Havia na semifinal da Libertadores, além da vaga na decisão em jogo, uma aura de passagem de bastão. O Grêmio, dono do melhor futebol do Brasil nos últimos anos, não apresentou a mesma consistência este ano, mas ainda conseguiu resultados relevantes. Enfrentava o Flamengo, o time em ascensão, o líder do Brasileiro. E se isso era verdade, o bastão foi definitivamente passado. O time de Jorge Jesus sentiu o cheiro de sangue ao marcar o segundo gol e, sem piedade, marcou passagem a Santiago com uma histórica goleada por 5 a 0.

Ao longo do ano, o Grêmio teve dificuldades para colocar em campo o mesmo nível de futebol que apresentou em temporadas anteriores, mas soube encaixar bons jogos nos momentos certos para alcançar as semifinais da Copa do Brasil e da Libertadores. Dentro desse cenário, escapou com um empate em Porto Alegre no jogo de ida e se segurou com vida no Maracanã até o começo do primeiro tempo.

No entanto, Gabigol fez 2 a 0 para o Flamengo logo no começo da etapa final e pouco depois fez o terceiro, em cobrança de pênalti. De repente, o Grêmio se viu com uma missão impossível pela frente e a boa marcação que vinha complicando a vida do adversário desapareceu. Em duas jogadas de bola parada parecidas, Pablo Marí e Rodrigo Caio apareceram na primeira trave para completar a goleada.

O placar elástico explica o jogo ao mesmo tempo em que não o faz considerando apenas o primeiro tempo. O Grêmio começou o jogo em uma encruzilhada. Não poderia abrir mão da cautela contra um time como o Flamengo, mas, se nada acontecesse, não se classificaria à final. Começou subindo ao campo adversário, o que deu indícios de uma postura mais ativa. No entanto, durou pouco. Por volta dos 20 minutos, os donos da casa já registravam 68% de posse de bola.

Acontece que era uma posse de bola estéril. Houve poucas escapadas, mérito da marcação do Grêmio, que conseguiu limitar o poderio ofensivo do adversário. Bruno Henrique apareceu bem pela direita, parado por Kannemann de carrinho, o que lhe valeu o cartão amarelo, e Everton Ribeiro surgiu em boa posição pelo meio. Em vez de passar ou tentar cruzar à segunda trave, onde havia um companheiro livre, Ribeiro arriscou o arremate e foi travado.

O cenário era bom para os gaúchos porque, quando eles conseguiam espaço para o contra-ataque, levavam perigo. A primeira grande chance foi do Grêmio. Everton Cebolinha recebeu o passe de André pela esquerda, dentro da área, sambou e cruzou rasteiro. Diego Alves pulou para interceptar, mas conseguiu apenas espalmar. No rebote, Maicon preparava o chute, mas Filipe Luis apareceu na hora certa.

O Flamengo respondeu pouco depois, com um cruzamento muito elegante de Rafinha, cortando a bola ao meio para Bruno Henrique, mais ou menos na marca do pênalti. O atacante antecipou-se a Paulo Miranda, mergulhou para cabecear e mandou a bola bem perto da trave esquerda de Paulo Victor. Everton Cebolinha, um pouco pilhado demais, recebeu o segundo cartão amarelo do Grêmio e o terceiro da partida (Rodrigo Caio pelo Flamengo) em um lance no qual deu uns três pontapés em Willian Arão.

Na reta final do primeiro tempo, o Flamengo cresceu. Primeiro, Arrascaeta subiu pela direita e soltou um meio cruzamento, meio chute, e Paulo Victor teve que se esticar para evitar que a bola entrasse no ângulo. No rebote, Gabigol tentou uma bicicleta. Não pegou em cheio. O chute foi mais forte na tentativa seguinte, após receber dentro da área, proteger e girar, mas muito no meio, e Paulo Victor defendeu sem problemas.

Aos 42 minutos, Everton Ribeiro bateu a carteira de Maicon no campo de defesa, Gerson passou a Bruno Henrique, que arrancou. E arrancou. E arrancou. E, na hora certa, passou para Gabigol, por trás da defesa. O chute cruzado de perna direita foi defendido por Paulo Victor, mas o rebote ficou dentro da pequena área. Bruno Henrique estava lá mais uma vez para completar e fazer 1 a 0.

 

O cenário ainda não era desesperador para o Grêmio, mas assim se tornou praticamente no momento em que o árbitro apitou o início do segundo tempo. Bruno Henrique foi mais esperto que Kannemann pela esquerda e cruzou rasteiro. Everton Ribeiro foi travado na hora do chute. Escanteio. A cobrança foi desviada na primeira trave e sobrou na segunda. Gabigol foi em direção a ela e ajeitou o corpo perfeitamente para soltar a bomba no ângulo de Paulo Victor.

 

Poucos minutos depois, Filipe Luis deu para Bruno Henrique dentro da área, e Geromel travou no carrinho. Ao vivo, pareceu pênalti. Na repetição, nem tanto. O árbitro Patricio Loustau, da Argentina, confirmou a infração, e Gabigol fez 3 a 0, efetivamente encerrando a partida no Maracanã. Porque, na sequência, o Grêmio pareceu com o espírito destruído, sem saber exatamente o que tentava fazer, e o Flamengo apenas aproveitava a festa de sua torcida.

E chegou a marcar, com Bruno Henrique, mas Gabigol estava impedido na construção da jogada. Aos 22 minutos, Arrascaeta cobrou escanteio pela esquerda, e Pablo Marí apareceu na primeira trave para cabecear. Quatro minutos depois, quase um replay, mas com Everton Ribeiro fazendo o papel de cobrador de falta na lateral e Rodrigo Caio o de zagueiro que apareceu na primeira trave para cabecear.

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Um momento bacana da partida foi quando Diego entrou no lugar de Gerson, a três minutos do fim, recuperado de uma lesão que deveria tê-lo tirado da temporada. E ele ainda teve a chance de fazer o sexto gol do Flamengo, com um chute forte de dentro da área, muito bem defendido por Paulo Victor.

Desde a parada da Copa América, foi pouco a pouco ficando muito claro que a mistura entre os jogadores de primeira linha do Flamengo e o competente Jorge Jesus estava construindo o melhor time do Brasil. A liderança do campeonato nacional já indiciava um processo avançado. Uma goleada desse tamanho, contra um adversário como o Grêmio, campeão sul-americano recentemente, em sua terceira semifinal consecutiva, apenas o confirmou.

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