Durante a pandemia de coronavírus e a paralisação das atividades econômicas, os primeiros impactos recaem sobre os trabalhadores informais e casuais. A indústria do futebol emprega centenas deles a cada partida e, obviamente, eles também entram nas discussões sobre a suspensão total das competições. Neste momento, a prioridade é o controle da doença e nenhuma liga minimamente séria dos países mais afetados pelo vírus cogita o retorno às suas atividades neste momento. Assim, a questão fica no ar. E, na Premier League, ao menos seis clubes se prontificam a arcar com as despesas desse pessoal.

Os trabalhadores ocasionais são diversos, especialmente em uma liga bem organizada como a Premier League. Há os funcionários que direcionam o público aos assentos corretos, os stewards que garantem a segurança, os que levam a comida durante o intervalo, os médicos de prontidão, os vendedores. Em sua maioria, esse pessoal é contratado ocasionalmente. E o temor do desemprego é evidente, durante a suspensão do campeonato.

“Meu filho é louco por futebol, tem sete anos, mas não me perguntou quando poderá assistir a um jogo de novo. Ele me perguntou se ainda tenho um emprego. A verdade é que não sei, mas não tive coragem de dizer isso a ele. Para muitos de nós que trabalhamos com futebol, não é sobre perder o jogo, mas os nossos meios de subsistência. Há ansiedade. O que devo dizer ao meu filho?”, declarou um steward, sem revelar o nome, em conversa com o jornal The Independent.

Segundo a Citizens UK, boa parte dos funcionários dos estádios sequer recebe um salário decente. Apesar dos ganhos bilionários da Premier League, cerca de 42% dos trabalhadores ganham abaixo do Real Living Wage – que é um valor voluntário mínimo, estipulado a partir do custo de vida no Reino Unido. Apenas cinco clubes têm o compromisso de pagar £8,21 por hora aos seus funcionários e aos terceirizados – Crystal Palace, Chelsea, Everton, Liverpool e West Ham. Assim, a situação se torna mais limítrofe no momento.

Parte dos clubes já fala em “agir com responsabilidade em um momento complexo” e “se esforçar para cuidar desses funcionários que consideramos importantes à nossa operação”. Mesmo assim, nem todos têm uma decisão tomada até esta semana, antes de ficar expresso que o futebol não recomeçará pelo menos até 30 de abril.

O jornal britânico The Independent entrou em contato com os 20 clubes da Premier League nesta quinta-feira, para saber qual a ideia sobre os empregados neste momento. Aston Villa, Arsenal, Bournemouth, Burnley, Everton, Manchester City e Sheffield United “estão conversando e estudando” para avaliar a situação. Chelsea, Newcastle, Norwich City, Watford e West Ham preferiram não responder. O Leicester City “se disse inapto a avaliar, diante de mudanças tão repentinas”. Já o Southampton garantiu que, até o momento, “as operações não foram afetadas e não pode especificar a situação”.

As respostas afirmativas ficam por conta de seis clubes. O Liverpool pagará o valor normal durante as três próximas partidas em casa, até 30 de abril. Os Reds desembolsarão até £750 mil no total pelos três jogos. O Manchester United também pagará os trabalhadores e garantiu que fará isso até o fim da temporada, com portões fechados ou não. “O gesto de boa vontade reflete o desejo do United em reduzir a incerteza financeira enfrentada por sua força de trabalho e reconhece o papel crucial que desempenham no serviço aos torcedores”.

O Tottenham pagou as agências e prestadores de serviços terceirizados que atuam em seus jogos. Também manterá seus funcionários permanentes até o recomeço do campeonato. O Wolverhampton remunera os trabalhadores, como se ainda estivessem trabalhando. Já sobre aqueles que atuam apenas nos dias de jogo, o clube disse que está postergando o pagamento até a retomada das partidas, mas pretende compensá-los se isso não acontecer.

O Crystal Palace afirma que os funcionários continuarão empregados pelo clube para não serem prejudicados financeiramente e aponta que, se os jogos forem retomados durante a crise, dará licença àqueles em grupos de risco. Por fim, o melhor exemplo vem do Brighton, que pagará até o fim da temporada, independentemente das condições em que ela for concluída. “É uma pequena coisa que podemos fazer. A vasta maioria das pessoas que empregamos é da cidade e esperamos dar alguma segurança”.

Vale ressaltar ainda outra atitude dos clubes: com a paralisação da Premier League, também foi suspenso o programa que arrecada alimentos na entrada dos estádios. No entanto, parte das agremiações já começou a agir para não interromper o abastecimento das instituições de caridade beneficiadas. Os jogadores do Liverpool se prontificaram a arcar com os custos, assim como fez o Everton. Nesta quinta-feira, a organização da iniciativa enviou uma carta aos demais times pedindo que sigam os exemplos.