Megan Rapinoe sai desta Copa do Mundo ainda maior do que quando entrou. Antes do torneio, marcou sua carreira não só pelas conquistas como também pela postura de luta fora de campo, e no momento de (mais uma glória) não abaixou o tom. Após a vitória por 2 a 0 dos Estados Unidos sobre a Holanda, na final em Lyon, a camisa 15 reforçou sua pedida por maior igualdade salarial entre gêneros no futebol, incluindo na premiação concedida pela Fifa nos Mundiais.

Rapinoe afirmou que todas as jogadoras estão prontas para que a discussão dê o próximo passo. “Acho que já cansamos do papo de: ‘Será que valemos a pena, devemos ter salário igual, o mercado é o mesmo?’ Blablablá.”

“Todos já se cansaram disso; os torcedores já se cansaram disso, as jogadoras já se cansaram disso. Em vários aspectos, acho que os patrocinadores já se cansaram disso. Vamos ao ponto seguinte. O que vem a seguir? Como apoiamos federações femininas e programas femininos em todo o mundo? O que a Fifa pode fazer para fazer isso? O que podemos fazer para apoiar as ligas de todo o mundo?”

Rapinoe tem um ponto interessante em sua fala. Ela crava que as jogadoras envolvidas na Copa do Mundo na França entregaram ao público um bom espetáculo. Se levarmos em consideração as outras duas finais disputadas no mesmo domingo, a da Copa América e a da Copa Ouro, o jogo entre americanas e holandesas não ficou devendo em questão de entretenimento – aliás, o fato de a Fifa permitir duas decisões continentais de seleções no mesmo dia da final do Mundial também foi justificadamente criticado por Rapinoe. Agora resta o que para que enfim o investimento venha?

“Não podemos fazer mais nada para impressionar mais, para sermos melhores embaixadoras, para assumirmos mais, para jogarmos melhor ou fazermos qualquer coisa. É hora de avançar para o próximo passo. Um pouco de vergonha pública nunca fez mal a ninguém, certo? Eu estou de acordo com as vaias”, opinou a líder da seleção norte-americana.

As vaias que Rapinoe cita são as ecoadas pelo público presente no Estádio Groupama, em Lyon, ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, complementadas por gritos de “igualdade salarial” que saíram das arquibancadas e reverberaram por todo o palco da decisão do Mundial.

Jill Ellis, treinadora da triunfante seleção norte-americana, mostrou o orgulho que sente de sua comandada ao falar de seu perfil combativo. “Megan foi construída para isso, construída para esses momentos, construída para ser porta-voz”, disse Ellis. “Ela é eloquente. Ela fala bem e de coração. Eu nunca tive nenhuma preocupação com a Megan falando. Quanto maior o holofote, mais ela brilha.”

Um dia antes do jogo contra a Holanda, Rapinoe já havia pressionado a Fifa por conta da disparidade econômica na premiação das seleções campeãs da Copa do Mundo. Enquanto em 2018 a França levou US$ 400 milhões, as americanas agora ganharam apenas US$ 30 milhões.

Em tom de quem está aplaudindo o próprio trabalho, Infantino anunciara mais cedo que o prêmio da Copa de 2023 seria dobrado para US$ 60 milhões, o que pode parecer até algo muito positivo, não tivesse sido precedido pela informação no início deste ano de que a entidade tem US$ 2,7 bilhões em reservas, com receitas de US$ 6,4 bilhões no ciclo de quatro anos que se encerrou em 2018.

Rapinoe foi taxativa: “Certamente não é justo. Deveríamos dobrar agora e então usar esse número e dobrar ou quadruplicar para a próxima vez”.

Para além do brilho dentro de campo, o protagonismo exercido por Rapinoe fora dele é uma lição de luta. Como tantos outros em diferentes campos, poderia manter-se calada para preservar o patamar que alcançou, com medo de represálias. Em vez disso, usa o espaço a que chegou para fazer a diferença, seja no futebol feminino ou então em questões caras a uma sociedade mais igualitária. Um exemplo não só para todas as gerações subsequentes no futebol feminino, mas também para atletas em geral, que pouco exercem pensamento crítico – e público – para tentar melhorar o mundo a seu redor uma vez que têm uma plataforma.