Era preciso um milagre. Como derrotar o Barcelona por três gols de diferença, sem tomar gols, para ainda assim levar a disputa para a prorrogação? Parecia uma montanha alta demais para escalar. Só que estamos falando do Liverpool. O time de cinco títulos de Champions League. O time que protagonizou uma das maiores histórias das finais europeias depois de sair perdendo por 3 a 0 em Istambul, em 2005, e ainda sair com a taça no final. Estamos falando de Anfield, inegavelmente um templo do futebol – tanto quanto o Camp Nou se tornou um. O Liverpool protagonizou a sua maior noite europeia da história. Milagre que nada, o nome é Anfield. O Liverpool arrancou um 4 a 0 diante da sua torcida, revertendo os 3 a 0 da ida, e será finalista pelo segundo ano consecutivo.

Ver que esse milagre aconteceria seria, evidentemente, um chute no escuro. O máximo que dá para fazer é se preparar para fazer isso. O Liverpool tinha, nas palavras do seu técnico, a vontade. A intenção, como Jürgen Klopp deixou claro. “Se conseguirmos, maravilhoso. Se não conseguirmos, que falhemos do jeito mais bonito”. O time se preparou para tentar o milagre. Tentou surpreender. Tentou vencer.

Desfalques

O Liverpool já começou o jogo bastante desfalcado. Dois dos seus três atacantes sequer foram relacionados, machucados: o brasileiro Roberto Firmino, com uma contusão muscular, e o egípcio Mohamed Salah, que teve uma concussão no fim de semana. Para os seus lugares, Jürgen Klopp colocou Divock Origi e Xherdan Shaqiri como titulares. Além disso, no meio-campo houve mudança: em vez de Georgino Wijnaldum, Jordan Henderson.

No banco, muito sangue novo: Rhian Brewster, campeão mundial sub-17 pela Inglaterra, atualmente com 19 anos, e Bem Woodburn, 19 anos, que já jogou pela seleção principal de Gales. Os dois ainda pouco conseguem ter espaço no elenco principal.

Assim como no primeiro jogo, o Barcelona veio com Arturo Vidal no time titular no lugar de Arthur. Ele jogou pela direita, aberto em um 4-4-2 de Ernesto Valverde. Pela esquerda, Philippe Coutinho, com Ivan Rakitic e Sergio Busquets pelo centro. Além deles, Sergi Roberto foi o lateral, com Gerard Piqué e Clément Lenglet na zaga, além de Jordi Alba na esquerda. No ataque, claro, Luis Suárez e Lionel Messi.

Inflamado desde o início

A torcida em Anfield fez a sua parte. Mal foi possível ouvir o hino da Champions League, porque os torcedores cantavam, entoavam, de corpo e alma, o “You’ll Never Walk Alone”. O grito ecoava, o time sabia que estava diante de uma responsabilidade. Mas o Barcelona também sabia. Os dois sabiam. E o jogo começou em uma temperatura enorme.

Logo a seis minutos, uma chama de esperança inflamou Anfield. Lançamento longo para a direita, recuo mal dado de Alba de cabeça que Mané aproveitou, interceptou a bola, Henderson ficou com ela dentro da área, chutou desequilibrado, rasteiro, e Ter Stegen espalmou. A bola sobrou para Origi, que só empurrou para a rede para marcar 1 a 0.

Desde o começo do jogo, Fabinho se mostrou muito nervoso. Primeiro, com Messi, que caiu em um lance pedindo falta, não dada pelo árbitro. Fabinho deu um chega pra lá em Messi, empurrando a cabeça do argentino. Depois, em uma jogada na linha de fundo com Luis Suárez, o brasileiro e o uruguaio discutiram. Fabinho deu berros no ouvido do atacante do Barcelona, parecendo querer intimidá-lo.

Depois, recebeu o cartão amarelo por uma entrada de carrinho duro em cima de Suárez. Pegou bola, jogador e mais três países à sua escolha. O árbitro, que já tinha dado um aviso ao volante do Liverpool, desta vez mostrou um amarelinho.

