Ser campeão da Liga dos Campeões é um feito e entra para a história. É um marco na história dos clubes. Só que a competição se tornou tão acirrada que desde deixou de ser Copa dos Campeões para ser Liga dos Campeões, em 1992, nenhum time conseguiu ser bicampeão, ou seja, ganhar duas vezes a competição consecutivamente. Nem mesmo os grandes esquadrões do velho continente conseguiram tal proeza, ainda que alguns tenham chegado muito perto disso.

A era dos esquadrões

O primeiro time a tentar defender o título de campeão no novo formato foi o Barcelona, vencedor da última edição antes da mudança de nome. O time de Johan Cruyff chegou apenas à segunda fase e acabou sendo eliminado pelo CSKA Moscou. Naquele ano, quem levaria o título seria o Olympique de Marseille, de Fabien Barthez, Marcel Desailly, Rudi Völler e Abedi Pelé, batendo outro dos grandes times na final: o Milan, dos holandeses Frank Rijkaard e Marco van Basten.

No ano seguinte, o Olympique de Marseille protagonizou a única vez que um campeão não defendeu o título. O time foi rebaixado na França por causa de um escândalo de manipulação de resultados e impedido de jogar as competições europeias. Quem levou o título foi o vice-campeão Milan, de Fabio Capello, que não deixou escapar a chance com um atropelamento por 4 a 0 sobre o Barcelona de Cruyff.

O Milan mostraria que era uma potência e tentaria repetir o feito na temporada seguinte, 1994/95. Só que, desta vez, quem apareceria no caminho seria outro dos gigantes europeus. O Ajax do técnico Louis van Gaal, do goleiro Edwin van der Sar, dos volantes Clarence Seedorf e Edgar Davids e dos irmão Frank e Ronald de Boer impediu o bicampeonato dos rossoneri com um gol de Patrick Kluivert na final. Mais um campeão que não consegue repetir o título.

O Ajax, com o grande time que tinha, conseguiu fazer uma grande campanha na temporada seguinte. Em 1995/96, chegou à final, mas teve que enfrentar a Juventus em Roma. O time de Marcelo Lippi venceu nos pênaltis e derrubou mais uma chance de um time campeão repetir o título.

A Juventus, assim como Milan e Ajax, mostraria força para repetir a boa campanha no ano seguinte ao título e buscar o bicampeonato. Aliás, a Juventus repetiria o feito do Milan, que nos três anos anteriores chegou à final. Em 1996/97, decidiu o título contra o Borussia Dortmund. O time que tinha Zinedine Zidane e Alen Boksic e Christian Vieri no ataque não resistiu ao Dortmund e Matthias Sammer, Andreas Möller e Stéphane Chapuisat. Caía mais uma vez a chance do campeão repetir a façanha.

Em 1997/98, o Dortmund consegui uma boa campanha, chegou à semifinal, mas caiu diante do time que levaria o título: o Real Madrid. Na final, os merengues teriam pela frente, mais uma vez, a Juventus, que chegava à sua terceira final de Liga dos Campeões consecutiva. O Real Madrid levou, com gol de Pedrag Mijatovic.

O Real Madrid tinha se consolidado como um dos grandes times da época, mas em 1998/99, quando teve que defender o título, foi surpreendido por uma estrela em ascensão: Andriy Shevchenko. No confronto das quartas de final, o atacante foi o responsável por todos os gols no confronto com os merengues. No primeiro jogo, foi dele o gol no empate por 1 a 1. No segundo, ele fez mais dois gols na vitória por 2 a 0, que classificou o time. Era o fim do sonho do bicampeonato do Real Madrid. Naquele ano, quem decidiria o título seria BayernMunique e Manchester United. Os ingleses levantaram a taça em uma das viradas mais espetaculares da história, com dois gols nos acréscimos e uma vitória por 2 a 1.

O Manchester United tentaria defender o título, mas desta vez cairia diante do grande time daqueles anos: o Real Madrid. Nas quartas de finais, empate no Santiago Bernabéu, mas vitória por 3 a 2 dos espanhóis em Old Trafford, com direito a uma partida monumental de Fernando Redondo, então capitão merengue. Dali, o Real Madrid caminharia até a final para bater o Valencia por 3 a 0 e conquistar o título. O campeão ficou pelo caminho mais uma vez.

