Parte do futebol brasileiro nasceu em Marselha. O Estádio Vélodrome foi o palco da primeira semifinal de Copa do Mundo do país. Após vencer os épicos ante Polônia e Tchecoslováquia, a Seleção encarou a temível Itália. Sem Leônidas da Silva, a equipe liderada por Domingos da Guia acabou derrotada pela Azzurra por 2 a 1. Um tropeço que não diminuiu o orgulho dos brasileiros com o time, recebido por milhares na chegada ao Rio de Janeiro. Naquele instante, ficava mais do que evidente a grandeza que o futebol tomava. E mais curioso é que, naquele mesmo ano, um nome essencial ao jornalismo esportivo brasileiro tenha surgido em Marselha.

Michel Laurence nasceu em setembro de 1938, menos de três meses depois daquela semifinal. Veio ao Brasil ainda na infância, filho do editor de esportes do jornal Última Hora. E com o pai tomou gosto pelo futebol, assim como pelo ofício. Laurence foi pioneiro e um dos grandes nomes da reportagem esportiva no país. Criou da Revista Placar e também trabalhou na televisão, passando pelas redações de Globo, Bandeirantes, Record, Manchete e Cultura. O francês, muito mais brasileiro do que sua carteira de identidade pudesse sugerir, era um arquivo vivo do nosso esporte.

Aos 76 anos, Laurence faleceu neste sábado, por complicações após uma cirurgia no braço. Deixa eternizada a sua memória e o grande legado ao jornalismo esportivo. A escrita leve que prende o leitor, unida a excelentes trabalhos de apuração – como o que lhe rendeu o Prêmio Esso de 1969, pela clássica reportagem “O jogador é um escravo”, assinada também por José Maria de Aquino. Um verdadeiro mestre.

Abaixo, uma pequena mostra de suas histórias deliciosas, publicada no blog Jogo Quase Perfeito, que mantinha para contar os causos vistos e ouvidos ao longo de sua carreira. Outras crônicas ainda podem ser lidas por lá.

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Acho que já contei no antigo blog, mas eu vi a estréia de Mané Garrincha no Botafogo, em 1953. Eu tinha 14 anos e não me lembro direito por que meu pai me levou ao estádio da rua General Severiano. Só sei que meu pai ainda não tinha sido contratado pelo lendário Samuel Wainer para o jornal Última Hora que ainda ia nascer. Era “apenas” o responsável pela coluna Futebol Internacional, no Jornal dos Sports, de Mário Filho (irmão mais velho de Nelson Rodrigues), que virou nome de estádio.

Entramos pelas arquibancadas e ficamos atrás do gol… em pé. O estadinho lotado, abarrotado, para ver a estréia de um tal de “Gualicho” – nome do cavalo argentino que tinha ganho o Grande Prêmio Brasil de 1952.

Ninguém sabia de verdade o nome daquele ponta direita, só repetiam que tinha sido “descoberto” pelo médio volante Arati. Olhavam em volta para ver se não havia nenhuma senhora próximo, e baixavam o tom de voz quase envergonhados, para dizer que vinha da cidade de… “Pau Grande”. O sorriso maroto acompanhava a afirmativa.

Quando o time do Botafogo entrou em campo Garrincha foi um dos últimos e os torcedores em volta da gente só faltaram invadir o gramado:

– Que brincadeira é essa? O cara é…aleijado! Olha lá, o cara tem as pernas tortas!

Alguns até ameaçaram ir embora dizendo que iam cobrar o dinheiro de volta, mas acabaram ficando.

O poder de Garrincha era mágico!

Quando ele pegou a primeira bola (tenho que esclarecer uma coisa: na minha cabeça o adversário era o São Cristovão, mas alguns historiadores dizem que foi não me lembro contra quem. Na minha cabeça, Garrincha fez 3 dos 4 gols do Botafogo, sendo que um de pênalti, no gol por trás do qual estávamos meu pai e eu, de frente para meus olhos esbugalhados de admiração. Se não foi isso, desculpem, mas só posso escrever sobre aquilo que me lembro) Garrincha deu o primeiro drible de sua fantástica história em direção a linha de fundo, um arranque tão fulminante que o marcador nem viu. Aí, Mané deu meia volta e driblou novamente o zagueiro. Todo mundo ficou surpreso, por que ele voltou?

Aí, Garrincha driblou novamente, do mesmo jeito, com a mesma velocidade.

Foi quando um cara na arquibancada começou a sorrir e o sorriso foi se transformando em gargalhada, de repente a torcida percebeu que ali nascia um gênio da bola, fantástico, inesquecível, e do estadinho de General Severiano repercutiu pelo bairro de Botafogo, uma estrondosa gargalhada, que se alastrou pelo Brasil inteiro e nunca mais se calou.

Eu agora mesmo, só de lembrar, comecei a sorrir e estou as gargalhadas até agora!