Uma das primeiras coisas que Alex Ferguson fez ao assumir o Manchester United, em 1986, foi convocar o chefe de desenvolvimento das categorias de base, Eric Harrison, para uma reunião. Harrison ficou um pouco nervoso. Estava há cinco anos moldando jogadores para o time principal dos Red Devils, nomes como Mark Hughes e Norman Whiteside, mas não conhecia o novo chefe. Ferguson expressou sua insatisfação com o número de jovens promovidos das equipes inferiores. Harrison, então, propôs um acordo: “Me arranje jogadores de mais qualidade, e eu colocarei mais jovens no time principal”.

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Seis anos depois, os garotos do Manchester United entraram em campo em Old Trafford para enfrentar o Crystal Palace, no jogo de volta da final da Copa da Inglaterra das categorias de base, a FA Youth Cup. Haviam vencido a ida, no Selhurst Park, por 3 a 1. Emendaram outra boa vitória, por 3 a 2, e levantaram o troféu. Aquele time alinhava Gary Neville, David Beckham, Nicky Butt e Ryan Giggs. No ano seguinte, voltaria à decisão, com Phil Neville e Paul Scholes. Harrison havia cumprido sua promessa, ajudando a formar um grupo de pratas da casa que ficaria conhecido como Classe de 1992 e que seria a espinha dorsal das glórias de Alex Ferguson.

Harrison morreu nesta quinta-feira, aos 81 anos, deixando como legado uma influência significativa para o crescimento do Manchester United, homenageado por seus pupilos, pelo seu antigo chefe e pelo clube. Como também formou jogadores que defenderam a seleção inglesa, recebeu a Ordem do Império Britânico, ano passado, pelos seus serviços ao futebol.

Jogou bola no meio-campo entre os anos cinquenta e sessenta. No Hartlepool, foi treinado por uma lenda do futebol inglês que o daria algumas inspirações para a futura carreira como mentor de garotos: Brian Clough. “Nas conversas com o time na manhã de segunda-feira, você ficava literalmente tremendo se havia feito algo errado, ou se não tivesse jogado bem, porque ele o massacraria. Mas, se tivesse jogado bem, ele fazia com que você se sentisse com dois metros de altura. Então, pensei em tirar o lado positivo disso e tentar fazer meus jogadores se sentirem com dois metros de altura a maior parte do tempo. Com jovens, eu sempre digo, 90% é colocar o braço no ombro e 10% chutá-los na bunda”, afirmou, ao Telegraph, em 2001.

“Se eu tive alguma influência – e espero que eu tenha tido – foi mental. Eu costumava sentar com jovens jogadores e conversar pessoalmente com eles. Levou horas e horas, mas provavelmente o maior impacto que eu tive foi lhes dizer individualmente o quanto eles eram bons. Se eu pensava que eles jogariam no time principal, eu os diria isso. Eu tinha que estar certo porque era destruidor para as crianças se eu estivesse errado. Você não precisa ser muito esperto para saber que jogadores como David Beckham iriam para o time titular, mas era um fator muito, muito motivador para eles e acho que esse papel não pode ser subestimado”, completou.

As conversas continuavam mesmo quando os jogadores estavam estabelecidos no time principal. Phil Neville lembra que recebeu um bilhete de Harrison, depois de uma vitória contra o Arsenal, por 3 a 1, convocando-o para um bate-papo. “Quando seu antigo diretor quer conversar com você, você ainda pensa: ‘O que eu fiz de errado?’. Na manhã de segunda-feira, ele me ligou e começou a falar que eu havia dado as costas a Thierry Henry no mano a mano. Isso era algo que ele costumava trabalhar comigo todos os dias entre os meus 16 e 18 anos: não dar as costas, como defensor, e sempre manter os olhos na bola. E ele notou, durante o jogo, que eu havia dado as costas para Henry e ele conseguiu finalizar. Mesmo quando eu estava com 31 anos, ele não havia desistido de mim e sempre estava lá para mim”, contou Neville. “Ele foi provavelmente nosso segundo pai. Foi ele quem nos pegou aos 14 anos e nos entregou ao time principal, prontos”.

Beckham e Gary Neville publicaram a mesma mensagem em suas contas no Instagram, assinada também por “Phil, Ryan, Nicky e Paul”: “Perdemos nosso mentor, nosso treinador, o homem que nos fez ser quem somos. Ele nos ensinou a jogar, a nunca desistir, a saber o quão importante era vencer suas batalhas individuais e o que precisávamos fazer para jogar pelo Manchester United. Ele sempre estava nos vendo e sempre estava conosco quando jogávamos. Mais importante, ele nos fez entender como trabalhar duro e respeitar os outros, não apenas em campo. Nunca esqueceremos as lições de vida que ele nos deu”.

Beckham foi um pouco além e lembrou uma das broncas preferidas de Harrison. “Eu ainda o consigo ouvir dizendo CHEGA COM OS PASSES DE HOLLYWOOD. Eu ainda consigo vê-lo, enquanto jogávamos no campo de treinamento de Cliff, observando-nos, com um sorriso orgulhoso ou fazendo barulho batendo o punho na janela, sabendo que ele provavelmente viria me aconselhar, da maneira mais educada possível, a parar com aqueles passes”, escreveu.

 

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We’ve lost our mentor, our coach and the man who made us. He taught us how to play, how to never give up, how important it was to win your individual battles and what we needed to do to play for Manchester United Football Club. He was always watching and always with us everytime we played, I can still hear him telling me NO MORE HOLLYWOOD PASSES. I can still see him as we played on The Cliff training ground looking down on us either with a proud smile or a loud bang of his fist on the window knowing any minute he would be on his way down to probably advise me in the most polite way to stop playing those passes. More importantly he made us understand how to work hard and respect each other and not just on the pitch. We won’t forget the life lessons he gave us. Eric we love you and owe you everything. ❤ Gary, Phil, Ryan, Paul, Nicky and David.

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Como Phil Neville, em sua carta de homenagem no site do Manchester United, Ferguson lembrou que Harrison não influenciou apenas os jogadores da Classe de 1992. “Quando eu cheguei como treinador, tive a sorte de ter Eric na minha comissão técnica como chefe do desenvolvimento dos jovens, então eu pude ver o trabalho que ele fez, não apenas com a Classe de 1992, mas com todos os jovens. Ele construiu caráter e determinação e os preparou para o futuro. Era um professor, deu aos jogadores um caminho, uma escolha e fez isso apenas com seu trabalho duro e sacrifício. Ele passou essa educação para os jovens, o que o torna um dos grandes treinadores de todos os tempos. Como pessoa, tinha um senso de humor perverso e era muito objetivo e eu admirava isso nele”, contou.

Em 1998, Harrison deixou de ser treinador do time jovem e passou a uma função de coordenador das categorias de base, na supervisão das equipes de 16 a 18 anos. Também foi assistente técnico de Mark Hughes na seleção galesa, hoje em dia treinada por outro de seus pupilos. “Conhecia Eric desde que tinha 13 anos e ele foi uma grande parte da minha carreira. Um grande homem, um técnico duro, ele nos passou os princípios do jogo que carregamos a vida inteira. Ele adorava viajar com Gales e sem dúvida foi uma das maiores influências da minha carreira”, disse Ryan Giggs.