Auschwitz permanecerá para sempre como um símbolo doloroso da atrocidade humana. No campo de concentração em território polonês, ao menos 1,1 milhão de pessoas foram exterminadas pelos nazistas. Os judeus eram a maioria das vítimas, dizimados em meio à “solução final” executada por Adolf Hitler nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial. Também pereceram no local outros grupos perseguidos pelo nazismo, a exemplo de ciganos e poloneses, bem como prisioneiros de guerra. E a maioria das mortes sequer foi registrada, sobretudo nas câmaras de gás, que elevaram os assassinatos a uma escala industrial.

Em 27 de janeiro de 1945, o pesadelo em Auschwitz teve um fim. O exército soviético invadiu o local e libertou pouco menos de 10 mil sobreviventes, já que a maior parte dos prisioneiros ainda vivos havia sido levada a marchas mortíferas a outros campos de concentração. O marco segue presente: desde 2005, no mesmo 27 de janeiro, foi instituído o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto. A data serve para preservar a memória de 17 milhões de pessoas que tiveram suas vidas ceifadas pelo genocídio nazista, incluindo seis milhões de judeus.

Nesta semana em que a libertação de Auschwitz completa 75 anos, preparamos um especial para relembrar as vítimas do Holocausto. Entre os mortos no campo de concentração, também estavam futebolistas notáveis em diferentes países. Nas linhas abaixo, contamos as histórias paralelas de cinco deles, que ajudam a representar também o passado de tantas outras pessoas. São eles:

Julius Hirsch, judeu, bicampeão alemão e presente nos Jogos Olímpicos de 1912;
Eddy Hamel, judeu, um dos maiores ídolos do Ajax na primeira metade do século;
Antoni Lyko, polonês, convocado à Copa de 1938 e destaque do Wisla Cracóvia;
Max Scheuer, judeu, capitão do Hakoah, um dos melhores times dos anos 1920;
Árpád Weisz, judeu, meia da seleção húngara e técnico tricampeão italiano.

Todos os jogadores retratados foram executados em Auschwitz e a maioria deles também perdeu seus familiares no campo de concentração. A escolha dos cinco dependeu da quantidade de informações disponíveis. E a escassez de fontes enfatiza quantas memórias se perderam em meio ao Holocausto.

Os textos abaixo ajudam a reconstruir também os contextos esportivos e políticos em diferentes regiões da Europa. Além do mais, há outras personalidades do futebol apresentadas de forma secundária, que refletem diversas consequências da Segunda Guerra Mundial.

E vale ressaltar: segundo historiadores e sobreviventes do Holocausto, antes de 1944, nem mesmo todos os prisioneiros sabiam o que acontecia em Auschwitz. Apenas com o tempo é que as milhares de mortes se tornaram de conhecimento público. É bem possível que a maioria dos jogadores retratados sequer imaginasse seu destino final no trem rumo à Polônia.

Julius Hirsch, Alemanha (1892-1943)

Nascido na região de Baden-Württemberg, Julius Hirsch era filho de um comerciante judeu. Ainda aos dez anos, passou a integrar o Karlsruher FV, clube que também possuía origens judaicas – fundado por Walther Bensemann. Filho de um banqueiro, Bensemann participou das origens do Eintracht Frankfurt e da DFB (a federação alemã), além de lançar a revista Kicker em 1920. Entusiasta do futebol, incentivou as primeiras partidas da seleção. Faleceu em 1934, aos 61 anos, meses depois de se mudar à Suíça por causa da ascensão do nazismo.

O Karlsruher FV dominava os campeonatos regionais durante a década de 1900. Quando chegou à equipe principal, Hirsch passou a fazer parte de uma potência. O atacante acrescentaria seu talento e também ajudaria o time a se tornar mais dominante. Sua estreia aconteceu em 1909, aos 17 anos, quando o KFV era treinado pelo inglês William Townley – antigo ídolo do Blackburn e um dos grandes responsáveis pela evolução tática do futebol alemão naqueles primórdios. O treinador não contava com seu ponta esquerda titular e o garoto, dono de uma canhota potente, foi puxado ao time de cima. Estreou com gol e ficou.

Hirsch liderou o Karlsruher FV ao seu primeiro (e único) título alemão, em 1910, igualando o feito do rival Phönix Karlsruhe – o atual Karlsruher SC, que depois disputaria a Bundesliga. Formando uma famosa linha de frente com Gottfried Fuchs e Fritz Förderer, o ponta estava presente na decisão, em que os rubro-negros derrotaram o Holstein Kiel. Já em 1911, outro marco em sua carreira: Hirsch recebeu a convocação à seleção alemã. Tornou-se o segundo judeu a defender a Mannschaft, seguindo os passos do amigo Gottfried Fuchs, que estreara meses antes. Ainda hoje, são os únicos judeus a atuarem pela equipe nacional.

O ápice de Hirsch com a seleção aconteceu em 1912. Ele anotou quatro gols em um eletrizante empate por 5 a 5 contra os Países Baixos, em amistoso. Além disso, também participou da equipe que disputou os Jogos Olímpicos de Estocolmo naquele mesmo ano. Foram sete partidas e quatro gols pelo Nationalelf, em aparições registradas de 1911 a 1913. Na mesma época, o atacante havia se alistado ao serviço militar e foi transferido à Baviera. Por isso mesmo, trocou o Karlsruher FV pelo Greuther Fürth, onde se reencontrou com o técnico William Townley e venceu mais um Campeonato Alemão, em 1914.

Hirsch interrompeu a carreira por conta dos compromissos militares e, aos 22 anos, lutou pela Alemanha na Primeira Guerra Mundial. O atacante se integrou a um regimento de infantaria bávaro e recebeu a Cruz de Ferro, condecoração oferecida pelas forças armadas germânicas. Ao final do conflito, Hirsch retomou sua trajetória no Fürth. Retornaria ao Karlsruher FV em 1919, antes de encerrar a carreira nos gramados durante a primeira metade da década de 1920. Depois, passaria a treinar as categorias de base do KFV.

Em tempos nos quais o futebol na Alemanha ainda era amador, Hirsch conciliava o início da carreira com o emprego como fabricante de produtos de couro. Quando retornou a Karlsruhe, assumiu o negócio de sua família, uma indústria têxtil. A fábrica se voltava à produção de bandeiras e uniformes oficiais, mas o jogador a transformou em uma marca de artigos esportivos, tendo Gottfried Fuchs como um de seus sócios. As bolas de Hirsch se tornariam famosas, mas o negócio entraria em crise e faliria no início da década de 1930 – com o antissemitismo na sociedade alemã já evidente.

