O trecho que você lê abaixo é extraído do livro “Não foi pênalti”, deste que vos escreve, que ainda não tem editora e nem data para ser publicado e conta a história de Fernando Silva, zagueiro formado pelo Juventus, jogou pelo Vasco, Vitória e Bahia e que cometeu o pênalti do milésimo gol de Pelé. O livro foi o trabalho de conclusão de curso na Escola de Comunicações e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo (USP), em 2012.

Bola dominada por Lima, para Clodoaldo, Clodoaldo caminha, caminha com a bola, vai penetrando Pelé, atenção, foi lançado, dominou, derrubado! Derrubado Pelé! Para impedir a conquista dos mil gols! Moacir e Renê já haviam sido batidos! Pelé ia faturar o mil! Foi derrubado na área! O árbitro, inflexível, marca: penalidade máxima! (…) Atenção, Brasil! Bola na marca fatal! Ele que já faturou tantas de bola parada, tanto na marca do pênalti quanto de longa distância. Está preparado para a sua consagração. Para entrar para a história do futebol universal de uma vez por todas, Pelé. Andrada no centro do gol. O Rei com a mão na cintura. A coroa levantada. Abaixa-se ele, o Rei, vai tomar distância. Todos os fotógrafos para fora da grande área. Volta-se, ele agora demonstra estar tranquilo. Só aquela serenidade dos que conhecem, dos que sabem. Agora correu, de paradinha é gol! Goooooooooooolaço, Pelé! É invadido o Maracanã! Pelé!

Narração de Joseval Peixoto na Rádio Jovem Pan, no dia 19/11/1969

Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1969

O Maracanã era o palco de grandes atuações do Santos na chamada “era Pelé”, com a conquista de dois títulos mundiais em 1962 e 1963. Aliás, foi em 1962 que o rei completou 500 gols. Demorou mais sete anos para que marcasse outros 500. O milésimo teve um ar épico e foi inegavelmente histórico. O lance aconteceu pela Taça Roberto Gomes Pedrosa, o Brasileirão da época, e teve tudo a ver com o Campeonato Paulista do ano anterior, 1968. A revelação daquele campeonato já tinha feito confrontos com o camisa 10 do Santos desde que se tornou profissional e estaria no Estádio Mário Filho ano seguinte, participando diretamente do lance do milésimo gol de Pelé.

Fernando Silva era um jovem jogador formado pelo Juventus quando estreou pelo clube da Mooca no Campeonato Paulista de 1967. Jogaria dois anos pelo clube da Rua Javari antes de se transferir. Negociou com alguns times, o que poderia ter mudado toda a história do milésimo gol – até mesmo podendo estar do outro lado naquele dia no Maracanã. Em 2010, conversamos com ele sobre o famoso lance e ele disse, com todas as letras: não foi pênalti. Aqui, contamos um pouco mais sobre essa história.

Início no Juventus em 1967 e 1968

O time do Juventus, da Mooca, em 1967 (Arquivo pessoal)

No dia 7 de setembro de 1967, o Palmeiras enfrentou o Juventus no Pacaembu. Era o 13º jogo do Moleque Travesso no Campeonato Paulista. Fernando, pela primeira vez, entrou em campo como profissional. E, naquela partida, Fernando guardou boas recordações, que parecem se materializar nas suas palavras, quando remonta os fatos ali ocorridos.

O Palmeiras fazia uma campanha instável no campeonato. Naquela partida, o time mostrou insegurança e, no relato do jornal O Estado de S. Paulo, o empate era “previsível”. Isso porque o time alviverde saiu em vantagem na partida no primeiro tempo, em uma cobrança de falta de Gallardo, mas o desempenho do time era sofrível:

Este empate, porém, era perfeitamente previsto no segundo tempo de jogo: o Palmeiras apresentava a defesa falha e o ataque sem entendimento, Dudu suportava as consequências do cansaço de Ademir no meio-campo e, além disso, o Juventus era um adversário mais determinado e eficiente.

Jornal O Estado de S. Paulo, 08/09/1967

Fernando conta que o time estava bem no jogo e acreditava que poderia vencer. Os jogadores do Palmeiras torciam para acabar o jogo e ficaram aliviados com o apito final. No seu primeiro jogo com a camisa grená do Juventus, Fernando tinha participado de um bom resultado para o time, uma atuação segura. A primeira de uma carreira que estava apenas começando.

