Quando se ouve um dos mais poderosos e influentes empresários de jogadores dizer que está trabalhando em uma revolução do mercado de transferências, não é estupidez se preocupar com o que vem por aí. Em entrevista ao veículo belga Sport/Voetbalmagazine, o agente de Pogba, Ibrahimovic, Haaland e outras estrelas mundiais disse que, se coubesse a ele, “aboliríamos o atual sistema de transferências imediatamente”.

O empresário italiano chama a Fifa de monopolizadora, com líderes “incompetentes”, e reconhece que é difícil lutar contra ela. A isso, tem uma alternativa: “Criar um novo sistema, de forma que se tenha uma escolha em qualquer caso. Estamos ocupados com isso no momento”.

Raiola questiona a interferência da Fifa nas transações atuais e estima que o novo sistema pensado por ele e outros colegas poderia estar pronto em até dois anos. “Não entendo por que uma transferência de um jogador do Twente para o Verona tem que passar pelo sistema da Fifa. Não podemos fazer isso nós mesmos na Europa? Se um jogador vai para a MLS, então que seja de acordo com as regras da MLS, não da Fifa.”

Claramente frustrado com a influência atual da Fifa no mercado, ele chegou até a apontar o dedo para a instituição com críticas que, normalmente, vemos ser dirigidas a ele próprio por parte de torcedores e jornalistas. “Eles (dirigentes da Fifa) querem controle e uma fatia do dinheiro. Na Fifa, tudo se trata de poder e dinheiro, não dos interesses do futebol.”

Vale ressaltar que o papel da Fifa no processo de transferência é apenas o de administrar o Transfer Matching System, um sistema em que o clube comprador e o vendedor precisam colocar as informações da transferência de forma que elas coincidam, trazendo assim mais transparência aos negócios. Em caso de transferências internacionais, é emitido ainda um certificado.

Raiola não falou detalhes específicos de seus planos, mas deu a entender que seria um mecanismo em que os agentes receberiam uma porcentagem dos rendimentos dos jogadores e possivelmente os clubes não teriam que pagar os empresários – como acontece hoje. “Se coubesse a mim, aboliríamos o atual sistema de transferências imediatamente. Teríamos uma fatia dos ganhos dos jogadores e, abolindo o sistema, os clubes teriam mais dinheiro para os jogadores, eu acho. Esse sistema de transferências é uma forma de tráfico humano.”

Por fim, fez seu chamado insurgente: “A Fifa já era, o velho sistema acabou. Este é o começo de uma nova era, estamos nos estágios de fundação. É hora de uma revolução”.

Os comentários de Raiola não vêm do nada. Pelo contrário, acontecem em um momento em que a Fifa avança com sua reforma nos regulamentos envolvendo empresários. A entidade se reuniu com jogadores, clubes, ligas e federações, assim como agentes, para discutir a implementação de certos limites para controlar os gastos desenfreados com intermediários.

Em 2019, segundo a entidade, empresários ganharam mais de US$ 650 milhões só em comissões de transferências, valor quatro vezes maior do que em 2015. Raiola, como se sabe, é um dos que mais se beneficiam de como as coisas funcionam hoje. Sua sugestão de mudança, no entanto, é, na superfície, contrária a seus interesses imediatos – a não ser que tenha detalhes nas entrelinhas que deem conta dessa contradição. Por outro lado, pode ser apenas uma tentativa de controlar futuras mudanças no sistema.

Além do manifesto por um novo mundo, Raiola se vangloriou da carreira que construiu nas últimas duas décadas, reivindicando para si os créditos pela fascinação gerada em torno das janelas de transferências.

“Não quero parecer arrogante, mas acho que eu criei este mercado. O futebol se tornou um espetáculo, entretenimento. E eu inventei o mercado do futebol nos 25 anos em que tenho estado ativo. É uma indústria gigante a essa altura, e eu a moldei ao nunca calar a boca e sempre defender meus jogadores.”

Em tom poético, descreve seu ofício em uma analogia com o teatro: “É primeiro de janeiro, o teatro abre, a cortina sobe, e o show pode começar. Mas, por trás das cenas, os atores principais já estão ocupados com ensaios há seis meses. É o mesmo para nós. Por exemplo, com o Erling Haaland, eu estava trabalhando nessa transferência há quase um ano. Seu pai esteve intimamente envolvido. Falei com uma série de clubes, ouvi os planos, vi números e os negociei. Desta maneira, o Erling poderia tomar uma decisão bem aconselhada”.

Questionado sobre a transferência de Pogba ao United, que, segundo documentos do WikiLeaks poderia lhe render € 49 milhões até 2021, se inspirou em outro de seus clientes, Mario Balotelli, para comentar o caso, em sua própria versão do clássico “Por que sempre eu”.

“Não ameacei ninguém no Manchester United com uma arma para levarem de volta o Paul Pogba. Sempre falam da transferência do Pogba, porque meus amigos da Fifa não deram a mínima sobre o ato de proteção de dados para influenciar a opinião pública. (…) É muito estranho que sempre se trate dos meus ganhos, mas você não ouve nada da Fifa quando o Ajax recebe € 150 milhões por dois garotos (De Ligt e De Jong). Nesse caso, está tudo ótimo, e o Ajax fez bem.”

Alguém do tamanho de Mino Raiola não estaria trabalhando em tal revolução sem outros grandes nomes, e talvez o Football Agents Forum (Fórum dos Empresários de Futebol, em tradução livre), criado pelo italiano ao lado de Jorge Mendes e Jonathan Barnett, dois dos principais agentes do mundo, possa estar na origem da trama. A aguardar os próximos capítulos – ou atos.