Em 1933, durante a consolidação de Hitler, o Karlsruher FV expulsou os membros judeus de seus quadros por ordem do partido nazista – assim como seriam obrigados a fazer todos os outros clubes alemães. Antes de receber a notícia, Hirsch preferiu apresentar sua própria carta de renúncia. “Gostaria de dizer que, nesta brutal nação alemã, tão odiada em todo o mundo, há pessoas patrióticas decentes, incluindo alemães judeus, que demonstraram sua boa fé através de suas ações e do derramamento de sangue”, escreveu o ex-atacante, conforme entrevista de seu biógrafo ao Telegraph. Ele faria parte de um clube de futebol judeu em Karlsruhe, enquanto sofria com a perseguição e a falta de emprego por suas origens. Até buscou um cargo como técnico na Suíça, sem sucesso.

Hirsch entrou em depressão e chegou a tentar suicídio em 1938. Passou um tempo em uma clínica psiquiátrica na França e também contou com a ajuda de sua esposa, Ellen. Ao se recuperar, o treinador voltaria a Karlsruhe, onde seria forçado a trabalhar como auxiliar em um depósito de entulho no departamento de construção civil da cidade. Já em fevereiro de 1943, aos 50 anos, Hirsch foi convocado pela Gestapo – a polícia secreta nazista. Seria deportado para Auschwitz, onde teria uma “atribuição de trabalho”. Chegou ao campo de concentração ao lado de 1,5 mil pessoas, das quais apenas 150 foram registradas. Seu último sinal de vida veio em um cartão postal, no qual informava ter chegado bem à região da Silésia. Não se sabe a data exata de sua morte.

Meses antes de sua última viagem, Hirsch se separou da esposa. O divórcio de fachada tentava poupar os dois filhos dos campos de concentração, dadas as origens cristãs de Ellen. Ainda assim, em fevereiro de 1945, Heinold (22 anos) e Esther (17) foram levados a Theresienstadt, um campo de concentração na Tchecoslováquia. Sobreviveram, libertados pelo Exército Vermelho em 7 de maio de 1945. Já a morte de Hirsch seria reconhecida pelo estado apenas em 1950. As autoridades alemãs determinariam 8 de maio de 1945, dia em que os nazistas se renderam, como data de sua morte. A partir de 2005, a federação alemã instituiu o “Prêmio Julius Hirsch”, condecoração oferecida àqueles que incentivam a paz através do futebol.

Já o antigo companheiro Gottfried Fuchs sobreviveu. Ele conseguiu fugir à França em 1937, antes de se refugiar no Canadá a partir de 1940, onde permaneceu reconhecido por seu passado no futebol. Fuchs era ídolo de Sepp Herberger, treinador da seleção alemã campeã do mundo em 1954. Tempos depois, os dois passaram a trocar cartas. O técnico tentou realizar uma homenagem ao veterano durante a inauguração do Estádio Olímpico de Munique, em 1972, quando também se comemoravam 60 anos dos 10 gols anotados por Fuchs no Alemanha 16×0 Rússia durante as Olimpíadas de 1912. A federação alemã vetou o tributo por “contenção de gastos” e para “evitar um precedente”, já que nunca mais judeus defenderam a Mannschaft. Fuchs faleceu ainda em 1972, em Montreal.

Eddy Hamel, Países Baixos (1902-1943)

Nascido em Nova York, Edward Hamel era filho de imigrantes judeus que haviam se mudado dos Países Baixos para os Estados Unidos. O retorno a Amsterdã aconteceu ainda bebê e logo o garoto se envolveu com o futebol. Seus primórdios no esporte aconteceram através do Amsterdamsche FC, ao qual se juntou em 1917. Três anos depois, o jovem debutaria na equipe principal do AFC, que disputava uma das regionalizações do Campeonato Holandês.

O campo de treinamentos do Amsterdamsche era vizinho ao Ajax. Em uma das atividades, Hamel acertou a janela dos vestiários dos Godenzonen. Quando foi buscar a bola, acabou pego pelo zelador do clube, que jogou o “invasor” em um riacho próximo. Pouco depois, o garoto pularia a cerca em definitivo: em 1922, aos 20 anos de idade, o ponta reforçaria os Ajacieden. Tornava-se o primeiro jogador de origem judaica em um clube fortemente ligado a essa comunidade em Amsterdã. O antigo estádio dos alvirrubros ficava na região onde boa parte dos judeus da cidade morava, o que promoveu a aproximação.

Hamel defendeu o Ajax de 1922 a 1930. O ponta direita disputou 125 partidas e anotou oito gols. Chegou a ser cogitado à seleção holandesa, mas não foi convocado. Dono de muita qualidade técnica e de uma ótima reputação como esportista leal, o americano era bastante popular e teve até mesmo um fã clube. Os torcedores costumavam mudar o lado nas arquibancadas durante o intervalo, só para acompanhá-lo mais de perto. Apreciavam um jogador de muita velocidade, habilidade nos dribles e precisão nos cruzamentos. “Ele era um jogador maravilhoso. Um ícone. E o que eu mais gostava nele: sempre foi um cavalheiro. Nunca chutou os oponentes ou coisas assim. Ele era meu exemplo. Queria ser como Eddy Hamel”, contaria Gé van Dijk, um dos grandes ídolos do Ajax nos anos 1940 e 1950.

Curiosamente, Hamel não conquistou o Campeonato Holandês pelo Ajax. Apesar de quatro títulos regionais, o clube não faturou a taça nacional. Justamente uma temporada depois de sua aposentadoria, forçada por uma lesão no joelho, a equipe encerrou um jejum de 12 anos sem o troféu da liga. Em compensação, seu reconhecimento não dependeria da honraria. Em 1944, Wim Andriessen montou um “time dos sonhos” de atletas que passaram pelo Ajax. O icônico meio-campista, que vestiu as cores dos Ajacieden por 15 anos e também brilhou na seleção, garantiria um lugar ao americano na ponta direita.

Após encerrar a carreira nos gramados, que já conciliava com o trabalho no comércio, Hamel permaneceu ligado ao Ajax. O ponta seguiu disputando amistosos com os veteranos do clube. Além disso, passou a treinar diferentes equipes de futebol a partir dos anos 1930. Chegou a treinar três times simultaneamente e teve sucesso nas ligas regionais. Quando os nazistas invadiram Amsterdã, em 1940, ele estava à frente do HEDW, time amador que possui origens judaicas. O ex-atacante morava em uma região da cidade a poucos quarteirões da casa de Anne Frank.

Hamel acabou detido em outubro de 1942, por não portar sua estrela amarela de identificação como judeu. Sem documentos que provassem sua cidadania americana, ele seria levado ao lado da família para o campo de concentração. Em Auschwitz, separado da esposa e dos filhos, o ex-atacante permaneceu três meses realizando trabalhos forçados. Certo dia, durante uma inspeção, os oficiais nazistas perceberam um inchaço na gengiva do americano. “Inapto”, ele seria enviado à câmara de gás no início de 1943.

