Mauro Silva fez história fora dos gramados ao se tornar o primeiro dirigente negro na linha sucessória das federações no Brasil, quando assumiu o cargo de vice-presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF) em 2015. Consciente de ser uma exceção, o ex-jogador levanta a bandeira da diversidade e da inclusão no futebol e, participando de um congresso espanhol sobre a liderança feminina no esporte, ressaltou a importância de que o jogo seja cada vez mais plural.

Em entrevista ao jornal espanhol AS, Mauro Silva comemorou os avanços da FPF na inclusão de mulheres em seu quadro de diretores. “É uma alegria ver a transformação do futebol feminino e a maior presença da mulher. Tratamos o futebol feminino exatamente como o masculino, não deve ser de outra maneira. Somos exemplo de diversidade. Eu sou um dirigente negro. A Aline Pellegrino, nossa ex-diretora e que foi para a coordenação da CBF, é mulher e negra. Temos oito mulheres em cargos altos de gestão na FPF, incluindo a presidente da comissão de arbitragem, Ana Paula Oliveira, e a diretora de competições, Cristina Abreu. A sociedade perde quando não há oportunidade para todos. O futebol seria melhor com mais pluralidade.”

A inserção da mulher no futebol, seja em cargos de chefia ou na simples prática do esporte, é um desafio grande, e Mauro Silva aponta o atraso causado por políticas públicas machistas como a raiz da dificuldade de promover maior inclusão.

“O Brasil é um país em que há um preconceito histórico contra a mulher no futebol. Poucas famílias incentivavam suas filhas a jogar. As mulheres foram proibidas de jogar futebol durante quatro décadas. Isso deixou um atraso estrutural na mentalidade da sociedade. Agora, precisamos tentar recuperar o tempo perdido, e a chegada da Aline à CBF ajudará este trabalho a ter um impacto nacional”, projetou o campeão do mundo de 1994.

Mauro Silva reforça a necessidade de se acabar com o preconceito e “romper paradigmas” e diz que a FPF tem um trabalho constante de contato com clubes sociais e de bairro para que tenham equipes femininas.

A reparação dos erros do passado é dura e lenta, mas o dirigente comemora o crescimento da modalidade nos últimos anos, destacando alguns números que ilustram a mudança recente. “Lembro-me de quando conheci a Aline Pellegrino no curso de gestão da CBF em 2016. Reunimo-nos para discutir o que precisava ser feito, e agora vemos aonde chegamos com o futebol feminino: temos três vezes mais jogadoras inscritas; em 2016, havia apenas três mulheres ocupando cargos em comissões técnicas, e hoje são 45. Não tínhamos patrocinadores, e hoje temos quatro. Passamos de uma partida na televisão a 170 em 2019; e acabamos de fechar com o Facebook para a transmissão de todas as partidas (do Paulistão Feminino) da temporada.”

Questionado sobre a possibilidade de um dia vermos uma mulher na presidência de uma federação, Mauro Silva acredita que é preciso oferecer uma capacitação de alto nível às mulheres, de forma a colocá-las em pé de igualdade com os homens. A partir daí, que assumam o cargo quem tiver maior competência, independentemente de gênero.

“A discussão deveria ser a preparação. A capacidade do gestor. Tem que ser igual, sendo negro ou branco, homem ou mulher. O que deveria importante é se uma pessoa é preparada ou não. É assim que fazemos na FPF. Temos profissionais incríveis em cargos de alta responsabilidade que são mulheres. A Mislaine Scarelli, vice-presidente de gestão corporativa, e Ana Lorena Marche, nossa cordenadora, são exemplos. Estão aqui por questão de capacidade”, argumentou.

Ainda na questão de discriminação, mas racial, de que já foi vítima enquanto jogador, Mauro Silva não acredita que seja o futebol em si que tenha um problema de racismo, mas sim a sociedade, e isso acaba sendo reproduzido no esporte.

“O racismo é um problema estrutural da sociedade e reflete no futebol uma realidade que existe na vida. Às vezes, você chega a um hotel de luxo, a um restaurante, e eles pensam que você é o motorista, o guarda-costas. Porque não é um ambiente feito para que você (como negro) esteja lá. E as pessoas acham natural que este tipo de coisa aconteça. Assim como no futebol, quando vêm com a desculpa de que no futebol vale tudo, que um insulto faz parte da cultura, que não é racismo. O futebol é um reflexo da sociedade. Mas é importante que utilizemos o futebol como uma ferramenta educacional, de conscientização”, defendeu.

Como único dirigente negro na linha sucessória das federações de futebol do Brasil, Mauro Silva acredita que ações afirmativas são necessárias para que os negros sejam enfim colocados em pé de igualdade com os brancos. Só assim histórias como a sua poderão deixar de ser exceção e passar a fazer parte da regra.

“Três séculos de escravidão deixaram marcas muito profundas na sociedade brasileira. Mas o racismo é um problema global. É um problema estrutural da nossa sociedade. É um círculo vicioso, que está diretamente relacionado à desigualdade social. Os negros vivem em zonas mais pobres, com piores escolas, piores empregos, menos oportunidades. Se em uma corrida de 100 metros você sai com 30, 40 metros de desvantagem, você nunca vai chegar em primeiro. Não existem políticas públicas para a inserção social, e assim vivemos uma situação muito vulnerável. Faltam políticas para mudar este panorama desde a base. Não é demagogia, é a realidade. Precisamos tornar o mundo mais justo, com oportunidades iguais e para todos. Por isso é tão importante que se fale de racismo, de machismo, que tenhamos congressos e mesas de debate, para que avancemos como sociedade em um mundo mais justo e inclusivo.”