Depois de que se tornou titular, Fernando manteve sua posição no time até o final da campanha. O Juventus, porém, sofreu muito. Nos 26 jogos disputados – dos quais cerca de metade Fernando foi titular – ganhou 18 pontos, venceu seis jogos, empatou seis e perdeu 14. Foram 26 gols marcados e 43 sofridos. Terminou aquele Campeonato Paulista em 13º lugar, penúltima posição. Só ficou à frente da Prudentina, que fez dois pontos a menos. Naquele ano, só um time era rebaixado. O Juventus escapou por pouco.

Mesmo assim, Fernando foi reconhecido como revelação daquele Campeonato Paulista. Tornou-se mais conhecido e uma figura importante do Juventus, que não disputava nenhuma competição nacional, mas voltaria a campo no ano seguinte, pelo Campeonato Paulista de 1968.

Fernando jogou 21 dos 26 jogos do Juventus naquele Campeonato Paulista de 1968. O Juventus, um dos times mais fracos do torneio, acabaria em 13º lugar, com 20 pontos, novamente brigando contra o rebaixamento. Apesar da campanha do time ter sido novamente brigando contra o rebaixamento, houve interesse de outros clubes na contratação de jogadores do Moleque Travesso. Fernando gerou interesse de diversos clubes e uma disputa nos bastidores. Essa disputa mudaria a história da carreira de Fernando – e do futebol, por consequência.

Da Javari para São Januário

O Vasco em 1968, já com Fernando (quarto, da esquerda para direita, em cima) (Foto: Arquivo)

No forte campeonato estadual de São Paulo, Fernando precisou se acostumar a marcar grandes jogadores, como Ademir da Guia, Duda e Tupãzinho, da Academia palmeirense, e o Santos de Pelé, Pepe, Coutinho e companhia. Fernando mesmo admite que a tarefa era dura. Marcar Pelé significava perder três, quatro quilos em uma partida, ficar com dor nas pernas e tomado pelo cansaço após os jogos.

O segundo jogador mais difícil de ser marcado, segundo Fernando, era um outro camisa 10, conhecido por sua genialidade, mas criticado como um “jogador lento”, segundo os relatos da época. Ademir Da Guia, o Divino, era um dos jogadores mais difíceis de serem marcados, segundo Fernando, porque era imprevisível. Seu repertório de jogadas era grande e tentar se precaver do que ele poderia fazer era uma tarefa que dava trabalho.

A rotina de ter que marcar jogadores como esses o credenciava para jogar em outro clube, que disputasse títulos. Foi assim que começou a disputa pela sua contratação. A Portuguesa, que estava prestes a fazer uma excursão para o exterior, foi a primeira a procurá-lo e queria contar com o zagueiro já nas viagens. O acerto já estava feito e a contratação era certa.

O problema é que para viajar com o time, Fernando precisava de passaporte, um documento que não tinha. Com o pai, Fernando foi tirar o passaporte na Polícia Federal, mas o documento não foi emitido a tempo. Sem o passaporte e sem poder viajar com a Portuguesa para a excursão no exterior, o clube do Canindé desistiu do negócio. A transferência foi cancelada. Fernando não jogaria com Zé Maria (lateral direito que ganhou o apelido de “Super Zé” quando defendeu o Corinthians), Leivinha (que depois se consagraria no Palmeiras) ou o meio-campista Ivair. Mas ainda iria mudar de clube.

Pelé já tinha elogiado Fernando após um jogo na Vila Belmiro, dizendo que ele era um dos poucos que o marcava sem usar a violência. É verdade que o Juventus de Fernando nunca conseguiu causar muitos problemas ao Santos de Pelé – em três jogos que Fernando esteve em campo, foram três derrotas do time da Móoca. A conversa que rendeu o elogio ao zagueiro foi após o primeiro jogo entre os dois, no dia 1º de novembro de 1967, quando o Santos venceu por 4 a 1 na Vila Belmiro, mas o Rei fez elogios ao então jovem zagueiro, de 18 anos.

Fernando ainda enfrentou Pelé pelo Santos mais duas vezes. No dia 23 de março de 1968, o Santos venceu o Juventus por 4 a 0 no Pacaembu. E no dia 24 de abril daquele ano, a última derrota pelo Juventus: 3 a 2 para os santistas na Vila Belmiro. Fernando, cotado para jogar na Vila, poderia defender um dos melhores times do Brasil na época e jogar ao lado de Pelé e outras estrelas que faziam o Santos ser tão forte.

