Aliou Cissé já conhecia o tamanho da frustração causada por uma derrota na decisão da Copa Africana de Nações. O ex-zagueiro não apenas era o capitão da seleção de Senegal que sucumbiu na final da CAN 2002. Ele também perdeu o pênalti derradeiro, que garantiu a taça para Camarões. A decepção desta sexta-feira seria diferente, mas com seus próprios requintes de crueldade, entre a única finalização da campeã Argélia e o domínio estéril dos senegaleses. O atual técnico dos Leões de Teranga, porém, justificou sua liderança. A imagem do comandante rodeado pelo grupo após a derrota certamente marca esta noite.

Antigo treinador de Senegal em 2002, Bruno Metsu tinha uma filosofia particular à frente da seleção. Ele domava um elenco de gênios fortes não por sua imposição, mas por sua serenidade. Um de seus méritos para formar um grupo tão coeso era a forma como respeitava as individualidades e ouvia os jogadores. Algo que também precisou exibir após a derrota para Camarões em 2002. Enquanto muitos atletas choravam, pelo feito que havia escapado por entre os dedos, Metsu lembrou-os que quatro meses depois os Leões de Teranga teriam uma Copa do Mundo para se erguer. E o Mundial de 2002 foi, de fato, a passagem daquele time à memória.

Cissé também trabalhou com Metsu no Sedan. Como o próprio veterano admite, foi sob as ordens do treinador que ele exibiu o seu melhor futebol, primeiro se projetando ao Paris Saint-Germain, depois brilhando na seleção. E a maneira de conduzir o elenco se assemelha, ainda que o atual comandante faça questão de ressaltar que possua suas próprias maneiras. “As preleções de Bruno eram de Bruno. Sou o técnico agora, tenho minha própria forma de dirigir o time. Mas meus pensamentos continuam com Bruno. Sei que, de onde ele estiver, continua nos assistindo e sua energia nos empurrará”, apontou durante a Copa de 2018, também em reverência a Metsu, falecido em 2013.

Durante a coletiva de imprensa após a derrota desta sexta, Cissé falou ao lado de Djamel Belmadi, treinador campeão que também é seu amigo de longa data. Ambos cresceram na mesma vizinha nos subúrbios de Paris, para onde o senegalês se mudou aos nove anos, e foram costumeiros adversários durante a virada do século na Ligue 1. Compartilharam o respeito na mesa, algo perceptível nas palavras de uma entrevista sem ranços.

Em suas falas, Cissé manteve a exaltação ao elenco: “Tomamos um gol muito cedo e, no geral, penso que merecíamos o empate, mas não aconteceu. Quero parabenizar meus jogadores. Nós trabalhamos juntos por um longo tempo em busca desta competição e queríamos o título, mas esta não foi nossa melhor noite. Foi a primeira vez em 17 anos que jogamos esta final. O mais importante é que estes rapazes fizeram muita coisa. Queremos que a experiência dos grandes jogos se repita mais vezes. O time está progredindo nestes últimos cinco anos”.

A cena mais impactante, de qualquer forma, é a da reunião em campo. Ela demonstra como Cissé valoriza o lado humano do elenco. E também como assume as responsabilidades através de seu discurso. Se a vitória não veio, o comandante tem sua parcela de culpa, entre a falta de criação do time e as alterações que não surtiram efeito. Mas não é isso que anula o grande trabalho de Senegal nesta CAN. Há um conjunto com qualidade para ascender durante os próximos anos. Há um treinador capaz de guiá-los.

Cissé bateu no peito, falou firme, reuniu todos em oração. Diferentemente de tantas seleções, o elenco é unido. E se não surge uma Copa do Mundo no horizonte durante os próximos meses, os senegaleses podem continuar caminhando além, quem sabe para dar a volta por cima na CAN 2021. A permanência do treinador seria um acerto da federação.