O estádio de Bloomfield Road passou os últimos quatro anos cada vez mais vazio. Não era apenas uma desilusão da torcida com o Blackpool, enfraquecido em relação ao que foi no passado. A ausência dos torcedores também era um sinal concreto da insatisfação com a gestão dos Tangerinas. Acionista majoritário desde 1988, Owen Oyston é considerado o principal responsável pela dilapidação do clube e reunia ainda outras controvérsias ao seu redor. Nas últimas semanas, porém, uma boa notícia tomou as manchetes locais: em 25 de fevereiro, a justiça removeu o magnata e sua filha da direção, por conta uma dívida de £25 milhões com o ex-diretor Valeri Belokon. A nova administração recebeu a incumbência de cobrir os débitos e a insolvência ainda pode resultar em perda de pontos na League One. Apesar dos riscos, a torcida apoia a decisão. E o maior sinal disso veio no primeiro jogo em Bloomfield Road desde a saída de Oyston. Neste sábado, as arquibancadas voltaram a ficar lotadas, durante o empate por 2 a 2 contra o Southend United.

Owen Oyston chegou a levar o Blackpool à Premier League em 2010/11, o que não significa que o empresário é uma pessoa querida no clube. Ele foi condenado por estupro na década de 1990, permanecendo atrás das grades por seis anos. Além da questão criminal gravíssima, esportivamente os Tangerinas passaram três décadas oscilando nas divisões de acesso do Campeonato Inglês. E a falta de investimentos chegou a resultar em três rebaixamentos num intervalo de seis anos, levando a equipe à quarta divisão em 2016. Ainda que tenha voltado à League One em 2017, a relação dos torcedores com a direção estava quebrada desde muito antes. As discussões públicas eram costumeiras. Quando os torcedores questionaram Owen Oyston por ter embolsado um “bônus pessoal” de £11 milhões pela passagem na primeira divisão, seu filho Karl fez comentários abusivos relacionados a deficientes. Também processou aqueles que o “difamavam” na internet.

O sinal mais contundente do boicote aconteceu há quatro anos, quando foi lançada a campanha “Not A Penny More”. Como diz seu próprio nome, ela pedia aos torcedores não darem mais dinheiro a Oyston, seja comprando ingressos ou produtos relacionados ao clube. A maior parte dos Tangerinas aderiram ao movimento, limitando seu apoio ao radinho de pilha e à TV. No último mês de janeiro, por exemplo, menos de três mil torcedores estiveram presentes em Bloomfield Road para o duelo contra o Arsenal pela Copa da Inglaterra, no qual os londrinos eram maioria nas arquibancadas. Aguardava-se o momento em que as irregularidades derrubariam o presidente, apesar da lentidão da justiça. Enfim, a satisfação aconteceu em fevereiro.

Até mesmo os jogadores falaram abertamente sobre os efeitos positivos da saída de Oyston. “Isso só pode ser uma boa notícia para o clube e especialmente para os torcedores. É algo que eles sempre quiseram e estou feliz por eles, assim como pelos jogadores e pela equipe. É uma sensação de orgulho ser capitão deste grande clube, com a história que possui. Mas jogando diante de três ou quatro mil espectadores, você deseja que o estádio esteja cheio. Espero ver a casa cheia no próximo jogo em casa”, declarou o capitão Jay Spearing, à BBC, logo após a intervenção contra o empresário. Vontade que logo se cumpriu.

Neste sábado, o que se viu foi um símbolo de orgulho. Quase 16 mil torcedores estiveram presentes em Bloomfield Road – quadruplicando a média registrada nas últimas três temporadas, que girava ao redor de 4 mil por partida. Foi o maior público do clube como mandante deste abril de 2014, quando ainda disputava a Championship. Se havia um certo atrito entre aqueles que aderiram o boicote e os que preferiam apoiar o clube independentemente de Oyston, tudo se transformou em uma grande comunhão desta vez. Seis horas antes do pontapé inicial, os fiéis já se concentravam no cartão postal da cidade. As bandeiras laranjas tomaram o caminho até o estádio, enquanto os torcedores tiveram o prazer de cantar a plenos pulmões nas tribunas. Em Bloomfield Road, foram removidas todas as propagandas da imobiliária que fez fortuna dos Oyston. E uma bela homenagem aconteceu no programa do jogo. Ele trazia o nome de torcedores que faleceram nos últimos anos e que estiveram afastados do clube por causa das discordâncias com a gestão. Os jogadores também realizaram um minuto de silêncio antes do pontapé inicial.

E a partida guardou suas emoções, mesmo que o empate por 2 a 2 não fosse o melhor dos mundos. O Southend United saiu em vantagem, mas Armand Gnanduillet empatou no primeiro tempo, provocando uma enorme comemoração. Já na segunda etapa, mesmo com os visitantes retomando a vantagem, os Tangerinas arrancaram o empate no sexto minuto dos acréscimos. Um gol contra foi suficiente para promover uma explosão nas arquibancadas, com direito a uma invasão de campo dos torcedores. O que mais parecia a festa por um título representava o tamanho do alívio que é o futuro sem os Oyston. O Blackpool iniciou sua nova era de uma maneira confiante e extremamente eufórica.

Com o empate deste sábado, o Blackpool ocupa o oitavo lugar na League One, a três pontos da zona de playoffs. Caso seja punido pela insolvência, deverá perder 12 pontos e, assim, ficar uma posição acima da zona de rebaixamento. O déficit deixado pelos Oyston representa uma longa caminhada e significa que o retorno aos dias gloriosos devem demorar. Ainda assim, se distanciar da podridão já é motivo suficiente os Tangerinas celebrarem. A agremiação estará apoiada em seu maior ativo: os próprios torcedores.