O Barcelona finalmente mostrou um pouco do seu jogo aos 14 minutos. Em uma jogada de Jordi Alba, articulada com Philippe Coutinho, ele cruzou para trás, rasteiro, para Messi. O camisa 10 finalizou com precisão, mas Alisson fez a defesa e mandou para escanteio. Primeiro bom lance dos visitantes.

Logo depois, um lance bastante duvidoso no ataque do Barcelona, com três jogadores dentro da área, superando uma linha de impedimento. A bola foi para Messi. Era de se imaginar que ele não perdoaria. Quem chegou, porém, foi Joel Matip em um desarme salvador. Logo depois, aos 17, mais um ataque pelo meio, com Messi abrindo para Coutinho na esquerda e o brasileiro tocando com perigo, mas Alisson fez uma boa defesa, espalmando para o lado, tirando o perigo dali.

O Barcelona começou a aparecer mais e, no rebote de um escanteio, Messi chutou rasteiro, mais uma vez tirando um pouco mais do ar dos torcedores do Liverpool no estádio. A bola acabou passando perto, mas foi fora.

O ritmo do jogo era alucinante nesses primeiros 20 minutos. O Liverpool voltou à carga e continuou pressionando o Barcelona em seu campo. Aos 23 minutos, o time retomou a bola com Van Dijk, que lançou em profundidade para Mané. O atacante hesitou um pouco, chutou para o meio, a zaga afastou e sobrou para o lateral Andrew Robertson, que soltou uma bomba. Ter Stegen defendeu de novo.

No último lance do primeiro tempo, um contra-ataque perigoso, originado em um erro de Shaqiri, que tocou de cabeça e deixou nos pés do Barcelona. Messi recebeu a bola e achou o lateral Jordi Alba entrando como atacante. O jogador tocou, Alisson ainda conseguiu uma defesa parcial, depois conseguiu segurar a bola.

Apesar dos bons pontos positivos no primeiro tempo, como Sadio Mané e até Origi, quem destoou foi Shaqiri. O suíço errou tudo que tentou. Foram muitos passes nos pés dos adversários, quebrando ataques e oferecendo contra-ataques. Uma partida realmente ruim do atacante, que tem sido pouco utilizado nos últimos meses – e parece que entendemos a razão.

Wijnaldum, o herói do banco

Na volta para o segundo tempo, uma alteração do Liverpool. Robertson sentiu e foi sacado. Entrou Wijnaldum no seu lugar, deslocando Milner para a lateral esquerda. E, possivelmente, salvando Shaqiri de uma substituição que aconteceria no intervalo. Klopp deve ter preferido esperar mais um pouco para trocar, se continuar necessário.

O segundo tempo começou também agitado, como foi o primeiro. Logo no começo, Mané recebeu, dominou na coxa e na hora do chute, Sergi Roberto conseguiu o corte. Depois, Ter Stegen teve que fazer uma grande defesa após a cobrança de escanteio e o desvio de calcanhar de Van Dijk.

Só que o Barcelona também ameaçava. Suárez recebeu em posição duvidosa, dominou e chutou, mas o goleiro Alisson defendeu. Mais uma boa intervenção do brasileiro. Crucial para manter o Liverpool no jogo contra um time que é sempre perigoso.

Aos oito minutos do segundo tempo, Alexander-Arnaldo tentou o passe para o meio, errou, mas ele foi para cima fazer a pressão e desarmou Jordi Alba. Com a bola, avançou à linha de fundo e cruzou rasteiro. Wijnaldum chegou no meio da área, chutando como dava, e marcando o segundo gol do Liverpool no jogo: 2 a 0. E, o que parecia impossível, ficou possível.

Os jogadores do Barcelona pareciam ainda atônitos, talvez pensando no que aconteceu na temporada passada contra a Roma no estádio Olímpico. Na temporada passada, depois de vencer por 4 a 1 no Camp Nou, os catalães perderam por 3 a 0 na capital italiana e acabaram eliminados. Essa mesma Roma que acabaria eliminada por este Liverpool, único semifinalista de 2017/18 que alcançou a mesma fase nesta temporada.

