A história começou com um grupo de amigos reunidos debaixo de uma árvore, em uma cidade do interior que não passava de 50 mil habitantes na época. Prosperou graças à perseverança dos jovens, que vendiam até mesmo rifas para sustentar o time. E chegou ao seu ápice 42 anos depois, a poucos quilômetros daquela velha árvore, no estádio que homenageia um antigo líder indígena. A Chapecoense possui uma trajetória que remete à essência do futebol do interior do Brasil. Que luta contra as adversidades, que se agarra às próprias tradições, que se apoia na torcida e que não se amedronta com os adversários. Assim, o Verdão venceu o atual campeão da América por 2 a 1. Por mais que a classificação não tenha vindo, a Chape caiu com todas as honras. E mereceu o respeito de todo o continente pelo capítulo que se completa.

Chapecó se uniu na corrente pelo clube nesta quarta-feira. A cidade se pintou de verde e foi tomada pelo espírito da Copa Sul-Americana. Da possibilidade de eliminar o River Plate. Dentro das diferenças entre os clubes, a torcida da Chapecoense não renegou a sua pequenez. Pelo contrário, aproveitou isso como artifício no clima da partida. A zoeira serviu para diminuir a tensão pelo maior momento da história do clube. Valia levar o “Fantasma de la B” para a Arena Condá e dizer que o Verdão nunca foi rebaixado nos campeonatos nacionais. Valia chamar os Millonarios de “timinho” quando tentavam gastar o tempo. Valia tudo para tirar o peso das costas dos jogadores e para se fazer mais um em campo. Se tantos gigantes do Brasileirão já caíram na Arena Condá desde 2014, o River Plate poderia ser juntar a eles.

Apesar do preço alto dos ingressos para quem não é sócio, os torcedores da Chape encheram as arquibancadas. Entraram em simbiose com o time que não começou tão bem, mas que aos poucos foi tomando conta do jogo. Guto Ferreira surpreendeu ao barrar Túlio de Melo no ataque e apostar em Bruno Rangel como titular. Escolha bendita. Aos 21 minutos de jogo, o centroavante aproveitou o cruzamento de Dener para abrir o placar. O Verdão precisaria de mais contra o River Plate. Mas anotar um gol logo no início da partida deixava bem claro que as chances eram reais.

Claramente superior naquele momento, a Chapecoense ia colocando os Millonarios contra a parede. Buscavam o jogo pelas pontas e botavam Barovero em apuros nas bolas cruzadas. Poderiam ter feito o segundo ainda na primeira etapa, em lance bastante controverso. Ananias ia partindo de cara para o gol, mas foi derrubado por um leve toque no calcanhar dado por Balanta. Fora da área, o lance garantiria falta perigosa e a expulsão do colombiano. Entretanto, o árbitro não viu a irregularidade e mandou o jogo seguir, para a revolta dos catarinenses. A partir de então, o time da casa perdeu um pouco seu ímpeto. E tomou um banho de água congelada nos acréscimos. Carlos Sánchez, o algoz no Monumental e um dos melhores das Américas em 2015, apareceu para desviar de cabeça e empatar a partida.

A Chape seguiu para os vestiários com uma situação parecida com a do River no jogo de ida. Confiava que poderia repetir o que os adversários fizeram em Núñez e anotar mais dois gols, levando a decisão ao menos para os pênaltis. E a possibilidade se tornou mais real logo aos oito minutos, novamente em bola aérea fatal. Após cobrança de falta na lateral, Bruno Rangel aproveitou o desvio de Thiego para completar na pequena área. Em seu 100º jogo no clube, o artilheiro renovava a sua idolatria. Deixava os catarinenses a um gol de tornar palpável a vaga nas semifinais, contra o Sportivo Luqueño.

A Chapecoense desejou a classificação. E muito. Como costuma fazer no Campeonato Brasileiro, encarou o River Plate sem querer saber de sua história e de seus títulos. Colocou o atual campeão da Libertadores contra as cordas, ainda que o goleiro Danilo também tenha feito boas defesas. Mesmo sofrendo com os desfalques de peças importantes, como Apodi e William Barbio, Guto Ferreira tinha boas opções no banco, e não se furtou a mandar a campo Camilo, Túlio de Melo e Thiago Luís. Ganhou potência no ataque e criou ocasiões para fazer o terceiro gol, que prorrogaria o confronto até as penalidades. Não era para ser.

O gol da Chape não saiu por um triz, e várias vezes. Primeiro, Neto mandou para fora um rebote na pequena área, com o gol aberto. Inacreditável. O experiente Barovero, que mantinha o controle dos argentinos, fez grande defesa para evitar o terceiro de Bruno Rangel. E quando não pôde intervir, viu Tiago Luís carimbou o travessão. O River Plate fazia cera e gastava o tempo para manter o resultado favorável. A Chapecoense acreditava até o último segundo, se mandando para o ataque. Houve uma última bola alçada na área, salva pelos Millonarios. A vitória por 2 a 1 veio, mas não a classificação. O suficiente para valer todos os aplausos da torcida na Arena Condá, satisfeita com o brio de seu time.

Nas campanhas dos títulos da Copa Sul-Americana de 2014 e da Libertadores de 2015, o River Plate não perdeu um jogo sequer fora de casa nos mata-matas. Um feito que a Chapecoense conseguiu.  Demonstra bastante a força da equipe, que pode não ser a mais técnica, mas possui muitas virtudes. A objetividade dos catarinenses é notável, em um time que mescla experiência e vitalidade. Os muitos nomes tarimbados no elenco de Guto Ferreira mantém a característica primordial do Verdão, sem se apequenar em campo. E a torcida torna a Arena Condá um trunfo a mais. Os Millonarios não suportaram. Mas, a partir de agora, o objetivo é garantir a permanência na Série A do Brasileirão.

Durante toda a campanha na Sul-Americana, a Chapecoense se tornou um dos clubes mais queridos do país. A história que muita gente queria ver sendo escrita, por tornar tão viva o “lado b” do futebol brasileiro, a persistência de tantos times do interior. O Verdão pode não ter uma trajetória imaculada, questionável especialmente pela maneira como se safou do rebaixamento no Catarinense em 2010 nos tribunais. Isso, porém, não afetou diretamente a arrancada que a equipe protagonizou no Brasileirão. Entre 2012 e 2013, emendou dois acessos. No ano seguinte, resistiu bravamente na Série A. Para, em 2015, deixar a Copa Sul-Americana de maneira heroica. Algo que será sempre lembrado por sua torcida.

Na saída do estádio, com a sensação de dever cumprido apesar da eliminação, a torcida da Chape ouvia o clássico do AC/DC “You shook me all night long”. Sentimento recíproco, da forma como as arquibancadas empurraram o time e como o time agitou as arquibancadas. Mais que isso, a campanha dos catarinenses mexeu com vários cantos do país, mesmo quem, de longe, acompanhava com simpatia o épico escrito em verde. Uma noite que sacudirá as mentes em Chapecó por um longo tempo.