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O que fez o Tigres trazer Gignac e transformar o mercado em um FM da vida real

Quando surgiu, o rumor causou estranheza. E a confirmação do negócio só fez parecer que o Football Manager realmente engoliu a realidade. Pretendido por clubes de respeito na Europa (como o Liverpool), sem contrato após ótima temporada com o Olympique de Marseille, André-Pierre Gignac recusou todos eles. Preferiu assinar com o Tigres e defender o clube mexicano no principal momento de sua carreira, às vésperas de ter a chance de disputar a Euro 2016 em seu país. Obviamente, há dinheiro envolvido na jogada. Mas também o peso de uma torcida fanática, de uma semifinal de Libertadores e de um projeto dos Felinos, que engloba a copa sul-americana.

Segundo os relatos iniciais, Gignac vai ganhar bem em Nuevo León, mas nada que os europeus não pudessem pagar. Segundo Tom Marshall, em ótimo texto do ESPN FC, serão cerca de € 4 milhões anuais ao centroavante, que chega de graça, já que não renovara o seu vínculo com os marselheses. E o francês não desembarcou sozinho no México. Pensando na reta final da Libertadores, o Tigres também trouxe o atacante Uche, titular do Villarreal em parte da temporada, e o promissor Jürgen Damm, ponta veloz que deixou o Pachuca apesar do interesse de clubes europeus, em negócio estimado em U$ 7 milhões. Reforçam ainda mais uma base que vinha fazendo bonito na Libertadores, estrelada por Rafael Sóbis e Nahuel Guzmán – além de Arévalo Rios, Guerrón e Esqueda.

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O bonança do Tigres é bastante explicada pelo aporte financeiro da Cemex, gigante do setor de construção civil que é dona do clube e cuja receita em 2014 bateu a casa dos US$ 15 bilhões. Desde que foi comprado pela empresa, em 1996, o time se estabeleceu na primeira divisão. No entanto, os melhores resultados têm acontecido nos últimos cinco anos. A direção do clube parece ter compreendido o momento único. Ao contrário da maioria dos clubes mexicanos, que dão de ombros para a Libertadores, o Tigres foi atrás de jogadores tarimbados para o início da competição.  E aproveita de maneira excelente a pausa para a Copa América, dando peso ao elenco para as semifinais. Além disso, também ganha força para a próxima temporada do Campeonato Mexicano, uma das ligas nacionais mais rentáveis do continente, cujo valor de mercado dos jogadores só perde para o Brasileirão – ainda que tenha gasto 47% a mais que os clubes da Série A (cerca de € 32 milhões) em transferências no último ano.

A própria chegada de Gignac a Nuevo León dimensiona bastante qual é o clima da torcida neste momento. O mero rumor já tinha mobilizado a torcida auriazul, e o francês teve a recepção de uma multidão no aeroporto. Sentiu o calor de uma das massas consideradas das mais apaixonadas do país, que costuma levar 41 mil pessoas por jogo no Estádio Universitário. Na atual campanha da Libertadores, os Felinos levam 40.143 torcedores por jogo, com uma média de ocupação de 98% – números superiores a qualquer brasileiro no torneio. E o centroavante parece mesmo interessado em sentir o peso do torneio sul-americano, dando a valorização que ele merece.

tigres

Além do mais, Gignac parece se encaixar muito bem no time de Tuca Ferretti. O Tigres trabalha muito bem a bola, mas depende dos talentos individuais por resolver. Por vezes, até se acomoda demais em campo, chamando os adversários para cima. Gignac é o típico centroavante para resolver em um lance. E serve como ótima opção para Rafael Sóbis, que tem aparecido como principal responsável pela organização ofensiva. Na classificação sobre o Emelec nas quartas de final da Libertadores, o brasileiro chamou o jogo para si e participou de ambos os tentos na vitória por 2 a 0 em Nuevo Léon.

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E as intenções do Tigres não se limitam apenas à Libertadores. Durante a campanha 2014/15 do Campeonato Mexicano, apenas o América teve um aproveitamento tão bom quanto o dos Felinos, ambos somando 60 pontos na tabela anual da fase de classificação. O clube do norte do país só decepcionou nos playoffs, perdendo a final do Apertura para o próprio América e caindo nas quartas de final do Clausura para o Santos Laguna, que também ficou com a taça. O desempenho no torneio nacional, ao menos, assegurou a presença dos auriazuis na próxima edição da Concachampions. Considerando o histórico dos times do país no torneio, a equipe de Tuca Ferretti já surge como favorita.

Neste momento, porém, as forças estarão concentradas na Libertadores. Particularmente, não concordo tanto com a presença dos mexicanos no torneio sul-americano. Mais pela maneira como costumam ignorar o torneio do que por uma simples questão de geografia. Mas a forma como o Tigres e sua torcida têm tratado o torneio são exemplares para os seus compatriotas. Os Felinos surgem como fortes candidatos, ainda que tenham um desafio e tanto contra o Internacional de Diego Aguirre. De qualquer forma, por mais que a camisa vermelha pese, os colorados sabem que precisarão de cuidados redobrados com Sóbis, Guzmán, Arévalo e a pressão em Nuevo León. Agora também com Gignac, Uche e Damm.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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