Lionel Messi assumiu o posto de capitão do Barcelona nesta temporada, depois da saída de Andrés Iniesta – que, por sua vez, herdou a braçadeira de Xavi, que recebeu de Carles Puyol. Há uma linha sucessória no clube, que tem a ver com o tempo de casa. Não por acaso, o capitão seguinte é Sergio Busquets, depois dele Gerard Piqué. Não se trata de idade, é tempo de casa. E é preciso entender o que significa ser capitão antes de, efetivamente, ser o dono da braçadeira. Messi é o craque do Barcelona há anos, mas foi além disso. Se tornou o líder do time e, além de ter decidido o jogo contra o Liverpool nos 3 a 0 no Camp Nou, no jogo de ida das semifinais da Champions League, ele ainda teve a postura de defender o companheiro, Philippe Coutinho, que foi vaiado quando foi substituído.

Messi é um jogador que, por ser o craque que é, foi alçado ao posto de capitão na Argentina antes de, efetivamente sê-lo. Não por acaso alguns diziam que ele vestia a braçadeira, já em 2010, quando os líderes em campo eram outros, como Javier Mascherano, claramente um jogador de postura de líder. Isso eventualmente acontece com os craques. Pelo seu tamanho e importância, por vezes recebem a braçadeira como uma forma dos técnicos de ganhá-los. É exatamente o que acontece com Neymar na seleção brasileira, por exemplo.

Só que no Barcelona é diferente. Primeiro, porque a braçadeira não é só um pedaço de elástico preso ao braço. É um cargo. Existe uma representatividade. É o jogador que passará a ser o canal de comunicação dos jogadores com a diretoria. É o cara que funciona como a figura pública dos jogadores, que falará por eles. Por isso, precisa saber ouvir também. Um capitão precisa mais do que gritar em campo, porque isso muitos podem fazer e isso não quer dizer que serão ouvidos. Por isso que, em clubes como o Barcelona, ser capitão é algo que depende do seu tempo de casa. É preciso aprender o que significa. Messi entendeu.

Desde o começo da temporada, a sua postura tem sido de um jogador que sabe que, antes de tudo, não pode deixar de falar. Messi nunca foi um jogador que gosta de falar, dar entrevista, não é um jogador extrovertido. Mesmo assim, ele entende a importância das vezes que fala e que precisa eventualmente se posicionar. Na apresentação do elenco na temporada, que acontece no Troféu Joan Gamper, Messi pegou o microfone, braçadeira no braço, e falou a um estádio inteiro. Nunca é fácil fazer isso. Deixou claro que os fracassos sucessivos na Champions League o incomodavam e que esse era o sucesso que eles mais queriam.

“A temporada passada foi muito boa, onde ganhamos Copa e Liga, é verdade que ficamos incomodados com o que aconteceu na Champions, a eliminação e como foi [refere-se à derrota para a Roma, nas quartas de final]. Assim que hoje prometemos que este ano vamos fazer tudo que for possível para que esta Copa tão linda e tão desejada por todos volte outra vez para o Camp Nou”, disse Messi no Troféu Joan Gamper, justamente no Camp Nou, diante da torcida, no dia 15 de agosto de 2018.

O Barcelona desta temporada não é brilhante, longe disso. Isso não significa que não seja uma equipe que tenha qualidades. São muitas, especialmente porque é um time que se defende melhor e que soube se adaptar a outro estilo, que normalmente não se via no Barcelona. A equipe catalã não se sente totalmente desconfortável em contra-atacar, se posicionando mais atrás quando preciso. Ou quando considera que essa é uma boa estratégia.

Foi assim neste jogo contra o Liverpool. Diante de um adversário que imprimiu muita intensidade no segundo tempo, o Barcelona se posicionou, defendeu e esperou. E conseguiu fazer bem isso. Contou com Messi sendo decisivo. Longe de ter uma atuação irrepreensível ou um futebol envolvente, que merecesse o placar dilatado de 3 a 0. Teve uma ideia de jogo e aproveitou as chances de forma precisa.

