Imensamente popular no Brasil, o futsal é um caminho já conhecido para muitos jogadores que acabam se profissionalizando no futebol de campo. Não são poucos os atletas que iniciam sua trajetória como crianças no salão e levam o aprendizado para o gramado. Embora essa narrativa seja bastante comum para nós, brasileiros, não é assim em todo o mundo. E é justamente por isso que a história de Max Kilman, do Wolverhampton, está chamando a atenção na Inglaterra.

O zagueiro de 22 anos é um caso raro de atleta de campo vindo do futsal no futebol inglês. Na Inglaterra, o caminho alternativo mais comum para um jogador é se destacar pela Non-League, como é chamada a pirâmide da quinta divisão para baixo, com equipes amadoras e semiprofissionais, antes de se profissionalizar e ganhar destaque no topo. Foi o caso, por exemplo, de Jamie Vardy e Michail Antonio.

O que torna a história de Kilman ainda mais interessante é que não se trata apenas de um jogador com formação no futsal. Ele jogou profissionalmente o esporte de salão por tempo considerável, acumulando até 20 partidas pela seleção inglesa da modalidade. É o primeiro jogador com passagem por seleção de futsal a atuar na Premier League. A transição para o campo exigiu muita dedicação do zagueiro, que deu seus primeiros passos no campo sem abandonar a carreira na quadra.

O começo de tudo foi mesmo no campo: juntou-se às categorias de base do Fulham. Por volta da mesma época, quando tinha 14 ou 15 anos, conheceu o futsal e passou a praticar todos os finais de semana, depois de esbarrar em um grupo de pessoas jogando em um parque. Foi convidado então a se juntar ao London Genesis, time de futsal local. Sem sucesso no Fulham, mudou-se para a base do Gillingham, no condado de Kent, mas se manteve nas quadras por puro prazer.

Do Genesis, foi para outro time de futsal, o London Helvecia, e, aos 18 anos, já se juntava à seleção inglesa da categoria.

Do Gillingham, foi para as categorias de base do Maidenhead, no futebol de campo. Após uma temporada, foi emprestado ao Marlow, da sétima divisão, aos 19 anos, para ganhar experiência em time principal. Aquela campanha em 2016/17 foi bastante importante para os rumos que sua carreira no gramado tomaria.

“Acho que éramos provavelmente o lugar certo na hora certa para ele. Ele claramente tinha habilidade técnica, considerando sua formação no futsal, mas queríamos ajudá-lo a se desenvolver. Havia uma ou duas coisas de posicionamento (a se corrigir), mas ele sempre teve uma ótima atitude e é um cara que aprende rápido. Adaptou-se rapidamente”, descreve Mark Bartley, técnico do Marlow, em entrevista à Sky Sports.

Mesmo com a recomendação de que seu novo comandado jogava de zagueiro, Bartley viu nele uma saída de bola muito boa, além do ótimo controle da posse. Decidiu colocá-lo mais à frente no campo. “Ele consegue atrair os adversários até certas áreas e então manobrar para sair da marcação. (…) Ele também conseguia afastar os oponentes porque era bastante alto, mas tinha ótima agilidade. Isso te pega desprevenido, porque as pessoas pensam naquele antigo clichê.”

A descrição de Bartley soa bastante familiar para quem já viu tantos atletas brasileiros começarem como crianças no futsal e levar para o campo a agilidade exigida no espaço limitado da quadra.

“O futsal definitivamente ajudou o meu futebol, especialmente quando eu tinha 15 ou 16 anos. Por exemplo, antes do futsal, eu costumava ficar um pouco nervoso ao receber a bola de uma cobrança de lateral. Porém, o futsal me ajudou a estar mais ciente (dos arredores), tomar uma decisão mais rápido e a ver o todo”, revelou Kilman ao site da FA em setembro do ano passado.

O zagueiro dos Wolves destaca ainda a ajuda tática que sua formação nas quadras lhe deu. “Muita gente diz que o futsal te melhora tecnicamente, mas, para mim, descobri que me ajudava mais pelo lado tático também. Você fica mais esperto, mais ciente e rápido para decidir o que fazer, além de pensar mais durante o jogo.”

Evidentemente, a transição ao gramado não vem sem seus desafios, e por isso o período na sétima divisão inglesa foi tão importante ao jogador. Além dos aspectos de posicionamento, o clube identificou que Kilman precisava melhorar fisicamente, ser capaz de passar mais tempo correndo grandes distâncias, além de aprimorar sua disputa aérea, dois pontos que não se trabalha tanto no futsal.

Técnico da seleção inglesa de futsal, Michael Skubala não se surpreende que o jogador tenha chamado a atenção de Nuno Espírito Santo, treinador do Wolverhampton. “A velocidade do futsal de seleções é tão rápida quanto a do futebol”, avalia Skubala.

“Ele conseguiu lidar com a velocidade da tomada de decisões porque isso era muito mais rápido no futsal do que na Non-League. Lidar com a bola sob pressão era seu forte no futsal. Ele é muito bom para sair da pressão. Nunca entregava a bola em espaços apertados. Você sempre podia contar com ele para manter a posse.”

Com razão, Skubala vê a jornada de Kilman como bastante singular na Inglaterra. “Ele foi esperto porque sabia o que estava fazendo e descobriu uma maneira de fazer as duas coisas (ao mesmo tempo).”

E cada capítulo dessa trajetória parece reservar seu próprio aspecto único. Em 2018/19, Kilman fez apenas duas partidas por times principais de campo. Uma na rodada de abertura da quinta divisão inglesa, em agosto de 2018, na derrota do Maidenhead por 3 a 1 para o Gateshead. A outra, na vitória por 1 a 0 do Wolverhampton contra, curiosamente, o Fulham, pela Premier League, em maio deste ano.

Na temporada atual, Kilman foi relacionado para todos os jogos do Wolverhampton na fase classificatória da Liga Europa, e Nuno Espírito Santo vê o jogador como uma peça completamente integrada ao time principal, depois de passar basicamente toda a temporada passada atuando pelo sub-23.