Fatos importantes ficam tão marcados na memória que você não lembra apenas do acontecimento, mas de onde estava quando tudo aconteceu. Minha memória é acima da média e até me faz lembrar coisas realmente desnecessárias, mas não é o caso de 12 de maio de 1985. Eu nem havia completado sete anos, mas me recordo como foi a manhã daquele domingo. Acordei, coloquei na Globo e fiquei vendo o inimaginável acontecer: o Verona conquistar o título italiano.

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Era uma tarde chuvosa em Bérgamo. O estádio Comunale estava lotado e era visível a expectativa da torcida gialloblù, muitas vezes focalizada pela transmissão da Rai (até porque as duas torcidas nunca tiveram relação amistosa, o que certamente piorava em um jogo decisivo).

Eu liguei a TV e o placar já estava em 1 a 1, resultado suficiente para os gialloblù levantarem a taça. Já havia decidido adotar o Verona para torcer na Itália, mas, ainda leigo nas questões do futebol, tinha medo de cada investida dos visitantes ao ataque. Havia fixado na cabeça que os veroneses eram azuis, e não imaginava que o time azul daquela partida era a Atalanta. Mas a igualdade ficou até o final, e fiquei feliz com o título. Feliz e confuso, quando vi que os caras de amarelo é que festejavam.

Esse tipo de história parece impossível no futebol de hoje. Não era uma equipe fraca. Dois anos antes, o Verona havia retornado da Série B com a quarta colocação no Italiano, suficiente para uma vaga na Copa da Uefa. A estrutura se mantinha a mesma em 1984/85, tendo Fanna, Di Gennaro, Galderisi e Tricella formando a base. A eles se juntaram dois grandalhões que levaram a equipe a um outro nível: o meia Briegel, ex-Kaiserslautern e titular da seleção alemã-ocidental, e o atacante Elkjaer, uma das estrelas da Dinamáquina que estava no pequeno Lokeren, da Bélgica.

O time comandado por Osvaldo Bagnoli era sólido, mas não parecia ter condições de encarar de igual para igual as forças da época. Naquela temporada, a Serie A abriu espaço para dois estrangeiros por equipe e jorrou dinheiro nos clubes. Até as equipes pequenas tinham jogadores de destaque internacional.

Tavela_Destaques Serie A 1985

Mas a campanha daquele Verona foi.. acontecendo. Venceu o Napoli na estreia do astro Maradona na primeira rodada. Bateu Ascoli, Udinese, empatou fora com a Inter e bateu a Juventus em um jogo em que rolou até gol descalço de Elkjaer. Os bons resultados se seguiram: empate fora com o timaço da Roma e vitória sobre a Fiorentina. O time era líder após sete rodadas, mesmo com uma tabela que havia colocado vários candidatos ao título pelo caminho.

Ainda assim, muitos acreditavam que seria uma reedição da temporada 1982/83, quando o Verona brigou na ponta até o final do primeiro turno, mas caiu naturalmente na reta final. Seria a consequência natural para esse time. Ainda assim, a primeira derrota veio apenas na 15ª rodada, a última do primeiro turno, para o Avellino. Nada que tirasse o título simbólico do primeiro turno do Vêneto.

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Apesar de já haver elementos para considerar o Verona como candidato ao título, as entrevistas ainda falavam em “conquistar pontos para evitar o rebaixamento”. Mas aquele discurso se tornou insustentável. No segundo turno, os gialloblù passaram invictos pela sequência Inter-Juventus-Roma-Fiorentina (nota pessoal: escolhi torcer pelo Verona após essa vitória sobre a Roma, transmitida para o Brasil). Haveria mais uma derrota, para o Torino no estádio Marc’Antonio Bentegodi, mas a tabela era generosa na reta final e foi tranquilo controlar a vantagem sobre os perseguidores (a Inter e o próprio Toro).

Foi a primeira – e até hoje única – vez que um clube de interior de região (a capital do Vêneto é Veneza) conquistou o scudetto em pontos corridos. E sem um mecenas injetando fortuna em reforços ou aproveitando uma crise técnica ou financeira dos grandes. O “Verona del Miracolo” era apenas uma equipe bem montada que soube manter a intensidade durante toda a campanha em uma das edições mais fortes do Campeonato Italiano.

Não surpreende que, nesta terça, 30º aniversário do milagre, a Gazzetta dello Sport tenha compartilhado em seu perfil no Facebook uma foto daquele Verona. O título na imagem: “O último scudetto romântico”.

Verona_Scudetto romantico

Outro brasileiro veronista, Thiago Zanetin, traduziu e compartilhou dois bons textos publicados na imprensa italiana sobre o “Verona del Miracolo”. Um de Candido Cannavò, na Gazzetta dello Sport, e outro de Matteo Fontana, no Corriere del Veneto.