Bom, quase isso. No final do jogo, perdeu algumas chances de ampliar o placar, no desespero do Liverpool. A última delas em um lance com Ousmane Dembélé e Lionel Messi, que devolveu ao francês. Ele chutou mal e perdeu a oportunidade. “A última de Dembélé foi claríssima. Teriam sido melhores quatro gols do que três, mas o resultado é muito bom. Sabemos que não está definido, Anfield é muito difícil, eles apertam muito. Mas estamos contentes com a partidaça que fizemos”, analisou Messi depois do jogo.

O técnico do Barcelona, Ernesto Valverde, admitiu que o Liverpool foi bem no jogo, por vezes até ditou o ritmo da partida e que os dois times atacaram e criaram oportunidades. “Às vezes você pode dominar o ritmo da partida e outras vezes ele te domina. Nós tentamos dar um tempo, mas eles vieram para cima e não nos interessava”, disse o treinador.

“O certo é que se você olha as chances, eles tiveram chances claras, como o chute na trave, mas nós também. Foi uma partida que eles levaram o jogo para o nosso campo, essa ida e volta, e isso nos custou. Saímos vitoriosos diante de uma equipe fortíssima. É parecido com o ano passado. Também saímos com três gols de vantagem e vimos o que aconteceu”.

“Entramos no jogo deles, com muito ritmo, muito físico. Não estamos acostumados a não termos a bola e nos custou um pouco, mas assim aconteceu e tínhamos que encarar como estava”, disse o Messi. “Não nos fizeram gols e isso é muito importante. No primeiro tempo fomos superiores e eles nos pressionaram no segundo, mas não tiveram muitas chances. Claro que eles queriam fazer um gol, um de visitante ajuda muito. A vantagem é muito boa”.

Um dos grandes momentos do jogo foi a cobrança de falta aos 36 minutos do segundo tempo. Messi chutou com precisão, no ângulo, e marcou um golaço, o terceiro do Barcelona no jogo. “Entrou de forma espetacular. Eu tentei e tive a sorte que entrou ali”, disse ainda o capitão do Barcelona.

A partida de Messi rendeu elogios do treinador. “É uma partida daquelas que todas tem que aparecer e Leo é o capitão, ele que maneja o jogo e o ritmo e normalmente acerta. Nos empurraram para conseguirmos a vitória, mas como eu digo, ainda existe o jogo de volta”, disse Valverde depois do jogo.

Um dos pontos que Messi foi crítico foi em relação às vaias da torcida contra Philippe Coutinho. “Estamos em momentos definidores, temos que estar todos mais unidos do que nunca, nós já dissemos isso no início do ano. Não é o momento de criticar ninguém, devemos apoiar e estar todos juntos na final que nos resta. Vamos fazer tudo juntos. É feio ver um companheiro sair assim. Não entro na questão se esteve bem, mas temos que estarmos todos juntos e unidos”, declarou o capitão, defendendo o brasileiro.

Uma postura de liderança, que é o que se espera do capitão. Messi é um líder do vestiário há muitos anos. Isso já ficou claro muitas vezes antes, mas havia outros líderes. O argentino era um deles. Hoje, há outros líderes, como Gerard Piqué, um símbolo barcelonista e da Catalunha. Messi, porém, é quem veste a braçadeira de capitão por ter mais tempo de casa – embora ambos sejam da mesma idade e da mesma geração, Piqué deixou o clube para defender o Manchester United quando era mais jovem, antes de voltar.

Messi segue como o craque decisivo do Barcelona. É o que se chama de líder técnico. Na temporada, são 48 gols e 22 assistências em 46 jogos. É um número assustador. Só não é assustador para quem assiste aos jogos do Barcelona. Porque isso fica claro para quem vê, as jogadas parecem naturais. Tudo isso coloca Messi como o melhor do ano e é difícil imaginar, por exemplo, que ele não fique com a Bola de Ouro e vença os prêmios individuais.

Para além disso, Messi se tornou o que um portador da braçadeira deve ser. Um líder que conquistou o respeito dos demais. E isso se faz também defendendo os seus jogadores quando é preciso, como é o caso de Coutinho agora. Se Messi foi alçado a capitão da Argentina antes de efetivamente ser um líder, dá para dizer tranquilamente hoje que Messi é sim um líder. E isso só o torna ainda mais impressionante.