Antes que o Barcelona assimilasse o golpe do segundo gol, veio um outro golpe pesado. Shaqiri recebeu pela ponta esquerda, cruzou para a área e Wijnaldum, na posição de centroavante, cabeceou para a rede e marcou: 3 a 0 no placar, aos 11 minutos da etapa final. Muito tempo para jogar ainda, dos dois lados.

Logo após tomar o gol, Valverde mudou. Tirou Coutinho, que fazia partida apagada, e colocou Nelson Semedo em campo. O português foi para a lateral direita e Sergi Roberto foi para o meio-campo, tornando o setor mais físico e preparado para lidar com a correria do Liverpool.

O Barcelona tentava se remontar em campo. Aos 20 minutos, Messi arrancou pelo meio, saiu driblando com a sua qualidade mais do que conhecida e foi derrubado por Matip. Falta e cartão amarelo para o defensor do Liverpool.

Inteligência de Alexander-Arnold

Em um escanteio aos 34 minutos, o lateral Trent Alexander-Arnold se preparava para deixar a cobrança para Shaqiri, que chegava ali. Só que ele surpreendeu e cobrou rapidamente para a área, onde estava Origi, que pegou a defea do Barcelona ainda despreparada e chutou de primeira para marcar: 4 a 0 em Anfield, transformando o estádio em uma alucinação coletiva. Os torcedores podiam coçar os olhos, se beliscar. Será que isso é verdade, será que isso está mesmo acontecendo? Está acontecendo. O Liverpool tinha 4 a 0 no placar.

As armas que o Barcelona tentava usar pareciam inúteis. Arthur tinha entrado no lugar de Vidal antes do quarto gol e Valverde ainda colocou Malcom no lugar de Rakitic para tentar um milagre. O problema é que o time não respondeu em campo. Ninguém parecia querer chutar, ou, ao menos, ter coragem para isso. Só Messi parecia autorizado a chutar no gol. Ninguém chutou. O Barcelona não marcou. O Liverpool seguiu melhor até o fim. O Barcelona foi um arremedo de time.

Bom futebol, de novo

Para chegar ao resultado que conseguiu, o Liverpool contou com algumas atuações monumentais. Divock Origi teve uma importância gigantesca abraçando a sua chance de jogar, dois gols e poder de decisão. Wijnaldum, que entrou no segundo tempo, foi brilhante. Marcou os dois gols que deixaram o Barcelona tonto em campo, sem saber o que fazer.

O Liverpool tinha jogado bem no jogo de ida, mas foi derrotado por um placar absurdo, fruto da genialidade de Messi. Só que em Anfield, Messi não conseguiu jogar o bastante. Quem jogou foi o Liverpool. Coletivamente, o time deu um banho no adversário. Teve alternativas o tempo todo, buscou o tempo todo, acreditou quando quase ninguém acreditava. Sem dois dos seus principais jogadores. O time comandado por Klopp mostrou uma intensidade insana para quem tem jogado decisões seguidas na Premier League e na Champions League.

O que aconteceu em Liverpool é algo que ficará marcado para sempre. Uma história fantástica. A maior noite europeia de todos os tempos em Anfield, o que não é pouca coisa. O que vimos acontecer foi mais do que um milagre. Tudo aconteceu pelo Liverpool, que trabalhou muito para isso. Foi a precisão de Fabinho, de Van Dijk, de Origi, de Wijnaldum, de Alexander-Arnold, de Alisson.

Um time que conseguiu ser exatamente isso: um time. E chega à sua segunda decisão de Champions League porque acreditou em todos os momentos, buscou o tempo todo e chegou ao milagre. Milagre? Bom, em Anfield não existe milagre. O que existe são jogos como hoje. É o peso da história. É o peso de uma tradição gigantesca. E quem disse que não se pode sonhar? O Liverpool vai para Madri e buscará o seu sexto título europeu. O que significa a camisa do Liverpool é algo que nem em milhares de palavras dá para descrever. O Liverpool chegará monstruoso para a decisão. E com uma história do tamanho do seu feito.