Eddy Hamel foi executado aos 40 anos. Sua mulher e seus filhos gêmeos de quatro anos também haviam perecido meses antes na câmara de gás, logo após o desembarque em Auschwitz. Seus pais seguiram ao campo de concentração de Sobibor, assassinados em 1943. A irmã Hendrika já tinha sido morta em Auschwitz em 1942, enquanto a caçula Celina nunca teve seu paradeiro conhecido.

A história de Hamel em Auschwitz terminou preservada graças a Leon Greenman. O britânico de origem judaica também se tornou prisioneiro e fez amizade com o ex-jogador. Conseguiu sobreviver ao Holocausto e, em 1998, escreveu uma carta ao Ajax contando as histórias que tinha vivido ao lado do atacante no campo de concentração. “Eddy Hamel foi para a câmara de gás porque tinha um abscesso em sua boca. Isso ficou na minha cabeça desde 1943. Ele era um cavalheiro, tinha uma voz mansa. Desculpem-me por não ter contado isso antes”, relembrou Greenman. O sobrevivente também contou que, até então, achava que as chaminés ao redor de Auschwitz eram de fábricas – e duvidava das histórias sobre a câmara de gás. A partir do desaparecimento de Hamel, percebeu a verdade.

Outro jogador de origem judaica a defender o Ajax antes do Holocausto foi o atacante Johnny Roeg. Nascido em Amsterdã, ele atuou pelo clube entre 1934 e 1936. Roeg permaneceria escondido durante a invasão nazista e, assim, conseguiu sobreviver. Ele seguiu como membro dos Godenzonen durante o resto de sua vida, constantemente homenageado pela agremiação. Faleceu em 2003, aos 93 anos.

Antoni Lyko, Polônia (1907-1941)

Antoni Lyko nasceu em um vilarejo nos arredores de Cracóvia – cidade que então fazia parte do Império Austro-Húngaro, antes de integrar o estado independente da Polônia a partir de 1918. Oriundo de uma família proletária, o polonês não tinha origem judaica. No entanto, a região onde cresceu possuía forte influência dos judeus desde a Idade Média. Durante o início do Século XX, Cracóvia era um importante centro cultural à comunidade judaica, que compunha mais de um quarto da população.

Lyko iniciou sua carreira no Rakovichanka, de seu vilarejo, conciliando rotina de jogador com a profissão de torneiro mecânico. Em 1930, aos 23 anos, o atacante recebeu sua grande oportunidade: foi convidado a se juntar ao Wisla Cracóvia, que conquistara dois títulos nacionais no final dos anos 1920. Sua estreia aconteceu em agosto daquele ano e, durante as primeiras temporadas, o novato permanecia no banco de reservas. Já a partir de 1933, ganhou o posto de titular e também marcaria seu primeiro gol pela equipe.

Durante seis temporadas, Lyko seria nome frequente nas escalações do Wisla. Superou os 100 jogos pelo clube e também anotou 30 gols. Era um exímio cobrador de pênaltis, apelidado de “homem sem nervos” por sua frieza. Seu gol mais famoso aconteceu exatamente assim, na marca da cal, durante um amistoso contra o Chelsea em 1936. A partida comemorava os 30 anos de fundação do Wisla e os Blues haviam derrotado a seleção polonesa dias antes, por 2 a 0. Os anfitriões deram o troco, com o triunfo por 1 a 0 determinado por Lyko. Foi a única derrota dos londrinos naquela turnê, semanas após encerrarem o Campeonato Inglês na oitava colocação.

“Lyko deveria estar jogando pela seleção há muito tempo. Contra o Chelsea, todas as suas virtudes vieram à tona. O empenho do jogador é complementado por sua velocidade e por sua completa falta de egoísmo. Lyko muitas vezes abre mão de suas ambições e oferece suas oportunidades para os colegas marcarem o gol. Quando ele ganhar experiência em grandes partidas internacionais, sem dúvidas constituirá o quinteto ofensivo da seleção”, descreveu o jornal Ilustrowany Kuryer Codzienny, após aquele triunfo.

O título nacional não se repetiu durante a passagem de Lyko pelo Wisla Cracóvia, mas ele seria três vezes vice-campeão, além de terminar três vezes na terceira colocação do Campeonato Polonês. E os bons números, naturalmente, acabaram abrindo portas para que ele integrasse a seleção. O atacante disputou dois amistosos pela Polônia, entre 1937 e 1938. Foram dois encontros com a Letônia, um em Katowice e outro em Riga.

Neste mesmo intervalo, Lyko também recebeu a convocação à Copa do Mundo de 1938. Porém, não se juntaria à delegação polonesa, já que apenas 15 jogadores viajaram à França. Mesmo inscrito no Mundial, teria que acompanhar à distância o épico que aconteceu em Estrasburgo. A Polônia encarou o Brasil na estreia, logo pelas oitavas de final, e sucumbiu: após o empate por 4 a 4 no tempo normal, os brasileiros fechariam a conta em 6 a 5 durante a prorrogação. Leônidas anotou três tentos. Ainda assim, o artilheiro da tarde seria Ernest Wilimowski, que balançou as redes quatro vezes – marca inédita nas Copas até então e que só seria igualada outras seis vezes na competição.

A carreira de Lyko se encerrou logo depois. Em 1939, o atacante precisou se submeter a uma cirurgia no ombro e perdeu a temporada. Durante o mês de setembro, os nazistas invadiam a Polônia e tomavam Cracóvia. Poloneses e judeus foram retirados das áreas principais da cidade, ocupadas pela população de origem germânica. Já na periferia, os perseguidos tinham suas liberdades cerceadas nos guetos, antes que fossem enviados aos campos de concentração. Oskar Schindler, industrial alemão que tinha sua fábrica em Cracóvia, salvaria centenas de seus funcionários judeus – e sua história inspiraria o famoso filme de Steven Spielberg.

Lyko, a partir do início da Segunda Guerra Mundial, se juntou às forças de resistência. Ele integrou a ZWZ, a chamada União de Luta Armada, uma organização militar que atuava nos subterrâneos das cidades polonesas. O grupo apoiava o governo exilado e realizava um trabalho sobretudo de inteligência, ao unir diferentes movimentos contra a ocupação nazista e fornecer informações aos Aliados. Eles se opunham não apenas aos alemães, mas também aos soviéticos que invadiram a porção oriental do território.

Por conta de suas ligações com a resistência, Lyko seria preso em 1941, numa grande onda repressiva dos alemães contra a ZWZ. O ex-atacante seria levado inicialmente a uma detenção local. Já em abril, ao lado de outros 932 presos políticos poloneses, ele desembarcou em Auschwitz. Lyko realizou trabalhos forçados por três meses, atuando como serralheiro. Já em 2 de julho, até disputou uma partida de futebol entre prisioneiros poloneses e alemães. Os jogadores de sua equipe tinham medo de sofrer represálias dos nazistas se jogassem bem. Mas, sob a promessa de ganhar cigarros de um colega de prisão se balançasse as redes, o atacante aposentado anotou dois gols. Aquele seria seu penúltimo dia de vida.

