técnico que tem um grande relacionamento jogador-treinador, então é um gestor de pessoas. Ele irá desenvolver e fortalecer esses relacionamentos”.

“O que este técnico precisa, ele precisa de tempo para construir e time para apresentar suas ideias e seu estilo de jogo. Nóss daremos a ele esse tempo”, continuou Krneta. “Nós sempre quisemos dar uma chance a alguém jovem, inovador, moderno”.

Com praticamente seis meses pela frente até que o time comece a pré-temporada, o Charlotte espera que ele tenha tempo para entender a dinâmica da MLS e montar um elenco adequado – e dentro do orçamento. O coube deve contratar auxiliares que tenham experiência de MLS para ajudar em sua adaptação.

No Charlotte, o ambiente que Ramírez encontrará se assemelha muito mais ao que ele viveu no Independiente del Valle: pouca pressão, um clube com paciência e tempo para desenvolver jogadores. O ambiente no Brasil não é esse, porque aqui, além de mais dinheiro, há também mais pressão. Os times são melhores, mas o calendário é pior e o tempo é muito, muito menor. É um problema, mas o técnico não conseguiu entregar nem mesmo os princípios básicos de um time. No Charlotte, sem pressão, em um clube novo, que ainda descobrirá qual é a sua identidade, ele terá todo o tempo do mundo.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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