Na temporada 2000/01, o Real Madrid tentaria o bicampeonato. Desta vez, porém, caiu diante de outro grande: o Bayern Munique. Naquela semifinal, brilhou o brasileiro Élber, que marcou tanto no jogo de ida (1 a 0 para o Bayern em Madri) quanto na volta (2 a 1 para o Bayern em Munique). Os bávaros levariam o título na final, contra o Valencia, nos pênaltis.

Na temporada seguinte, 2001/02, o Bayern Munique bate de frente novamente com o Real Madrid, desta vez nas quartas de final. Os bávaros venceram por 2 a 1 em casa, mas os merengues fizeram 2 a 0 em Madri e avançaram. O campeão perdia mais uma chance de repetir o título. O Real Madrid, mais uma vez, levaria a taça contra o Bayer Leverkusen na final.

A era do Real Madrid continuava na Liga dos Campeões e, como então campeão, o time fez boa campanha em 2002/03. Na semifinal, enfrentou a Juventus, um dos mais fortes times da época. Conseguiu vencer em casa por 2 a 1, com gols dos brasileiros Ronaldo e Roberto Carlos, mas o gol de David Trezeguet foi fundamental. No segundo jogo, Zidane marcou contra o ex-clube, mas a Juventus venceu por 3 a 1, gols de Trezeguet, Del Piero e Nedved. O campeão caía nas semifinais. O Milan, de Shevchenko, venceria a Juventus na final, nos pênaltis.

O Milan era um time forte, mas se viu em uma situação constrangedora na temporada 2003/04. O time enfrentou o Deportivo La Coruña e, em casa, fez 4 a 1, com direito a dois gols de Kaká, um de Shevchenko e um de Pirlo. No jogo de volta, 4 a 0 para o time espanhol e o campeão voltaria para casa com uma eliminação surpreendente – e vergonhosa. Naquele ano, cheio de zebras, quem levou foi o Porto.

A era do muro nas oitavas de final

O Porto surpreendeu a Europa ao ganhar a Liga dos Campeões na temporada 2003/04 e em 2004/05 tentaria defender o título. De todos os campeões, esse talvez seja aquele que menos se esperava na defesa do título. O time português chegou às oitavas de final, mas caiu diante da Internazionale. Empate por 1 a 1 em Portugal e derrota portuguesa por 3 a 1 em Milão, com direito a três gols do Imperador, Adriano (na época, ele fazia jus ao apelido).

A Inter acabaria eliminada pelo Milan nas quartas de final e os rossoneri foram até a decisão. Na final, o Liverpool conseguiu uma virada histórica em Istambul e levou a taça. Aquele foi o início da era do muro das oitavas de final. Os campeões não conseguiam passar nem do primeiro mata-mata.

O Liverpool, em 2006, entrou na Liga dos Campeões por uma manobra da Uefa. O time terminou em quinto na Premier League, mas para não deixar o campeão fora, a Uefa incluiu a equipe nas fase preliminares. O time se classificou, passou pela fase de grupos e tentou defender o título e teve no primeiro confronto eliminatório o Benfica. Os ingleses eram favoritos, mas sucumbiram diante dos encarnados com uma derrota por 1 a 0 em Lisboa e nova vitória em Liverpool por 2 a 0. O Barcelona, de Ronaldinho e Deco, acabaria campeão.

O time que tinha Ronaldinho como protagonista ainda era considerado um dos grandes times da Europa e entrou no mata-mata contra o Liverpool como favorito. Perdeu em casa por 2 a 1, venceu por 1 a 0 fora de casa, mas foi eliminado pelo gol fora de casa. Os ingleses chegariam até a final contra o Milan, em um repeteco de 2005. Só que desta vez, o Milan levou.

Como campeão, o Milan não conseguiu acabar com a maldição das oitavas de final. O adversário da temporada 2007/08 era o Arsenal. Depois de um 0 a 0 no Emirates, o Milan caiu em casa graças aos gols de Cesc Fàbregas e Emmanuel Adebayor: 2 a 0 e time eliminado. O muro das oitavas de final seguia em pé. Naquela temporada, o Manchester United, de Cristiano Ronaldo, levaria o título em cima do Chelsea, nos pênaltis.