No dia seguinte, 80 membros do ZWZ foram fuzilados em uma pedreira fora das cercas de Auschwitz – a primeira câmara de gás só entraria em operação oito meses depois. Lyko estava entre os mortos, assim como Witold Zielinski e seu irmão Mieczyslaw, dois jogadores do KS Cracóvia que integravam a resistência. A ordem dada pela Gestapo apontava as vítimas como “poder de oposição ao estado”. Segundo os relatos, os prisioneiros caminhavam em fila, espancados e escarrados pelos alemães. Lyko ainda tentou se levantar após o primeiro disparo, mas um soldado o executou com um tiro de pistola na cabeça. O corpo do ex-atacante foi cremado. Há um túmulo simbólico em seu vilarejo natal.

Bem diferente seria o destino de Willimowski, o autor de quatro gols na Copa. De origem germânica, ele se considerava silésio, abraçando a identidade da região em disputa na fronteira entre Alemanha e Polônia. Nascido Ernst Otto Pradella, adotou o sobrenome polonês apenas aos 13 anos, por influência do padrasto. Entretanto, logo após a invasão dos nazistas em 1939, ele recobrou a sua cidadania alemã.

Para tentar escapar das trincheiras, o atacante passou a atuar por clubes da Alemanha e fez sucesso por lá, empilhando gols também com a seleção local. E sua notoriedade seria importante para salvar a vida de sua mãe, levada a Auschwitz após se envolver com um judeu russo, mas libertada após a intervenção do craque. O fim da guerra significaria o limbo a Willimowski. Tratado como traidor na Polônia, era visto como colaborador dos nazistas na Alemanha. Apesar da sua fome de gols com a camisa do VfR Kaiserslautern até início dos anos 1950, não seria mais convocado por qualquer seleção. Sequer pôde voltar à Polônia (e, por consequência, à sua terra natal na Silésia) até sua morte, em 1995.

Max Scheuer, Áustria e França (*-1942)

Os dados biográficos sobre Max Scheuer são escassos. Sabe-se que Auschwitz-Birkenau se tornou o destino final de sua jornada. Contudo, as poucas informações disponíveis são preciosas para situar a grandeza do jogador: ele era capitão do Hakoah Viena, a mais célebre equipe judaica da história. Dono da braçadeira, o defensor ergueria a taça do Campeonato Austríaco de 1924/25 e participaria de famosas turnês pelo mundo.

Fundado em 1909, o Hakoah surgiu no seio da comunidade judaica em Viena, através de jovens e estudantes. Naquele início de século, vários clubes judaicos foram criados na Europa, sob a ideia de incentivar as atividades físicas para que os judeus transmitissem sua autoconfiança e sua força contra o antissemitismo. O próprio nome Hakoah, “poder” em hebraico, enfatiza este sentido. A agremiação abarcava diversas modalidades, embora o futebol fosse o seu carro-chefe – como jogadores muito bem pagos para isso. E a fama do time, mesmo atrapalhada pela Primeira Guerra Mundial, cresceria nos anos posteriores ao fim do conflito.

Ao subir da quarta divisão à primeira em uma década, o Hakoah atraía atenção pela qualidade de seu jogo. Era uma equipe que prezava pelo futebol ofensivo, além de valorizar a nata do conhecimento tático que se desenvolvia na região. Com um elenco formado apenas por judeus, a agremiação concentrou os fãs de futebol da comunidade judaica muito além de Viena e atraiu mesmo aqueles que antes desprezavam o esporte. A equipe era um elemento de boa vizinhança para enfrentar os preconceitos, bem como servia aos próprios ideais do sionismo. Scheuer se tornou uma das figuras proeminentes no Hakoah, participando da equipe principal a partir de 1913.

Descrito por algumas fontes como “lendário capitão”, Scheuer tinha uma importância além da liderança dentro de campo. Em um clube que fomentava o espírito esportivo, ele também se transformava em exemplo. O Hakoah sustentava relações amistosas com boa parte dos adversários, embora tivesse que lidar com o crescente antissemitismo nas arquibancadas, sobretudo nos anos 1930. Já dentro de campo, Scheuer tinha qualidade técnica para atuar em diferentes posições, assumindo geralmente funções mais defensivas. Participaria da ascensão da equipe à elite do futebol austríaco, então limitado a Viena.

O Hakoah consumou a meteórica escalada à primeira divisão em 1920. E não demorou para que os novatos fizessem barulho. Os alviazuis estrearam com uma quarta colocação no Campeonato Austríaco, antes do vice em 1921/22. Já em 1923, apesar da sétima colocação na liga, o feito histórico aconteceria nos amistosos travados com o West Ham, então vice-campeão da Copa da Inglaterra. O empate por 1 a 1 em Viena, diante de 40 mil espectadores, já parecia um grande feito aos anfitriões. Pois o melhor viria dentro de Upton Park, onde o Hakoah goleou os Hammers (sem boa parte dos titulares desta vez) por 5 a 0. Foi a primeira vitória de um clube da Europa continental em solo inglês. O time que ostentava a Estrela de Davi no peito era um verdadeiro orgulho à comunidade judaica, geralmente receosa de assumir sua identidade.

Conta-se que até mesmo Franz Kafka seria atraído pelo impacto do Hakoah. E, diante de tamanha repercussão, ficava mais fácil recrutar os melhores jogadores de origem judaica em atividade na época. O Hakoah possuía um caráter supranacional e, mesmo em tempos nos quais as fronteiras eram mais restritas no futebol, reunia jogadores nascidos em diferentes regiões da Europa Central. Ainda assim, os oriundos de Viena e Budapeste (que chegaram especialmente em meados dos anos 1920, diante do aumento do antissemitismo na Hungria) eram maioria.

Scheuer alcançou à seleção austríaca em 1924 e disputou um amistoso, contra a Hungria, vencido pelos magiares por 2 a 0. Na época, a Áustria já era treinada por Hugo Meisl, o mentor do Wünderteam que assombrou o mundo nos anos 1930. Além do capitão, outros jogadores do Hakoah no período integraram a equipe nacional da Áustria, com destaque a Alexander Neufeld, Egon Pollak e Moses Häusler. Já entre os que defenderam a seleção húngara, as referências eram József Eisenhoffer, Ernö Schwarz e Béla Guttmann – este, então um imprescindível meio-campista com clara inteligência tática. Vale mencionar ainda o atacante Isidor Gansl, que jogaria pela seleção da Romênia.

