Mesmo sem bandeira ou hino, o sonho kosovar de ter uma seleção aceita começa a se concretizar

O dia 5 de março entrará para a história de Kosovo. Longe da clandestinidade, pela primeira vez a seleção pôde entrar em campo como representante de um país independente. A equipe kosovar ainda não se tornou membro da Fifa. Mesmo assim, depois da carta branca dada pela Federação Sérvia, a entidade internacional deu a inédita sanção para um amistoso do time nacional. Empate por 0 a 0 com o Haiti, que teve valor muito maior do que o mero empate.

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Para evitar problemas com os sérvios, não houve nenhuma referência ao Kosovo independente em Mitrovica, cidade no norte do território que é etnicamente dividida entre albaneses e sérvios. Sem bandeira e sem hino nacional, 17 mil torcedores lotaram o Estádio Olímpico Adem Jashari, após esgotarem os ingressos em poucas horas. Por mais que fosse de uma maneira velada, eles estavam não apenas pelo jogo de futebol. Também se fizeram presentes pela resistência, o desejo de ver se a sua nacionalidade aceita, depois de conviverem com milhares de mortes nos últimos 15 anos.

O Haiti não foi escolhido como primeiro adversário à toa. Há uma grande representatividade no país caribenho. Afinal, os haitianos também foram vítimas de um duro conflito militar recentemente e conviveram com os ‘capacetes azuis’, os soldados da Organização das Nações Unidas que ocuparam o país. Em especial, o Haiti sentiu o poder do futebol no famoso ‘Jogo da Paz’, quando o Brasil disputou amistoso contra a seleção local – em um episódio que, infelizmente, também foi usado por Ricardo Teixeira para reatar a aliança com o governo.

Embora não seja nenhuma potência, a equipe haitiana havia arrancado um honroso empate por 2 a 2 da Itália há pouco menos de um ano. E se empenhou também para segurar Kosovo. O time da casa foi superior e teve as melhores chances, mas não balançou as redes. Prevaleceu o placar zerado, uma igualdade que talvez até seja mais simbólica para duas nações marcadas pelo sangue. E, de qualquer maneira, os kosovares não devem ter pressa para vencer.

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A seleção de Kosovo sequer contou com os melhores jogadores nessa estreia oficial. Valon Behrami, Xherdan Shaqiri, Granit Xhaka, Adnan Januzaj e outras boas opções que possuem nacionalidade kosovar não foram alinhados. Mesmo assim, foram lembrados em diversas faixas nas arquibancadas. Entre os poucos mais conhecidos em campo, o goleiro Samir Ujkani, do Palermo, e o atacante Albert Bunjaku, do Kaiserslautern. Mesmo já tendo defendido outras seleções, eles ganharam uma permissão especial justamente por Kosovo não fazer parte da Fifa – como acontece com as seleções da Catalunha e do País Basco, por exemplo.

Não é assim que Kosovo quer se manter por muito tempo. O sonho de todo um país é ser reconhecido pela Fifa e pela ONU, a ratificação da independência unilateral proclamada há seis anos. Para tanto, os entraves políticos com a Sérvia e com a Rússia, sua principal aliada política, precisam ser resolvidos (algo que explicamos neste texto). Uma situação complexa, mas que pode ter sua solução com a pressão da União Europeia para a integração dos sérvios. E talvez o quebra-cabeças seja maior ainda se a aceitação da Fifa vier, diante do impasse com os jogadores que já serviram oficialmente outras seleções. Um passo de cada vez. Agora, a hora de fincar o pé e mostrar o orgulho kosovar, por mais que não seja de uma maneira explícita.


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