Todos contra o Barcelona

Com o melhor do mundo e uma camisa pesada, era natural que o Manchester United fosse favorito na temporada 2008/09. O time fez o esperado: foi passando por todo mundo, derrubando adversários: Internazionale nas oitavas, Porto nas quartas, Arsenal na semifinal. Parecia que, finalmente, o bicampeonato aconteceria na Liga dos Campeões. E o time chegou como o favorito diante do renovado Barcelona.

Só que do outro lado havia um time história. E Lionel Messi tratou de se colocar na história como um jogador decisivo em finais. Na temporada que vestiu a camisa 10 pela primeira vez – até a temporada anterior, o número era de Ronaldinho, que deixou o clube -, Messi ajudou a decidir o jogo na vitória por 2 a 0. O favorito saía de campo derrotado. E começaria uma nova era.

O Barcelona virou o bicho papão a partir daquela vitória na final da Liga dos Campeões em 2009. Assim, em 2009 entrou como o grande favorito para conquistar o título. Pelo modo como o time jogava, era difícil imaginar um cenário diferente naquela temporada 2009/10. Passou com tranquilidade pela primeira fase, passando com certa facilidade pela Internazionale, adversário mais forte daquela etapa. Atropelou Stuttgart e Arsenal nas fase mata-mata e tinha pela frente, na semifinal, novamente a Inter de Mourinho. Parecia o cenário para ir à final e levantar a taça, garantindo o primeiro bicampeonato da história da Liga dos Campeões.

Só que não combinaram isso com a valente Inter. Em Milão, o Barcelona saiu na frente, mas acabou derrotado por 3 a 1, em uma grande atuação da dupla Wesley Sneijder e Diego Milito. Na volta, uma marcação implacável de handebol e uma dose de sorte garantiram uma derrota só por 1 a 0 e colocou fim ao sonho do bicampeonato de Guardiola. De quebra, ainda fez Mourinho ser persona non grata na capital catalã – o que veríamos se acirrar mais com sua ida para o Real Madrid.

Veio então a temporada 2010/11. A Internazionale agora não entraria mais como azarão e precisava mostrar sua força. Sem Mourinho, o time degringolou. Sobreviveu aos trancos e barrancos, passou pela fase de grupos com uma vitória improvável sobre o Bayern Munique nas oitavas e chegou às quartas como favorito destacado contra o Schalke 04 de Raúl.

Apesar do favoritismo, o time então comandado por Leonardo sofreu uma derrota impensável. Foi atropelado em Milão por 5 a 2 e viu a desclassificação ser praticamente consolidada. Na volta, vitória do Schalke por 2 a 1 e fim de mais um sonho de bicampeonato. O Barcelona, de Messi, desta vez chegaria na final após um confronto épico com o Real Madrid na semifinal – uma vitória por 2 a 0 em Madri e um empate por 1 a 1 em casa, que completava uma série de quatro jogos entre as duas equipes, entre Campeonato Espanhol, final da Copa do Rei e Liga dos Campeões. Na final, amplo domínio sobre o Manchester United e um título irrepreensível.

Novamente, em 2011/12, o Barcelona entraria como o grande favorito. Desta vez, ao lado do rival Real Madrid, que prometia uma disputa mais dura. A conversa durante todo o torneio foi de uma possível final entre os dois espanhóis, o que o sorteio tornou possível. E esse parecia ser o caminho natural.

Os dois passaram como tratores pelos rivais e chegaram até as semifinais. Barcelona e Real Madrid enfrentaram, respectivamente, Chelsea e Bayern Munique. Era a última etapa antes de consolidar o maior de todos os superclássicos, em uma final de Liga dos Campeões.

O Barcelona passou com tranquilidade por Bayer Leverkusen nas oitavas (com direito a uma goleada por 7 a 1 no jogo de volta) e com segurança sobre o Milan nas quartas de final. Na semi, o adversário parecia o mais fraco entre os quatro sobreviventes: o envelhecido Chelsea.

Só que a vitória por 1 a 0 no primeiro jogo mostrou que a tarefa do Barcelona seria mais difícil do que parecia. O Chelsea se defendeu com todas as suas forças no Camp Nou, arrancou um empate por 2 a 2 e eliminou o melhor time do mundo. De novo, o Barcelona era parado por uma forte defesa. E, pela 20ª vez, o campeão não conseguiu repetir o título.