O Hakoah fez campanhas medianas em 1922/23 e 1923/24, mas conquistaria o histórico título do Campeonato Austríaco em 1924/25. Aquela seria a primeira edição da liga em que o profissionalismo se tornou obrigatório. Foi uma campanha acirrada, em que a diferença entre o campeão e o sexto colocado se limitou a quatro pontos. Ainda assim, o Hakoah conquistou a taça com uma rodada de antecipação, numa emocionante vitória por 3 a 2 sobre o Wiener SC. Os oponentes empataram a 15 minutos do fim, num momento em que o atacante Neufeld e o goleiro Sandor Fabian estavam contundidos. Durante os minutos finais, num tempo em que não existiam substituições, os dois trocaram de posição e o improvisado Fabian marcou o gol que selou a conquista. Scheuer estava em campo nesta e em outras 12 partidas da campanha.

Além do mais, desde que subira à primeira divisão, o Hakoah intensificou suas excursões internacionais. O clube passou por cidades nos atuais territórios de Alemanha, República Tcheca, Hungria, Polônia, Romênia, Suíça, Ucrânia, Lituânia, Bélgica, Países Baixos, Estônia Eslováquia e Croácia. No início de 1924, os alviazuis jogaram pela primeira vez no Mandato Britânico da Palestina (onde se formaria depois o estado de Israel) e também no Egito.

O sucesso da equipe a tornou cada vez mais requisitada, acumulando gols e vitórias nessas turnês. Já o ápice aconteceu em 1926. Após disputar seu primeiro amistoso em Paris, no primeiro jogo com refletores da Cidade Luz, o Hakoah atravessou o Atlântico e desembarcou nos Estados Unidos. Foram 11 partidas em seis cidades, que transformaram os visitantes judeus em astros. Chegaram a levar 46 mil às arquibancadas, uma marca só batida no país pelo New York Cosmos, quase cinco décadas depois.

Tratado como um “Harlem Globetrotters” do futebol, o Hakoah Viena tinha mais vantagens em disputar os amistosos do que propriamente em se dedicar ao Campeonato Austríaco. As campanhas na liga caíram depois do título. Em 1927, aconteceu outra grande turnê pelos Estados Unidos, que também incluiu o Canadá no roteiro. E alguns jogadores ficariam por lá. Com uma polpuda oferta financeira de empresários judeus americanos e sem um clima hostil de antissemitismo como na Europa, craques como Guttmann e Eisenhoffer passaram a atuar por times de Nova York no fim dos anos 1920, sobretudo o New York Giants e o Brooklyn Wanderers. Já em 1929, os judeus se uniram para formar o New York Hakoah, que até conquistou a US Open Cup naquele ano.

Scheuer não seguiu seus companheiros aos Estados Unidos. Ele seguiu capitaneando o Hakoah também no declínio após o desmanche. O defensor era um dos remanescentes do título na equipe que terminou rebaixada em 1927/28. Na temporada seguinte, o veterano liderou o acesso com 24 vitórias em 24 partidas. Já seu último campeonato aconteceu em 1929/30, quando o Hakoah amargou mais um descenso – para subir no ano seguinte.

Scheuer seguiu ligado ao Hakoah Viena, agora como membro da comissão técnica e por vezes como treinador principal. Após o acesso em 1931, o clube se manteve na primeira divisão, quase sempre com campanhas na parte inferior da tabela. Béla Guttmann, inclusive, perdeu suas economias nos EUA após a quebra da Bolsa de Nova York e retornou ao clube como técnico. E, por mais que o antissemitismo crescesse na Europa, os alviazuis seguiam na estrada, realizando amistosos até mesmo em novos países não tão amigáveis, como Itália e Turquia. Costumavam viajar com segurança reforçada para enfrentar as hostilidades.

O fim da linha viria a partir de 1936/37, quando a equipe sofreu um novo rebaixamento. Já em 1937/38, enquanto disputava o acesso, a última partida ocorreu cinco dias antes da anexação da Áustria pelo Terceiro Reich. O Hakoah foi imediatamente dissolvido pelos nazistas.

A maior parte dos jogadores do Hakoah fugiu de Viena. Muitos deles emigraram para a Palestina e seguiram fomentando o futebol. Scheuer, por sua vez, se mudou a Marselha. As portas do Olympique estavam abertas desde que József Eisenhoffer se tornou ídolo no ataque do clube, assumindo depois o cargo de treinador. À frente da equipe, o antigo artilheiro do Hakoah conquistou o primeiro título dos marselheses no Campeonato Francês, em 1937, e também faturou a Copa da França em 1938. Entre suas estrelas, estava o goleiro brasileiro Jaguaré.

Scheuer desembarcou no Vélodrome pouco depois da anexação da Áustria e integrou a comissão técnica de Eisenhoffer. O treinador permaneceu à frente do Olympique até 1941, quando o norte da França já tinha sido tomado pelos alemães e Marselha integrava a chamada “zona livre”. No entanto, no início de 1942, a Conferência de Wannsee ordenou a “solução final” à comunidade judaica e deflagrou a perseguição irrestrita, atingindo também o sul da França. Scheuer deveria se unir a outros três veteranos do Hakoah que escaparam rumo à América do Sul, mas os planos não deram certo. Então, surgiu uma rota de fuga rumo à Suíça.

A chance de salvação foi intermediada por Edmund Weiskopf, outro antigo atacante do Hakoah que defendia o Olympique. Rodado no futebol francês, Weiskopf tinha um amigo da seleção suíça, que auxiliaria os jogadores judeus a cruzar a fronteira. Moses Häusler, mais um ex-Hakoah, foi o primeiro a escapar dos riscos através do apoio do suíço. Scheuer deveria ser o segundo, mas não queria deixar para trás um amigo de longa data e o convidou para a escapada. O rapaz espalhou a esperança e viria acompanhado ainda por outros 12 judeus – uma generosidade fatal. Os oficiais nazistas conseguiram localizar o grande grupo sem dificuldades e prenderam todos os 14 “fugitivos”. Scheuer foi levado a um campo intermitente nos subúrbios de Paris, antes de ser deportado em novembro de 1942 a Auschwitz. Seria assassinado no local.

Cerca de 40 atletas e membros do Hakoah morreram nos campos de concentração. Vários jogadores do esquadrão do futebol pereceram, incluindo Oskar Grasgrün, Ernst Horowitz, Josef Kolisch, Oskar Pollak e Ali Schönfeld. Fundador do Hakoah e um dos compositores mais populares da Áustria, Fritz Löhner-Beda também seria executado em Auschwitz. Já Eisenhoffer (foto acima) conseguiu fugir de Marselha e retornou a Budapeste, sua cidade natal, mas não sobreviveria à guerra. Em fevereiro de 1945, faleceu após ser ferido nos bombardeios à capital húngara.

