Em uma pré-temporada na qual os dois principais rivais vivem transformações profundas, o Milan precisa colocar os pés no chão. As limitações causadas pelo Fair Play Financeiro não permitem grandes extravagâncias, assim como o técnico Marco Giampaolo é uma aposta bem menos incensada do que Maurizio Sarri ou Antonio Conte. Neste momento, o objetivo dos rossoneri é o de se restabelecer na zona de classificação à Liga dos Campeões, enquanto formam uma equipe jovem. Não realizam investimentos midiáticos em contratações. Por isso mesmo, a chegada de Rafael Leão, anunciado nesta quinta-feira, merece destaque. O atacante de 20 anos, trazido do Lille, custou €35 milhões aos cofres do clube.

Krzysztof Piatek continua como a grande referência no ataque do Milan. Todavia, o time buscava outros reforços à linha de frente. Sem grandes perspectivas de segurar André Silva, após a passagem opaca do português por Milanello, os rossoneri reformulam o setor. O questionamento é à forma como isso vem sendo feito. Rafael Leão, sem dúvidas, é um acréscimo com boas perspectivas de vingar na Itália – mas que não oferece certeza, assim como aconteceu com seu compatriota. Ao mesmo tempo, a venda de Patrick Cutrone ao Wolverhampton gerou insatisfações entre alguns torcedores.

Considerando a margem de manobra deixada pelo Fair Play Financeiro, o Milan precisava equilibrar a balança para trazer suas novas peças. Rafael Leão é o primeiro reforço confirmado ao ataque e o clube está próximo de trazer Ángel Correa, do Atlético de Madrid. São jogadores de características diferentes, que podem se complementar a Piatek. O mais próximo ao polonês era justamente Cutrone, que acabou descartado por isso.

Apesar do desejo do centroavante de 21 anos em permanecer em Milanello, sua casa há 12 anos, a diretoria preferiu diversificar a linha de frente e fazer caixa com o prata da casa. Cutrone seguiu à Premier League por €18 milhões, quantia até baixa para o seu valor de mercado. Certamente terá um bom espaço no Wolverhampton, embora ainda precise disputar sua posição entre os titulares. Independentemente do desempenho irregular com a camisa rossonera, sobretudo no último semestre, o jovem apresentava talento e capacidade de crescimento. Foi uma decisão “fria” da direção, mas que não caiu bem entre os torcedores, inclusive pelo preço.

Neste sentido, Rafael Leão chega ao Milan não apenas para adicionar qualidade ao ataque, mas também para provar que a diretoria rossonera agiu da melhor maneira em sua escolha. A princípio, é um jogador que pode se encaixar de forma ideal com Piatek. O português pode atuar não apenas como centroavante, servindo de alternativa ao titular, como também tem qualidade para apoiá-lo como segundo atacante ou mesmo entrar como um ponta. Pelo Lille, seu curto auge aconteceu como homem de referência na frente. Com Giampaolo, tende a acompanhar Piatek com dois atacantes, num meio termo entre a presença de área do polonês e a mobilidade que Correa possivelmente poderia oferecer.

O preço de Rafael Leão corresponde principalmente ao seu potencial, não necessariamente à pressa de que se torne titular absoluto. É imaginável que o português integre aos poucos o ataque do Milan, considerando a experiência de seus virtuais concorrentes. De qualquer maneira, há uma etiqueta cara e isso orientará a cobrança sobre aquilo que o jovem entregará aos milanistas. A maior preocupação com seu rendimento é justamente a parca experiência em alto nível, com uma carreira curtíssima entre os profissionais.

O principal selo de qualidade atribuído a Leão está em sua passagem pelas categorias de base do Sporting. O atacante chegou aos alviverdes quando tinha nove anos e logo se tornou uma pérola no clube. Passou por diferentes seleções menores de Portugal e, diante dos ótimos números com o segundo quadro sportinguista, virou aposta de Jorge Jesus na segunda metade da temporada 2017/18. Então, surgiram os problemas. Em cinco jogos pela equipe principal, anotou dois gols e deu uma assistência. Porém, no clássico contra o Porto, após balançar as redes, sofreu uma lesão muscular e precisou ser substituído.

Rafael Leão ficou de fora do restante da temporada e terminou agredido na repudiável invasão de torcedores ao CT do Sporting. Rompeu seu contrato de maneira unilateral (o que segue protestado pelos alviverdes) e se juntou ao Lille pouco depois. Reserva dos franceses na maior parte da Ligue 1, disputou somente 24 jogos pela competição, oito deles saindo do banco. Anotou oito gols e serviu duas assistências, concentrados em uma fase arrebatadora na virada do ano. É diferente, por exemplo, de Nicolás Pépé, que teve um ano realmente consistente antes de ser cortejado por vários clubes e ser contratado pelo Arsenal. O Milan investe o dinheiro porque acredita que o rendimento do jovem centroavante poderá se tornar constante durante as próximas temporadas. Aos 20 anos, ele pode crescer.

Desta maneira, Rafael Leão é um talento bruto. Sua capacidade física é a primeira virtude visível, com boa estatura (1,88 m) combinada a uma grande explosão nas arrancadas. Também é um jogador com qualidade na finalização, seja com os pés ou com a cabeça, e que possui um bom número de assistências. Mas ainda precisa ser lapidado em um nível mais alto, sobretudo pela contribuição tática. Na França e em Portugal ele conseguiu causar impacto imediato. Na Itália, precisará mais do que isso, diante daquilo que o Milan planeja. E ganha um voto de confiança que não foi dado a Cutrone.

Rafael Leão costuma ser bastante elogiado por aquilo que apresentou na base do Sporting e caiu nas graças do Lille em pouco tempo. O Milan precisará equilibrar paciência e espaço para aproveitar o melhor do jovem. Por enquanto, é um nome ao futuro. Mas que necessitará se fazer presente desde cedo, sobretudo diante das cobranças que existem a uma diretoria que tateia seu caminho e monta um time sem nomes tão badalados assim.