Considerado por muitos como o maior treinador argentino de todos os tempos, César Luis Menotti permanece na ativa. Campeão do mundo em 1978 à frente da Albiceleste, o veterano trabalha como diretor de seleções da AFA, mesmo aos 81 anos. E, nesta semana, El Flaco assinou uma interessante reflexão sobre o momento do futebol. Em sua coluna no jornal espanhol Sport, Menotti falou sobre quais as prioridades do esporte e como lidar com estádios que perderão sua essência, sem torcida.

“O futebol é como a própria vida. E, hoje, a bola saiu de campo e não sabemos quando vão nos devolver. Estamos nas mãos dos cientistas e dos chefes de estado. A pandemia não nos permite gerenciar prazos. Entendo o esforço dos dirigentes por buscar soluções para sustentar os clubes nos quais não trabalham apenas jogadores. Mas é muito difícil, neste contexto, falar de prazos e de quando e como voltarão as competições”, aponta o veterano. “Falam que os dirigentes analisam que as competições terminem este ano sem público, e isso me causa uma grande tristeza. Sempre recordei aos meus jogadores nos vestiários que jogamos para as pessoas. Que se queremos jogar para nós mesmos, devemos ir para um campinho”.

Como jogador, Menotti passou por Rosario Central, Racing e Boca Juniors durante a década de 1960, além de ter encerrado a carreira no Brasil, por Santos e Juventus. Sua representatividade como treinador é maior, campeão nacional com o Huracán, antes de assumir a seleção e dirigi-la por duas Copas do Mundo. Também trabalhou em equipes como Boca, River e Independiente, além de ter rodado o exterior à frente de Barcelona, Atlético de Madrid, Peñarol, Sampdoria e México, entre outros. Fala com a experiência de quem já sentiu os maiores estádios.

“É difícil planejar sobre essa realidade em que vivemos. E posso entender as necessidades dos dirigentes de enfrentar economicamente da melhor maneira esta situação, e que suas decisões estejam mais baseadas nas recomendações médicas que em outros aspectos do negócio. Mas o que querem que eu os diga: o futebol sem público, para mim, é outro esporte. Não poderia ver uma partida assim, me faria mal. Nasci torcedor antes de ser futebolista e ver um estádio vazio me faz mal”, pontuou, antes de fazer uma comparação.

“Do ponto de vista do jogador ou do treinador, sair a campo sem público é como se Frank Sinatra tivesse que subir ao palco com a plateia vazia. Uma tristeza absoluta também para os protagonistas, não só para o público. A mim, particularmente, não me interessa o futebol sem público. Mas digo isso da minha casa, sem a responsabilidade que os dirigentes têm de gerir os clubes”, complementou.

Para Menotti, o futebol pode aproveitar o momento para tornar a organização de suas competições mais racional. Todavia, também mostra consciência de que o poder ainda impera como ponto principal às decisões e que a falta de respostas mais incisivas para o vírus congela os prazos.

“Como homem do futebol, tenho a esperança de que esta situação que vivemos nos leve a repensar os calendários e uma organização de futebol mais humana, mais justa e menos influenciada pelas decisões dos empresários. Mas é difícil discutir propostas sem prazos. O poder não sugere, ele determina. E, neste momento, até Gianni Infantino deve estar mais preocupado com as determinações dos cientistas e dos ministérios do que do futebol”, apontou.

El Flaco, em particular, não se comove em ver partidas antigas e ressalta como a falta de surpresa o incomoda neste tipo de videotape: “Em meu caso, estou sempre na expectativa da tomada de decisões que transmitem os ministérios da saúde e desejo notícias esperançosas. Porque, se conseguirmos organizar melhor a tristeza e superarmos este vírus, será mais fácil organizar a alegria e as atividades como o futebol. Nestes dias, sinto uma tristeza profunda, tento ver partidas velhas e finalmente descubro que não me geram as expectativas de uma partida ao vivo com os estádios cheios”.

Por fim, em sua conclusão, Menotti deixa uma mensagem de esperança. O argentino reafirma a importância da solidariedade entre as pessoas, em que o futebol fica em segundo plano, mas que se torna uma motivação a mais para que a alegria e a normalidade sejam retomadas.

“Hoje, as cifras que mais nos preocupam não são a quantidade de público no estádio ou as cifras de audiência, mas a de enfermos, recuperados e mortos pelo coronavírus. Mesmo para nós que vivemos do futebol, hoje nossas incertezas não passam pelo futebol. O que mais queremos é que essa pandemia termine e que a bola volte para o campo de jogo. Que volte a alegria aos estádios”, finaliza.