Enquanto o futebol brasileiro não pega no tranco, a Copa São Paulo de Juniores tem alcançado uma ótima repercussão. Na esteira dela, esta coluna resolveu levar o assunto para os campos italianos, afinal o litoral toscano receberá, a partir de 6 de fevereiro, a 64ª edição do Copa Viareggio, talvez o maior torneio sub-20 de base do mundo.

Vale refletir sobre o que a base tem representado para os times da elite do futebol italiano. O próprio torneio de Viareggio pode ser utilizado nessa tarefa, basta procurar aqueles eleitos melhores jovens nos últimos anos. Dell'Agnello (2011, Inter) nem estreou na Serie A e, hoje, é reserva do Livorno, na segundona; Immobile (2010, Juventus) não engrenou em casa, fracassou no Siena e só agora estourou no Pescara, sensação da Serie B; Marilungo (2009, Sampdoria), agora, é reserva incontestável da Atalanta.

Apenas três exemplos, mas poderíamos listar dezenas de outros. São raras as chances decentes que os jovens italianos recebem, então é comum encontrar por aí alguma revelação tardia. Que tal Antonini (lateral, Milan, 29 anos), Ferronetti (zagueiro, Udinese, 27) ou Greco (meia, Roma, 25)? Caro leitor, você se arriscaria a apostar quantos atletas sub-20 atuaram no primeiro turno do Campeonato Italiano? Se quiser, pense um pouco antes seguir.

Trinta e quatro jogadores sub-20 entraram em campo até agora. Pode até parecer muito, mas apenas 15 deles foram revelados no próprio time e seis equipes nem chegaram a escalar qualquer jovem – inclua Juventus, Lazio e Napoli nesta lista. Mais números? Desses 34, apenas 28 jogaram mais do que meia hora nesta temporada. Desses 28, oito atletas fizeram 10 ou mais jogos pelos seus times. E, desses oito, sobram só três que são titulares em seus clubes: os atacantes Lamela (Roma), Destro (Siena) e Muriel (Lecce).

Não faltam exemplos de países que aproveitam melhor seus jovens. Na Espanha, agora referência obrigatória em categorias de base, todos os times da liga já usaram atletas sub-20, vários destes como titulares frequentes. O barcelonista Thiago Alcântara é a lembrança óbvia, mas as equipes pequenas também dão espaço a boas promessas. Só no País Basco, há Muniain e Aurtenetxe, no Athletic Bilbao, e Griezmann e Martínez, na Real Sociedad. Pois bem, voltemos à Itália.

Se você fosse treinador em uma liga que chegou a 11 demissões após 19 rodadas, arriscaria o pescoço colocando em campo atletas que mal saíram das fraldas? Mangia e Ballardini, não. O primeiro, no Palermo, prefriu improvisar Migliaccio como zagueiro, em vez de subir Prestia, sempre convocado nas seleções de base. Ballardini, no Cagliari, tem improvisado Thiago Ribeiro como armador, em vez de confiar no promissor Ceppelini. A pressão da torcida, da direção e da imprensa por resultados é grande e não permite muita margem de manobra.

Os cargos em constante risco são apenas uma explicação para a dificuldade que os clubes italianos possuem em lançar jogadores entre os profissionais, se considerarmos que, no papel, a Itália possui população suficiente para produzir o mesmo número de bons atletas que Alemanha ou Espanha, que atravessam ótimas renovações. Os métodos antiquados em algumas equipes de base também jogam contra os jovens.

É normal que os atletas façam uma infindável via crúcis pelas divisões inferiores antes de receberem uma oportunidade na Serie A. Boniperti é um bom exemplo. Neto do maior ídolo da história da Juventus, não teve chances na segundona, pelo Ascoli, e esta semana foi negociado com o Carpi, da terceira divisão. E ainda há casos esdrúxulos, como o de Gabbiadini, autor de nove gols em 12 jogos pela Itália sub-21, objeto de desejo de Manchester United, Milan e Juventus… Mas que é reserva na Atalanta. Ambos têm 20 anos.

A falta de renovação atrapalha a seleção principal. Para encontrar um jovem zagueiro, Prandelli teve de buscar Ogbonna, que joga pelo Torino, na Serie B. Em março do ano passado, em uma tentativa meio desesperada de contornar os problemas, o treinador patrocinou a ideia de colocar a Itália sub-21 para disputar a segundona local e, assim, dar rodagem aos jogadores – algo que times como o Barcelona e o Bayern de Munique fazem, com suas equipes B.

É claro que a ideia já nasceu morta. Deste então, nenhuma ação que incentive os clubes a aproveitarem a própria categoria de base foi lançada. Por que não abrir mais uma vaga de extracomunitário a uma equipe que usou determinado número de pratas-da-casa no campeonato anterior, criar um mecanismo de auxílio financeiro a quem revela ou até obrigar que os clubes convoquem um mínimo de jovens por partida?

Pallonetto

 

– Para ver a lista de todos os sub-20 utilizados na Serie A até agora, clique aqui.

– A semana definirá os vencedores das quartas de final da Coppa Italia, o torneio de elite mais bagunçado da Europa. Três jogaços: Juventus x Roma, Milan x Lazio e Napoli x Inter. E tem também um Chievo x Siena. Quem vencer, passa para as semifinais.

– Juventus x Roma é o duelo dos maiores vencedores da história da Coppa: são nove títulos para cada lado. O duelo não poderia ser mais equilibrado. Contando apenas jogos pela competição, são seis vitórias para cada lado e dois empates.

– Falando em Juve, a Velha Senhora  terminou o primeiro turno como campeã de inverno. Justo. É o único time invicto e, apesar dos tropeços bobos, venceu quando importava: em casa, 2 x 0 no Milan; fora, 2 x 1 na Inter e 1 x 0 na Lazio.

– Seleção Trivela da 19ª rodada: Pegolo (Siena); Lichtsteiner (Juventus), Juan (Roma), Samuel (Inter), Armero (Udinese); Ambrosini (Milan), Nainggolan (Cagliari), Pirlo (Juventus); Miccoli (Palermo), Totti (Roma) e Ibrahimovic (Milan).

– Seleção Trivela do primeiro turno: Frey (Genoa); Lichtsteiner (Juventus), Barzagli (Juventus), Thiago Silva (Milan), Armero (Udinese); Pirlo (Juventus), De Rossi (Roma), Marchisio (Juventus); Ibrahimovic (Milan), Klose (Lazio) e Di Natale (Udinese)