Do Mineirão, em Belo Horizonte

Mais uma competição internacional terminou, e mais uma chance de ser campeão com a camisa da Argentina escapou das mãos de Lionel Messi. Não era uma boa chance. Treinado por um técnico inexperiente, o time levado ao Brasil foi provavelmente o pior que circundou o craque do Barcelona em seus quase 15 anos vestido de azul e branco celeste. Mesmo os que deveriam ser seus fiéis escudeiros, como Sergio Agüero e Angel Di María, tiveram atuações constrangedoras.

Mas, além do coletivo que nunca funciona, e dos passes que são desperdiçados, e da pressão de ter que resolver o tempo inteiro, Messi não fez um bom torneio. Passou apagado pela fase de grupos, na qual marcou seu único gol, de pênalti, contra o Paraguai, e também não brilhou diante da Venezuela, nas quartas de final. O craque, porém, sempre pode despertar, e ele sabia que, se não fizesse isso no Mineirão, o jogo contra o Brasil seria o último da Argentina na Copa América. 

Curiosamente, Messi de fato despertou na semifinal. Tentou de tudo: arrancou várias vezes, levou faltas duras, especialmente de Casemiro, deu passes açucarados, cobrou faltas e acertou a trave. Mas não foi o suficiente para evitar a derrota da Argentina por 2 a 0 e o retorno de mais uma missão internacional de mãos abanando. 

É sabido que Messi não ajuda o tempo inteiro na defesa. Sendo sincero, quase nunca. Quando a bola passa pelo seu setor, ele geralmente apenas esboça uma corridinha, um simulacro de pressão, e volta a andar. Isso não é um problema tão grande porque pode ser compensado coletivamente, por mais que essa seja uma palavra estranha à seleção argentina. O problema mesmo é quando ele não expressa intensidade no ataque. 

Esperar para receber a bola no Barcelona para então disparar é compreensível porque lá ela sempre chega, várias vezes por partida. Na Argentina, a diferença é dramática. E nisso ele pecou no primeiro tempo do Mineirão. Mesmo quando a jogada estava acontecendo nas suas proximidades, não se apresentava para receber. E se ele não recebe, não entra no jogo. E sem Messi no jogo, sem chance para a Argentina.

O camisa 10 não ficava exatamente parado. Movimentou-se, devagar. Começou pela direita. Cinco minutos depois, estava na esquerda. Depois, recuou um pouco mais, mas, aos oito minutos de jogo, ainda não havia dado um pique. Seu primeiro protagonismo foi no ofício de capitão, batendo um papo com o árbitro equatoriano Roddy Zambrano após uma falta dura de Tagliafico em Gabriel Jesus, pela direita. 

Havia ameaçado uma arrancada momentos antes, mas nem chegou ao terceiro passo antes de parar na marcação dobrada do Brasil. A primeira chance boa de avançar com a bola dominada em direção à defesa adversária foi aos 13 minutos. Falta de Casemiro. Deu um toque de primeira para deixar Lautaro Martínez em boa situação na sequência. Valeu um escanteio. Quando a Argentina subiu a pressão, deu uma corridinha para ajudar a pressionar Alisson, que afastou o perigo com um passe por cima pela esquerda. 

A esta altura da partida, por volta da metade do primeiro tempo, Messi não era mais ponta direita nem esquerda. Estava recuado, mais como enganche, atrás dos dois atacantes. E por ali, fez duas tabelas seguidas até o corte na entrada da área. Homem das bolas paradas, enviou a primeira que teve para cobrar direto nas mãos de Alisson. A segunda, após nova falta de Casemiro para pará-lo na intermediária, direto na cabeça de Agüero, que acertou o travessão. 

Di Maria, Messi, Aguero, Dybala: Argentina eliminada da Copa América 2019 (Getty Images)

Foi quando Messi acordou. Aos 34 minutos, recebeu na intermediária, passou por dois, deixou o terceiro para trás e avançou. Quando se aproximava da entrada da área, deu mais um zigue-zague para confundir Arthur e aproveitou o escorregão de Thiago Silva para deixar Agüeiro em ótima situação. Marquinhos fez a cobertura e conseguiu bloquear. 

Ele próprio cobrou uma falta baixa pela direita. O rebote voltou, e Messi passou por meio de dois, mas deixou a bola escapar. Impediu o contra-ataque brasileiro com um carrinho e armou o chute venenoso de fora da área. Só que escorregou na hora da finalização. Pouco depois, invadiu a área pela direita e ficou segurando a bola no pé, driblando para lá e para cá até se convencer de que não sofreria o pênalti que tanto desejava e soltar na esquerda. 

O segundo tempo começou de uma maneira muito familiar: nova tentativa de arrancada de Messi, nova falta de Casemiro, que apenas por milagre não recebeu cartão amarelo. O craque argentino fez uma jogada de pivô para preparar a bomba de De Paul, por cima, e, quando teve campo para a arrancada, adiantou demais a bola e foi desarmado. 

A sua melhor oportunidade foi quando a bola sobrou pela esquerda. O chute de canhota surpreendeu: era uma boa situação para a batida cruzada, mas Messi tentou acertar entre a primeira trave e Alisson. Carimbou o pau. No rebote, ainda conseguiu cruzar rasteiro, na boca do gol, mas ninguém completou. Em um segundo rebote, a bola passou perto do craque, que não conseguiu alcançá-la – e, na verdade, mal tentou. 

Novamente muito recuado para iniciar as jogadas, Messi recebeu uma bola no círculo central e tentou abrir espaço driblando. Mas Roberto Firmino é um defensor exemplar. Bateu sua carteira e puxou o contra-ataque, até ser bloqueado por um batalhão de argentinos. Quase acertou o passe que deixaria Di María muito bem colocado pela esquerda, mas colocou mostarda demais na bola. A explicação para o raro erro técnico foi a falta cometida por Daniel Alves. Na entrada da área. De onde Messi acertou várias cobranças fatais durante a temporada. Esta parecia promissora. Buscou o ângulo. Mas Alisson, de maneira incrível, encaixou.

Messi ainda teve outra cobrança de falta, quase do mesmo lugar, e acertou a barreira. Tentou novas arrancadas e tabelas pela entrada da área, sempre bloqueadas, mas esta não era mesmo sua Copa América. A ironia é que o seu último ato na competição foi um pique no campo de ataque para tentar pressionar a saída de bola do Brasil e assumir a posse em uma posição avançada do gramado. Não conseguiu e, àquela altura, já era tarde demais também.