O Palmeiras também demonstrou interesse no zagueiro, mas o Santos estava em vantagem e chegou a dar a contratação como certa. O que mudou o rumo da contratação foi a intervenção do assistente técnico do Vasco, alguém que conhecia Fernando das categorias de base do Juventus, dois anos antes, que o indicou para o técnico da equipe, Paulinho de Almeida. O time da Cruz de Malta seria o destino de Fernando, aos 20 anos.

O jogador lembra como era difícil, para um paulista, jogar no Rio de Janeiro, já que a rivalidade entre os dois estados era muito forte. Não fosse pela indicação, Fernando teria ido para o Santos – que acabou contratando o zagueiro Marçal – e, um ano depois, estaria comemorando com Pelé seu milésimo gol, e não cometendo o pênalti que resultou no gol histórico. Pênalti que Fernando é firme em dizer: jamais aconteceu.

O pênalti do milésimo gol

Fernando com a camisa do Vasco, no Maracanã, em 1968 (Arquivo)

Em pouco mais de 20 anos de carreira, Pelé anotou 1281 gols, ainda que o número seja contestado por incluir muitos jogos que não são considerados oficiais – como os amistosos do Santos e os jogos pela seleção brasileira militar. O mais lembrado – ao menos pelo número emblemático – foi o milésimo, já que foi o primeiro registro de um jogador que alcançou a marca (ao menos o primeiro a contabilizar esse feito). Foi justamente neste gol que Fernando teve uma participação decisiva, que marcaria sua carreira.

O Santos, como era tradicional, fazia amistosos nos períodos entre campeonatos. Após o fim do Campeonato Paulista, o time fez muitos jogos e adiou a sua participação no campeonato nacional. Tanto que o time começou a disputar a Taça de Prata, o Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1969, apenas no dia 28 de setembro, quase um mês depois do jogo inicial do torneio, no dia 6 de setembro. Com a bênção da CBD, que mudou os jogos da equipe.

O mês de setembro foi de amistosos internacionais para o Santos. Foram sete partidas no período e sete gols marcados pelo Rei. No fim do mês, o time do Santos voltava à disputa do Robertão e o primeiro desafio seria contra o Grêmio, no estádio Olímpico. O time da Vila Belmiro perderia por 2 a 1, mas um dos gols foi de Pelé. Nas duas rodadas seguintes, na derrota por 3 a 2 para o Cruzeiro em São Paulo e na derrota por 3 a 0 para o Internacional em Porto Alegre, Pelé não jogou. Era uma maratona. O Santos jogou oito partidas em um mês, entre 28 de setembro e 26 de outubro. Tudo para compensar as rodadas que o time ficou fora para os amistosos internacionais.

Pelé marcaria o gol 989 no jogo contra o Palmeiras, no dia 12 de outubro. Três dias depois, aproximou-se ainda mais da marca história contra a Portuguesa: fez quatro gols e chegou a 993 gols. A próxima vítima seria o Coritiba, no dia 22 de outubro, quando Pelé marcou mais dois gols e chegou a 995. A projeção do milésimo gol fazia todos os jogos do Santos terem uma certa apreensão.

Veio então o jogo contra o Flamengo, no dia 1º de novembro, quando o Santos venceu por 4 a 1 no Maracanã e Pelé marcou mais um. Era o gol número 996. O Santos, então, teria dois clássicos. Pelé poderia marcar o milésimo gol contra Corinthians ou São Paulo, os dois adversários seguintes do time da Vila.

No dia 4 de novembro, o Santos enfrentou o Corinthians no Pacaembu, a maior vítima de Pelé. O jogo deveria ter sido disputado no dia 19 de outubro, mas acabou cancelado pelas chuvas. Por isso, os portões aquele dia foram abertos. Não há um número oficial, mas calcula-se que 65 mil pessoas foram ao estádio naquele dia. O Corinthians, mandante, goleou o Santos por 4 a 1 e Pelé não conseguiu marcar. Contamos como o Corinthians segurou o Rei para impedir o milésimo gol. Rivelino, o Reizinho do Parque, foi o dono da partida com dois gols. Ivair e Suíngue também marcaram. Para o Santos, quem fez o gol foi o ponta Edu.