O responsável por preservar a história dos últimos dias de Scheuer foi o atacante Friedrich Donnenfeld, outro judeu que passou pelo Olympique. Ele se juntaria à resistência francesa e atuaria no setor de comunicação das forças armadas do Reino Unido na Normandia. Depois, jogaria pelo Red Star Paris, antes de se tornar treinador e dirigir as seleções da Colômbia e dos Países Baixos. Weiskopf, que tinha cidadania francesa, permaneceu em atividade nos clubes do país e também sobreviveu. O húngaro Ernö Schwarz não voltou dos Estados Unidos após as turnês dos anos 1920 e entraria ao Hall da Fama da US Soccer, virando treinador da seleção local e promovendo turnês de clubes europeus nos anos 1960. O austríaco Egon Pollak, que perdeu o irmão Oskar em Auschwitz, emigrou ao Mandato Britânico da Palestina e foi o primeiro comandante da seleção independente de Israel em 1948.

Entretanto, nenhum outro sobrevivente do Hakoah Viena seria tão bem sucedido quanto Béla Guttmann, mesmo sofrendo muito no período da guerra. Após a anexação da Áustria em 1938, o técnico fugiu aos Estados Unidos. Contudo, sem futebol de alto nível no país, ele optou por colocar a própria vida em risco para voltar à Europa e alimentar sua paixão. Então treinador do Újpest, László Sternberg abandonaria o clube para também se refugiar nos EUA e Guttmann aceitou ser o seu substituto em Budapeste. Logo de cara, conquistou o Campeonato Húngaro e a Copa Mitropa, prestigiosa competição realizada na Europa Central. Todavia, as leis antissemitas instauradas pelo governo húngaro causaram sua demissão pouco depois, mesmo campeão.

Segundo o biógrafo de Guttmann, apesar das parcas informações sobre sua vida no início dos anos 1940, o mais provável é que ele tenha se tornado um olheiro mal pago do próprio Újpest a partir de então. Conviveu com a perseguição e com condições extremas em meio à Segunda Guerra. Detido pelos nazistas, seria levado a um campo de trabalhos forçados nos arredores de Budapeste, mas conseguiu fugir antes da deportação a Auschwitz. A partir de 1944, o técnico passou meses escondido em um minúsculo sótão em Újpest, na barbearia de seu cunhado católico. Guttmann perdeu o pai e uma irmã no Holocausto. Mas sobreviveu para se tornar um dos maiores treinadores da história, sobretudo pelo bicampeonato da Champions com o Benfica.

Árpád Weisz, Hungria e Itália (1896-1944)

Árpád Weisz nasceu em Solt, uma pequena cidade do Império Austro-Húngaro, e se mudou na juventude a Budapeste. Filho de um médico, iniciou seus estudos na faculdade de Direito, mas interromperia o curso por causa da Primeira Guerra Mundial. O húngaro de origem judaica se juntou ao exército local e lutou na Itália. Tornaria-se prisioneiro de guerra em 1915, aos 19 anos, detido na cidade de Trapani. Porém, ganharia a liberdade e retornaria para Budapeste ao final do conflito.

Por conta da Primeira Guerra, Weisz deslanchou tarde no futebol. Aos 23 anos, ele se juntou ao Törekvés, que fazia boas campanhas no Campeonato Húngaro. Jogando como ponta ou como meio-campista, o novato impressionava por sua qualidade técnica e por sua capacidade na armação. Não à toa, logo ganharia suas primeiras chances na seleção nacional. Em 1922, ele estreou com a camisa húngara. Disputaria três amistosos oficiais e um não-oficial naquele ano.

A presença de jogadores com origem judaica era marcante no futebol húngaro durante o início do século. Com os judeus ocupando camadas privilegiadas da sociedade, era natural que também praticassem o esporte de elite. Vários atletas chegaram à seleção e se espalharam por diferentes clubes, alguns ligados à comunidade – como o VAC (de caráter sionista) e o MTK (atrelado ao nacionalismo húngaro). Entretanto, a derrota na Primeira Guerra Mundial e as pesadas imposições do Tratado de Trianon criaram um sentimento xenofóbico na Hungria, com seu próprio governo autoritário e conservador. Os judeus estariam entre os principais alvos, por suas posições de relevo na sociedade local. Logo seriam estabelecidas leis restritivas à presença judaica nas universidades e aqueles sem cidadania húngara seriam expulsos de Budapeste.

Apesar das hostilidades, os futebolistas judeus ainda mantinham seus lugares na seleção da Hungria – alguns deles, com sobrenomes alterados de uma maneira “mais húngara”, num processo comum a outras minorias do país a partir da década de 1920. Weisz disputou mais três partidas com a seleção em 1923, ano no qual deixou Budapeste. Ele e outros jogadores de origem judaica se mudaram ao Maccabi Brno. O clube servia como bandeira da comunidade hebraica no interior da Tchecoslováquia, embora também contasse com destaques cristãos. Para atrair os jogadores e se sustentar, o Maccabi Brno realizava turnês pela Europa, ao melhor estilo Hakoah Viena. A equipe conquistou vitórias marcantes contra clubes poderosos, a exemplo do Real Madrid, da Juventus e do Sparta Praga.

Árpád Weisz ganharia a convocação aos Jogos Olímpicos de 1924, ao lado de outros três jogadores do Maccabi Brno. O elenco estava repleto de judeus, incluindo Béla Guttmann (já no Hakoah Viena, após sair do MTK), Gyula Mandi, Dezsö Grósz, József Eisenhoffer e József Braun. A equipe, todavia, faria uma campanha fraquíssima para as expectativas criadas e, após golear a Polônia na estreia, seria eliminada nas oitavas de final para o Egito. Na época, surgiram acusações até mesmo de parlamentares húngaros, sobre uma facilitação orquestrada pelos jogadores do Maccabi Brno, descontentes com as leis antissemitas. Entre o ranço na Hungria e outras sanções na Tchecoslováquia, o clube logo entrou em declínio e seria limitado ao amadorismo. Assim, suas principais estrelas saíram.

A sequência da carreira de Árpád Weisz se deu na Itália. O meia tinha atraído atenções depois de uma boa atuação contra a Azzurra em 1923. Já em 1924, o húngaro assinaria com a Alessandria, treinada pelo compatriota László Gonda. Sua passagem pelo clube seria curta e se restringiria a apenas uma temporada. Trocaria de cores em 1925/26 e se juntaria à Internazionale. Foram 11 partidas e três gols pelos nerazzurri, que terminaram na quinta colocação da liga norte do Campeonato Italiano. O que poderia ser seu ápice, porém, marcou a transição a outra carreira. Por conta de um problema no joelho, o húngaro pendurou as chuteiras ainda no meio da temporada, aos 30 anos.

Dotado de um grande senso tático, Weisz aceitou um convite para retornar à Alessandria como assistente de Augusto Rangone – também membro da comissão técnica da seleção italiana. O húngaro iniciaria na função já em 1925/26. E o adeus dos gramados, no fim das contas, antecipou os movimentos: em agosto de 1926, a federação italiana lançaria a chamada Carta de Viareggio, que, entre outras medidas, proibiu a presença de jogadores estrangeiros sem ascendência italiana.

