Pela primeira vez desde que a Conmebol começou a chamar seleções de outras confederações para a Copa América, o México abriu a caixa de correio e não encontrou o convite. No entanto, o país estará bem representado no Brasil a partir desta sexta-feira. A Liga MX é o campeonato nacional que mais forneceu jogadores aos participantes: 27, superando a Espanha, com 24, e a Inglaterra, com 22 – teoricamente, também o Catar, com 25, mas 23 deles são da seleção convidada que trouxe apenas locais.

Na letra dura da lei, isso não é uma novidade. A liga mexicana também foi a que mais enviou jogadores para as duas edições anteriores da Copa América, em 2015 e 2016, mas ambas contaram com a participação do país. No Chile, dos 36 representantes da Liga MX, 20 defendiam El Tri. O total de 34 da edição do Centenário foi inflada também pelas participações de Estados Unidos e Panamá, com quatro jogadores que atuam no México ao lado de 14 da seleção mexicana – Jamaica e Costa Rica, outros times da Concacaf na competição, não tiveram nenhum.

Em um universo que conta apenas com as dez seleções sul-americanas, portanto, o número de representantes da Liga MX oscilou de 16 em 2016 para 18 no ano seguinte e, agora, para 27. E eles estão bem divididos. Apenas Brasil e Venezuela não contam com nenhum convocado atuando no México.

Equador: 5 (Renato Ibarra, Ángel Mena, Gabriel Achilier, Ayrton Preciado e Enner Valencia)

Chile: 5 (Nicolás Castillo, Igor Lichnovsky, Ángelo Sagal, Diego Valdés e Eduardo Vargas)

Colômbia: 5 (Mateus Uribe, Roger Martínez, William Tesillo, Stefan Medina e Edwin Cardona)

Peru: 3 (Anderson Santamaría, Yoshimar Yotún, Edison Flores)

Argentina: 3 (Agustín Marchesín, Guido Rodríguez e Guido Pizarro)

Paraguai: 3 (Bruno Valdez, Celso Ortiz e Juan Iturbe)

Bolívia: 2 (Alejandro Chumacero e Luis Haquin)

Uruguai: 1 (Jonathan Rodríguez)

O México sempre foi um destino natural para jogadores sul-americanos. A proximidade cultural e, principalmente, linguística facilita a adaptação. Um pouco como Portugal em relação ao Brasil. Eles acabam sendo, guardadas as devidas proporções, um degrau intermediário entre as ligas sul-americanas e a Europa ou um prêmio de consolação para jogadores que não conseguiram o sonho de atuar nos grandes campeonatos do mundo.

Porque, além de ser relativamente bem organizada, há mais dinheiro na Liga MX do que na maioria dos campeonatos nacionais da América do Sul – e de todas as outras também. Pesquisa da Sports Intelligence de 2018 mostra que a média salarial do México é de U$ 402 mil por ano, abaixo apenas do Brasil entre os países americanos, com U$ 670 mil. A Argentina aparece logo atrás, com US$ 379 mil, seguida pela Major League Soccer, com US$ 352 mil, e, muito depois disso, o Chile, com US$ 74 mil. São os únicos países americanos entre os 68 analisados pelo estudo.

O salto nos últimos anos pode ser explicado por uma mudança na regra da Liga MX para a utilização de estrangeiros, colocada em ação justamente a partir da Copa América do Centenário. Antes, eram permitidos cinco jogadores estrangeiros e ilimitados atletas com cidadania mexicana, mas, como pessoas da Península Ibérica e da América Latina, pela lei do país, podem se naturalizar em apenas dois anos, a preocupação era abrir espaço para o desenvolvimento de jovens mexicanos.

O tiro saiu um pouquinho pela culatra por causa da solução que eles encontraram. O limite de estrangeiros foi abolido, e a Liga MX instaurou a chamada regra 10/8: dos 18 jogadores relacionados para uma partida, oito necessariamente deveriam ser nascidos no México; os outros dez podem ser de qualquer lugar do mundo, independente de suas cidadanias. Um ano depois, a proporção foi modificada para 9/9. O resultado é que um time titular quase inteiro pode ser formado por estrangeiros.

O Campeonato Mexicano é forte, como demonstram as campanhas na Liga dos Campeões da Concacaf e mesmo na Libertadores, quando a disputava com competitividade, mesmo sem enviar seus melhores times. Quem se destaca no país, entre os mais apaixonados por futebol, merece ser observado com atenção pelos treinadores das suas seleções, especialmente aquelas que não têm tanto talento assim à disposição. E, pela lei da probabilidade, há uma chance de 67% de pelo menos uma pessoa retornar ao México com a medalha de campeão da Copa América.