Na rodada seguinte, no dia 9 de novembro, era a vez de enfrentar o São Paulo no Morumbi. Novamente, Pelé passou em branco e o jogo terminou 1 a 1, gols de Nenê para o São Paulo e Rildo para o Santos. O milésimo não seria em um clássico paulista.

Na Ilha do Retiro, o Santa Cruz recebeu o Santos e ali saíram mais dois gols de Pelé. Na vitória por 4 a 0 dos santistas, o rei marcou o que na época se acreditava serem o gol 997 e 998. Faltavam apenas dois gols.

O Santos então foi disputar um amistoso em João Pessoa contra o Botafogo da Paraíba, no dia 14 de novembro. No Estádio Olímpico da capital paraibana, até mesmo os santistas temiam que “arrumassem” os gols que faltavam para que o estádio entrasse para a história, às custas do camisa 10. Tanto que Pelé marcou, de pênalti, o terceiro gol do time paulista. Seu 999º, na contagem da época. Logo depois, uma lesão do goleiro Jairzão quando o Santos já havia feito todas as substituições permitidas forçaram um jogador de linha a ir para baixo do travessão. Como se a intenção fosse evitar o milésimo gol, o escolhido foi Pelé. Para os santistas, o palco não estava à altura do Rei. A festa, que estava armada, foi deixada para trás.

Dois dias depois, a equipe santista entrou em campo na Fonte Nova, contra o Bahia, desta vez pelo Robertão. E pagou o preço por ter desdenhado do estádio paraibano. Pelé tentou de todas as formas que pôde furar a defesa adversária e teve até uma bola tirada em cima da linha, pelo zagueiro Nildo, depois de driblar o goleiro. Os baianos – precisamente 37.378 pessoas – queriam ter visto o gol histórico no estádio, ainda que fosse contra seu time. Ao evitar o gol, Nildo foi vaiado por grande parte da torcida do Bahia.

Outro antagonista na partida foi o volante Baiaco, que, se não esbanjava técnica no seu estilo de jogo, conseguiu anular Pelé durante todo o jogo e ainda foi o autor do gol dos donos da casa, no empate por 1 a 1 – um dos poucos da carreira do volante, não muito afeito aos gols. Três anos mais tarde, Baiaco, que evitou o milésimo gol de Pelé, foi companheiro de Fernando, que não havia tido a mesma sorte no desafio de marcar o Rei. Os dois defenderam o Bahia.

Ao final da partida contra o Bahia, sem o tão esperado gol, os torcedores davam como certo que o mesmo sairia no Maracanã, agora sim, o palco ideal. Quem lembra muito bem os dias anteriores ao duelo é Valdir Appel, goleiro reserva, que esteve próximo de substituir Andrada e ser “contemplado” pela história. No último treino da equipe de São Januário, o argentino deixou o gramado sentindo dores no tornozelo. Virou não só dúvida para o jogo, mas também motivo de piada e provocação por parte dos outros jogadores.

Enquanto Chico, o massagista, colocava gelo no pé inchado, Andrada ouvia de todos os lados que estaria pipocando. Valdir conta que o meia Adilson ia ainda mais longe, incluindo-o no deboche. “Ei, gringo! Está com medo? Não tem problema, o Valdir joga. Já entrou para história com aquele gol contra. Este não vai fazer diferença”, dizia. O tal gol contra aconteceu diante do Bangu. Valdir tentou lançar a bola com as mãos, mas acabou fazendo o movimento errado e a jogou para dentro do próprio gol.

O estádio do Maracanã, palco do Milésimo Gol de Pelé (Arquivo)

Chegou então o dia do jogo. Era 19 de novembro de 1969, o palco era o Maracanã, onde Pelé já tinha brilhado pelo próprio Santos e pela seleção brasileira. O maior estádio do Brasil, a mais famosa cidade, um adversário de camisa. A expectativa era grande e 65.157 pessoas compareceram ao Maracanã para assistir à partida, que tinha tudo para ser histórica.

Mesmo machucado, Andrada resolveu entrar em campo. E não entrou apenas para ser um coadjuvante, mas para ganhar o papel de vilão. O goleiro teve uma de suas melhores atuações pelo Vasco, evitando gol certo de Pelé, em chute com o lado externo do pé no ângulo direito, na primeira etapa. Um salto de mão trocada para frustrar todos os presentes, até mesmo os diretores vascaínos, que torciam pelo gol histórico.