Weisz ficaria alguns meses na Alessandria, antes de receber outro convite: a Internazionale queria que ele voltasse e assumisse a sua equipe principal. Assim, diante da irrecusável oferta, o ex-meia iniciou sua trajetória como treinador principal. O primeiro ano seria satisfatório, com a classificação à fase final do Italiano e a quinta colocação geral. Na temporada seguinte, os interistas acabariam em sétimo.

Naquelas duas primeiras temporadas, a referência da Internazionale era o atacante Fulvio Bernardini – o mesmo que, anos depois, treinaria com enorme sucesso a Fiorentina e o Bologna. Observando um jogo da base, o astro se encantou com um garoto que comia a bola e o indicou a Árpád Weisz. O técnico foi conferir se o menino era tudo aquilo mesmo e, encantado, o levou ao time principal: era ninguém menos que Giuseppe Meazza. Com a saída de Bernardini em 1928, contratado pela Roma, o garoto de 18 anos se tornaria dono do time. Weisz se consagraria como o responsável por lançar um dos maiores jogadores da história do Calcio e, não só por isso, por insistir nas cargas de treinamento extra para que o prodígio se aprimorasse.

A temporada de 1928/29 seria de mudanças em Milão. Diante do nacionalismo forçado pelo regime fascista, a Internazionale abandonaria seu nome “estrangeiro” e passaria a se chamar Ambrosiana, após se fundir com a US Milanese. Weisz deixou brevemente Milão naquele período e retornou à Hungria, onde dirigiu o Sabaria e se casou. O clube localizado nas proximidades da fronteira com a Áustria terminou rebaixado no Campeonato Húngaro, mas realizou uma turnê de quatro meses por México e Estados Unidos. Isso permitiu o contato com outras escolas do futebol. Segundo algumas fontes, Weisz também passou alguns meses na América do Sul para absorver conhecimentos.

Já a consagração aconteceu em 1929/30, quando Weisz voltou a Milão. Aquela foi a primeira edição da Serie A, o campeonato nacional unificado e em pontos corridos. Com uma equipe extremamente ofensiva, liderada por Meazza, a Ambrosiana levou o primeiro título da nova era. Aos 34 anos, Weisz se tornaria o técnico mais jovem a ganhar o Scudetto, um recorde que prevalece até hoje. Meazza, em especial, contribuiu com 31 gols e terminou como artilheiro da liga. Segundo Vittorio Pozzo, jornalista e treinador bicampeão do mundo com a seleção italiana, a Ambrosiana de Weisz era o time mais técnico do Calcio naqueles tempos.

Neste período, o conhecimento tático de Weisz também se tornou um parâmetro na Itália. Ao lado de Aldo Molinari, diretor da Ambrosiana, ele escreveu um livro de referência aos treinadores do Calcio. Mais do que isso, o judeu seria um dos pioneiros no país a usar o WM, esquema então inovador aplicado por Herbert Chapman na Inglaterra. Meticuloso, Weisz comandava os treinamentos com enorme envolvimento e quebrou paradigmas ao trocar o terno pelo agasalho em suas atividades.

O treinador fazia questão de manter uma relação bastante próxima com seus jogadores. Educado, Weisz não precisava ser disciplinador para conquistar o respeito e lidava com os ânimos na base da conversa, como um grande gestor de grupos. Já usava técnicas da psicologia em seu trabalho. Ao mesmo tempo, abriu horizontes ao constatar a importância de um departamento médico dentro do clube, enquanto se preocupava com a dieta dos atletas e regulava as cargas de trabalho

Weisz deixaria a Ambrosiana após o quinto lugar na Serie A 1930/31, para uma rápida passagem pelo Bari. Terminou em 16° na Serie A, evitando o descenso. No entanto, os laços em Milão o puxariam de volta e seu retorno aconteceu já em 1932, à frente da rebatizada Ambrosiana-Inter. Foram mais duas temporadas com os nerazzurri, com dois vice-campeonatos no Italiano (em meio ao primeiro penta da Juventus) e outro vice na Copa Mitropa, derrotado na decisão pelo Austria Viena de Matthias Sindelar. Ao deixar os interistas novamente em 1934, Weisz seria substituído por um antigo companheiro: Gyula Feldmann, judeu de origem húngara que era jogador-treinador no Maccabi Brno.

Após alguns meses na Serie B em 1934, quando iniciou a campanha com o Novara, Weisz assumiu em janeiro de 1935 o Bologna. E a passagem pelos rossublù igualmente marcou sua carreira. Sexto colocado naquela edição da Serie A, o time daria um salto de qualidade rumo à campanha seguinte nas mãos do novo treinador. Com uma base titular muito sólida e jogadores com nível de seleção, a exemplo de Angelo Schiavio e Carlo Reguzzoni, além do uruguaio “oriundo” Michele Andreolo, o clube conquistou o Scudetto em 1935/36. Seria o terceiro de sua história e o primeiro após sete anos de espera.

Aquele título possuía grande significado justamente por interromper a hegemonia anterior construída pela Juventus, que atravessava um processo de renovação. Alternando-se na primeira colocação desde as rodadas iniciais, o Bologna veria o Torino como sua principal ameaça. Nada que impedisse a arrancada na reta final da campanha. E teria o repeteco. Weisz chegaria ao bicampeonato da Serie A no clube então presidido por Renato Dall’Ara. O dirigente se tornou tão célebre que, depois, rebatizaria o chamado Estádio Littoriale – nome em referência ao fascismo, em local no qual havia até uma estátua de Benito Mussolini, decapitada e fundida ao final da Segunda Guerra Mundial.

O segundo título nacional do Bologna de Árpád Weisz seria ainda mais soberano, com a imposição dos rossoblù durante todo o segundo turno, apesar da perseguição da Lazio. As contratações do goleiro Carlo Ceresoli e do centroavante Giovanni Busoni ajudaram. E, ao final da temporada, a equipe faturou um troféu internacional, ao conquistar o Torneio da Expo Universal de Paris – que, como o nome diz, se integrava à programação do megaevento, um dos mais importantes da época. Os italianos derrotaram Sochaux e Slavia Praga, antes de erguerem a taça graças aos 4 a 1 para cima do Chelsea.

Weisz também ajudou a modernizar o Bologna. Entre suas novidades, estavam os cuidados específicos com o gramado para certos tipo de jogo e a instalação de um departamento médico no Estádio Littoriale. Ele também introduziu um preparador físico em sua comissão técnica, o italiano Filippo Pascucci, que havia treinado a Argentina na Copa do Mundo de 1934.