Na temporada 2012/13, o Chelsea tentará defender o título. A missão, porém, parece muito difícil. O Barcelona segue sendo um dos grandes favoritos, mas a saída de Pep Guardiola coloca dúvidas se o time continuará tão dominante. O Real Madrid de José Mourinho tenta voltar ao topo europeu. Bayern Munique, Manchester United e Manchester City tentarão fazer frente aos espanhóis. Será que o Chelsea consegue surpreender novamente e ser o primeiro bicampeão da história da Liga dos Campeões?

O desempenho dos campeões defendendo o título

1992/93 – Barcelona: segunda fase
1993/94 – Olympique de Marseille: não participou
1994/95 – Milan: vice-campeão
1995/96 – Ajax: vice-campeão
1996/97 – Juventus: vice-campeão
1997/98 – Borussia Dortmund: semifinal
1998/99 – Real Madrid: quartas de final
1999/00 – Manchester United: quartas de final
2000/01 – Real Madrid: semifinal
2001/02 – Bayern Munique: quartas de final
2002/03 – Real Madrid: semifinais
2003/04 – Milan: quartas de final
2004/05 – Porto: oitavas de final
2005/06 – Liverpool: oitavas de final
2006/07 – Barcelona: oitavas de final
2007/08 – Milan: oitavas de final
2008/09 – Manchester United: vice-campeão
2009/10 – Barcelona: semifinal
2010/11 – Internazionale: quartas de final
2011/12 – Barcelona: semifinal

DADOS DE PESQUISA:

Desempenho dos campeões defendendo o título
Desde que foi criada a Liga dos Campeões, em 1992, poucos times conseguiram a façanha de conquistar o título duas vezes. Analisar como foi o desempenho dos times que foram campeões no ano seguinte e destacar os maiores sucessos e maiores vexames.

Fase Copa dos Campeões

1956/57 – Real Madrid: campeão
1957/58 – Real Madrid: campeão
1958/59 – Real Madrid: campeão
1959/60 – Real Madrid: campeão
1960/61 – Real Madrid: primeira fase
1961/62 – Benfica: campeão
1962/63 – Benfica: vice-campeão
1963/64 – Milan: quartas de final
1964/65 – Internazionale: campeã
1965/66 – Internazionale: semifinal
1966/67 – Real Madrid: quartas de final
1967/68 – Celtic: primeira fase
1968/69 – Manchester United: semifinal
1969/70 – Milan: segunda fase
1970/71 – Feyenoord: primeira fase
1971/72 – Ajax: campeão
1972/73 – Ajax: campeão
1973/74 – Ajax: segunda fase
1974/75 – Bayern Munique: campeão
1975/76 – Bayern Munique: campeão
1976/77 – Bayern Munique: quartas de final
1977/78 – Liverpool: campeão
1978/79 – Liverpool: primeira fase
1979/80 – Nottingham Forest: campeão
1980/81 – Nottingham Forest: primeira fase
1981/82 – Liverpool: quartas de final
1982/83 – Aston Villa: quartas de final
1983/84 – Hamburg: segunda fase
1984/85 – Liverpool: vice-campeão
1985/86 – Juventus: quartas de final
1986/87 – Steua Bucareste: segunda fase
1987/88 – Porto: segunda fase
1988/89 – PSV: quartas de final
1989/90 – Milan: campeão
1990/91 – Milan: quartas de final
1991/92 – Estrela Vermelha: fase de grupos

Fase Liga dos Campeões

1992/93 – Barcelona: segunda fase
1993/94 – Olympique de Marseille: não participou
1994/95 – Milan: vice-campeão
1995/96 – Ajax: vice-campeão
1996/97 – Juventus: vice-campeão
1997/98 – Borussia Dortmund: semifinal
1998/99 – Real Madrid: quartas de final
1999/00 – Manchester United: quartas de final
2000/01 – Real Madrid: semifinal
2001/02 – Bayern Munique: quartas de final
2002/03 – Real Madrid: semifinais
2003/04 – Milan: quartas de final
2004/05 – Porto: oitavas de final
2005/06 – Liverpool: oitavas de final
2006/07 – Barcelona: oitavas de final
2007/08 – Milan: oitavas de final
2008/09 – Manchester United: vice-campeão
2009/10 – Barcelona: semifinal
2010/11 – Internazionale: quartas de final
2011/12 – Barcelona: semifinal

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