O limitado time cruzmaltino, que fora de campo atravessava um de seus momentos mais instáveis, equilibrava a partida contra o temível Santos de Pelé, Pepe e Coutinho. Fernando, aos 21 anos, era um dos responsáveis por limitar o poderoso ataque paulista. Aos 17 minutos, a surpreendente atuação rendeu vantagem no placar, com gol de Benetti – o mesmo que tinha vindo do Juventus, junto com Fernando. Na segunda etapa, o empate santista veio em um gol contra de Renê. Uma falha de Andrada, que saiu do gol e não alcançou a bola, pegou o zagueiro de surpresa. Renê não conseguiu se esquivar e, de cabeça, mandou para o fundo do gol. Tivesse se esquivado, Pelé estava logo atrás para mandá-la para a rede e comemorar o tão aguardado gol.

O tempo passava e a oportunidades do Santos paravam em defesas de Andrada, cortes da zaga e impedimentos apitados pelo árbitro Manoel Amaro de Lima. Este, com o poder do apito, se tornaria um protagonista poucos minutos depois.

Aos 33 do segundo tempo, roubada de bola do Santos no meio-campo. Lima passa para Clodoaldo, que encontra Pelé com um lançamento pelo meio. O camisa 10 domina a bola, avança e entra na área, em meio aos zagueiros do Vasco. A expectativa era alta. Ali, Pelé era sempre perigoso e não costumava perder muitas chances. Fernando estava na marcação e cercou o Rei, que vinha em velocidade. Os dois se chocaram.

Milésimo gol de Pelé. Reprodução do jornal O Estado de S. Paulo no dia 20/11/1969

Pelé, em velocidade, se choca com a perna de Fernando. O zagueiro relembra o lance dizendo que sequer fez o movimento para derrubar, que Pelé forçou a barra e procurou o contato. “Eu não fiz o pênalti. Nós do Vasco não queríamos que Pelé fizesse um gol no Maracanã”, contou à Trivela em 2010. Foi Pelé que se chocou com a perna de Fernando, segundo o próprio. Um lance decisivo na história do futebol, do Santos, do Maracanã, do Vasco, de Pelé e também de Fernando.

Um lance tão importante que seria repetido por milhares de vezes – primeiro, no rádio, principal veículo da época. Nos jornais, em páginas e mais páginas dedicadas ao grande feito. A Fifa mandou carta para reconhecer a importância do que aconteceu.

Aquele lance não é o mais importante na carreira de Fernando. Ele acha que o melhor da carreira veio depois. Mesmo assim, esse é o lance mais lembrado dos seus 12 anos nos gramados. É chamado para falar sobre o lance repetidas vezes, quase como um depoimento após presenciar um crime. Sempre que se aproxima o mês de novembro e o dia 19 de novembro, Fernando falou sobre o lance repetidas vezes, em muitas entrevistas ao longo do tempo. Sua carreira teve diversos altos e baixos, momentos que pessoalmente ficaram marcados, mas nenhum se comparar ao pênalti do milésimo gol de Pelé.

A situação era amplamente favorável ao pênalti e o lance é discutível. A ansiedade de todos pelo milésimo gol de Pelé fez com que mesmo a torcida do Vasco gritasse o nome do camisa 10 mais famoso da história do futebol brasileiro. Os gritos de Pelé ecoavam pelo estádio Mário Filho, que, se estava longe de estar lotado para os padrões da época, e ainda assim tinha mais de 60 mil vozes pedindo que Pelé cobrasse o pênalti. Se foi pênalti ou não nunca foi uma questão. Pouco importava, naquele momento. Mas para Fernando importava.

Pelé era reverenciado pela torcida vascaína por sua ligação com o clube. Jogou com a camisa do Vasco em um jogo que teve jogadores do Santos e do clube vascaíno. Pelé dava declarações sobre o seu carinho pelo Vasco. Não era estranho, portanto, que a própria torcida vascaína se empolgasse com a possibilidade de poder ter o milésimo gol de Pelé naquela partida.