Árpád Weisz completaria sua terceira temporada à frente do Bologna em 1937/38, com a queda à quinta colocação da Serie A. Três jogadores de seu elenco comporiam a seleção italiana na Copa do Mundo de 1938, com Andreolo entre os titulares na decisão contra a Hungria. Porém, o treinador de tantas contribuições ao Calcio se tornaria um pária a partir de outubro daquele ano, quando o fascismo promulgou as Leis Raciais e deflagrou o antissemitismo no país.

Weisz permaneceria no Bologna até poucas semanas após a instituição da nova legislação, que restringia drasticamente os direitos dos judeus e aumentava a perseguição contra a comunidade. Todos os judeus que passaram a residir no país depois de 1919 tiveram sua cidadania revogada, inclusive Weisz. Desta maneira, o técnico precisaria deixar a Itália em seis meses e foi substituído no Bologna pelo austríaco Hermann Felsner, que já tinha conquistado dois Scudetti com o clube nos anos 1920. A base montada pelo húngaro renderia mais dois títulos, em 1938/39 e 1940/41. Entretanto, as menções a Weisz nos jornais e nas entrevistas dos membros rossoblù desapareceram. Tudo por medo de represálias do fascismo.

Naquela época, a Serie A aproveitava os conhecimentos táticos dos treinadores da Áustria e da Hungria em boa parte de seus times. Assim, Weisz não seria o único judeu a ser perseguido. Jenö Konrád o seguiu pouco depois. Antigo treinador do Hakoah Viena, ele já havia deixado o Nürnberg em 1932 por conta do antissemitismo na Alemanha. Já na Itália, estava à frente da Triestina desde 1936 quando precisou sair. E, no início de 1939, Ernö Erbstein fugiu de Turim. Em seus tempos de jogador, o húngaro já tinha encurtado sua estadia no Calcio por causa da Carta de Viareggio, migrando aos Estados Unidos em 1926 para atuar ao lado de astros judeus no Brooklyn Wanderers. Depois disso, retornou para ser treinador no futebol italiano e passou por vários clubes, incluindo Cagliari e Bari. Contratado pelo Torino em 1938, não duraria por muito tempo no cargo, forçado pelas Leis Raciais a abandonar os grenás.

Konrád assumiu o Lille pouco depois. Erbstein tinha se acertado com o Feyenoord, mas viu seu trem ser barrado na fronteira da Alemanha com os Países Baixos e precisou retornar a Budapeste – onde também não poderia trabalhar como treinador por conta das leis antissemitas. Weisz seguiu para Paris, antes de assinar com o Dordrecht, outro clube holandês. Num time modestíssimo, o judeu promoveu uma revolução, sobretudo ao introduzir seus métodos de preparação. Salvou o clube do rebaixamento na primeira temporada e, no segundo ano, levou os alvirrubros a um honroso quinto lugar, com direito a vitórias sobre Ajax e Feyenoord.

Em maio de 1940, contudo, Árpád Weisz voltaria a conviver com o medo, quando o exército alemão invadiu os Países Baixos. A perseguição era diária, mas o treinador estava impossibilitado de sair do país. Em setembro de 1941, seus dois filhos foram expulsos da escola. Semanas depois, ele próprio acabaria banido do Dordrecht, após uma intimação enviada pela polícia. Os dirigentes do clube seguiram apoiando o judeu, enquanto Weisz se escondia sob as arquibancadas para orientar os treinamentos. Mas, em agosto de 1942, a família inteira seria detida. Foram levados a um campo de trânsito, até rumarem a Auschwitz em 2 de outubro.

A esposa Ilona, bem como os filhos Roberto (12 anos) e Clara (8 anos) seriam assassinados na câmara de gás cinco dias depois. Árpád ficaria em um campo de trabalhos forçados na Silésia e sobreviveria por 16 meses, o quádruplo da média entre os prisioneiros. Já em janeiro de 1944, retornou a Auschwitz, onde pereceu aos 47 anos. Sua história permaneceu por mais de seis décadas esquecida, até ser resgatada pelo biógrafo Matteo Marani em 2007. Desde então, as homenagens dos antigos clubes se tornaram constantes. O Bologna instalou uma placa ao comandante no Estádio Renato Dall’Ara. O mesmo aconteceu no Estádio Giuseppe Meazza, o San Siro, em tributo feito pela Internazionale.

Jenö Konrád, o antigo treinador da Triestina que foi expulso da Itália em 1939, sobreviveu. Ele deixou o Lille antes que a França fosse invadida. Treinou ainda o Sporting, até imigrar aos Estados Unidos, onde não trabalhou mais com o futebol. Já Ernö Erbstein, o antigo comandante do Torino, também escapou do Holocausto – mas teria uma história trágica, apesar de gloriosa.

Em seu retorno a Budapeste, Erbstein contou com a ajuda de Ferruccio Novo, lendário presidente do Torino. O treinador montou uma pequena confecção na Hungria e, de tempos em tempos, ia à Itália para fazer negócios – com documentos que provavelmente ocultavam sua origem judaica. O técnico dava seu apoio ao comando do Toro e, segundo sua filha, chegou até mesmo a recomendar alguns jogadores ao clube – a exemplo de Valentino Mazzola e Ezio Loik, que estavam no Venezia e se transformariam em lendas grenás. Todavia, em março de 1944, o judeu acabou preso por tropas alemãs em Budapeste.

No campo de trabalhos forçados próximo à capital húngara, Erbstein se reencontrou com um antigo companheiro de futebol nos Estados Unidos: Béla Guttmann – ele mesmo. Ambos fugiram juntos da detenção, antes da deportação a Auschwitz, e buscaram diferentes meios de sobreviver. Enquanto Guttmann estava no sótão da barbearia do cunhado, Erbstein se reencontrou com as filhas e com a esposa, que inicialmente se abrigaram em um convento, até arranjarem documentos falsos. Durante o cerco a Budapeste, já no fim de 1944, Erbstein conseguiu escapar graças à ajuda de um diplomata sueco. Enquanto se protegia num prédio da Cruz Vermelha, sua esposa e suas filhas se mantinham escondidas graças a um padre.

Erbstein voltaria a trabalhar no Torino ao final da guerra. Com as feridas ainda abertas e o antissemitismo latente, Ferruccio Novo preferiu conferir ao judeu o cargo de “consultor”, no qual seria menos visado, antes de torná-lo “diretor técnico”. Ainda assim, ele teria bastante influência na formação do Grande Torino, sobretudo quanto às táticas. Seria tetracampeão italiano como dirigente dos grenás. Mas, infelizmente, Erbstein também estaria entre os passageiros do avião que se chocou contra a Basílica de Superga e faleceu em maio de 1949. Sua memória viveria através da filha Susanna, outra sobrevivente do Holocausto, que se tornou uma das mais célebres bailarinas da Itália e presidiu o Conselho Internacional de Dança da Unesco.