Fernando, aquele que um ano antes, por muito pouco, não foi contratado pelo alvinegro praiano. Que poderia estar fazendo o lançamento ao rei ao invés de tentar mantê-lo longe da área vascaína. Que jura, até hoje, que não foi pênalti. O árbitro apontou a marca da cal. A bola, depois da disputa entre Pelé e Fernando, sobrou para Andrada, que a atirou no campo, com raiva. Enquanto dez jogadores vascaínos pressionam de Lima, Fidélis dedica-se a chutar a grama na marca do pênalti, deixando-a irregular para a cobrança. A torcida clamava pelo apelido de Edson Arantes do Nascimento. “Pelé, Pelé, Pelé!” Era o que o maior estádio do Brasil ouvia enquanto os jogadores, em vão, tentavam ser ouvidos pelo árbitro.

Andrada, a bola, Pelé e vascaínos que esperam um rebote da cobrança. Os santistas formaram uma fila no meio do campo para que o camisa 10 corresse até eles após o gol. Não deu tempo. Com passos lentos, Pelé partiu para a cobrança, no canto esquerdo de Andrada. O goleiro chegou a tocar na bola, mais não o suficiente para evitar que ela balançasse a rede.

O que todos os presentes no Maracanã queriam ver. Até mesmo o árbitro. Após a partida, de Lima declarou que já poderia encerrar a carreira, porque apitara o jogo mais importante do século XX. Logo que a bola passou, Andrada socou o chão, ciente de que ficaria marcado para sempre na história do futebol. Pelé correu para dentro do gol e, de lá, saiu ainda mais lentamente depois de beijar a bola. Dessa vez, não foi com passos, mas carregado por dirigentes do Santos e cercado por jornalistas e fotógrafos. Fernando, um dos vascaínos cabisbaixos, perto da grande área, poderia estar carregando o rei do futebol. Por muito pouco. O jogo, extraoficialmente, acabava ali. Todos já tinham visto o bastante.

Fernando deixaria o Vasco para jogar por Olaria e depois no Bangu, onde conseguiu ter sucesso. Depois, iria para o clube da sua vida: o Vitória, em 1972. Ainda jogaria pelo rival Bahia, em 1974 e 1975, depois voltaria para o Vitória e ficaria até 1976. Foi na Bahia que viveu o auge da carreira, com títulos, grandes jogos e craques ao lado, como Mário Sérgio.

No final da carreira, passou pelo Fluminense de Feira, de 1976 a 1978 e, por fim o Leônico, de 1978 a 1979. Encerrou a carreira por frequentes lesões. Continuou como ídolo na Bahia e morou em Salvador mais alguns anos, antes de voltar ao estado do Rio, mais precisamente a Maricá. É lá que Fernando segue em contato com futebol: dá aulas em uma escolinha de futebol, que leva as cores do América-RJ.

A relação com futebol segue firme também no coração: Fernando criou uma relação tão forte com o Vasco que é, até hoje, um vascaíno apaixonado e acompanha o time com olhar muito crítico sobre o clube. Além do Vasco, acompanha com carinho o Vitória, clube pelo qual teve mais sucesso e que mantém relação das mais fortes, inclusive com dirigentes. Para quem é apaixonado por futebol, encerrar a carreira em campo só abre outro capítulo na vida.

Narrações do Milésimo Gol

O blog Radioamantes trouxe uma compilação de narrações do Milésimo Gol que reproduzimos aqui com as narrações do Milésimo Gol de Pelé.

Rádio Nacional (SP, que se tornaria Rádio Globo no futuro). Narração de Pedro Luiz e comentários de Juarez Soares:

Rádio Bandeirantes (SP), Flávio Araújo:

Rádio Jovem Pan (SP), narrado por Joseval Peixoto:

Rádio Guaíba, com Milton Ferretti Jung e Lasier Martins:

Rádio Cacique (Santos, SP), narrado por Walter Dias:

Rádio Globo (RJ), narrado por Waldir Amaral:

Ficha técnica
Vasco 1 x 2 Santos
Local: Maracanã, no Rio de Janeiro
Data: 19/11/1969
Gols: Benetti (Vasco), Renê (contra) e Pelé (Santos)

Vasco: Andrada, Fidélis, Moacir, Renê, Eberval, Fernando, Buglê, Benetti, Acelino (Raimundinho), Adílson, Danilo Menezes (Silvinho). Técnico: Célio De Souza

Santos: Agnaldo; Carlos Alberto, Ramos Delgado, Djalma Dias (Joel Camargo) e Rildo; Clodoaldo e Lima; Manoel Maria, Edu, Pelé (Jair Bala) e Abel. Técnico: Antoninho