Roberto Mancini assumiu um Manchester City que tinha dificuldade em cumprir suas expectativas na temporada, sobretudo por causa dos problemas da defesa em evitar gols. Em seus dois primeiros jogos, conseguiu vencer com a meta intacta, arrancando elogios ainda por sua capacidade de observar o panorama da partida e fazer modificações táticas relevantes.

A ida do ex-técnico de Fiorentina, Lazio e Internazionale para a Premier League é mais um capítulo na fuga de treinadores italianos para o exterior. O mesmo campeonato é liderado pelo Chelsea de Carlo Ancelotti, e ainda tem Gianfranco Zola tentando salvar um West Ham prejudicado pela crise financeira. Um êxodo que indubitavelmente tem como motivação o sucesso de Fabio Capello à frente da seleção inglesa.

Não apenas na Inglaterra o técnico italiano virou matéria de exportação. Basta lembrar que Luciano Spalletti acertou recentemente com os russos do Zenit, classificados para a próxima Liga dos Campeões, para receber um belo salário de € 4 milhões por temporada. Na Irlanda, Giovanni Trapattoni faz ótimo trabalho à frente da seleção, que terminou invicta em seu grupo das Eliminatórias da Copa de 2010 e poderia ter se classificado se não fosse pelo equívoco de arbitragem mais comentado do ano. Walter Zenga, demitido recentemente do Palermo, tem oferta do Unirea para comandar o campeão romeno.

Além de demonstrar a qualidade da safra de treinadores italianos, o êxodo mostra ainda um certo enfado com o estado atual do futebol italiano, que demonstra ter estagnado dentro e fora de campo. Preferir a Premier League à Serie A se tornou uma escolha lógica, por um ambiente mais sadio. A falta de paciência dos dirigentes com os técnicos alcançou, nesta temporada, níveis nunca antes vistos na primeira divisão italiana, com dez demissões em 17 rodadas.

Em entrevista à Gazzetta dello Sport de segunda-feira, Capello atribuiu o sucesso dos técnicos no exterior ao êxito da escola de formação de treinadores de Coverciano, passagem obrigatória para exercer a profissão na Serie A, e também às novidades e aos diferentes desafios oferecidos pela vida fora do país.

As declarações do comandante do English Team exigem uma reflexão: “Na Inglaterra estamos bem, a Premier League é o campeonato mais interessante e fascinente do mundo. Há um perfume particular. Estádios cheios, segurança, beleza, falta de estupidez. Veja o Newcastle, foi rebaixado e é aplaudido. Está na segunda divisão e vão 50 mil pessoas para vê-lo. Nosso clima, o italiano, é diferente, irritante, chato. Cometemos sempre os mesmos erros, sobre a gestão dos estádios, com a violência. Não melhoramos, não evoluímos, não resolvemos o problema. Isso me faz sentir mal”.

Dias antes, falando à imprensa portuguesa, José Mourinho disse que seu amor pela Itália não poderia ter terminado, já que nunca começou de verdade. Como esta coluna abordou recentemente, ele não esconde o desejo de retornar à Inglaterra, apesar de prometer terminar seu contrato com a Inter, que vai até 2012. Questionado sobre a declaração do colega, Capello foi taxativo: “Eu trabalho na Inglaterra e amo a Inglaterra”.

Outro grande do futebol italiano, Arrigo Sacchi, alerta para o fato de a Itália ter sido por muito tempo um país importador, mas que não conseguiu se beneficiar das diferentes ideias que eles tinham a oferecer. Ao contrário, a crítica conservadora fazia com que eles logo abandonassem suas propostas para adotar o estilo de jogo comum no país. Sacchi lembra o caso de Helenio Herrera, técnico daquela que é considerada a maior Internazionale de todos os tempos. Ele chegou em 1960 do Barcelona, onde adotava um módulo baseado na posse de bola e na iniciativa de jogo. Na Inter, adotou o caminho oposto. Até hoje, é lembrado como uma das referências do “catenaccio”, por ter adotado um 5-3-2 baseado na retranca e no privilégio ao contra-ataque.

“Essa adequação à nossa história defensiva é a transformação que praticamente quase todos os técnicos estrangeiros sofreram para sobreviver em um país que ama a tradição e teme tudo o que é novo. Um país contraditório, e às vezes muito pouco confiável e respeitoso. Ao contrário, os treinadores italianos que emigram encontram quase sempre ambientes mais serenos, positivos e educados. Lugares onde podem melhorar e expressar as próprias capacidades”, argumenta Sacchi.

Citado por Fabio Capello como um dos destaques da nova geração de treinadores italianos, Marco Giampaolo é mais um a criticar a falta de planejamento dos clubes locais. “Nosso futebol é utilitarístico, com pouca programação e é fundamentalmente incoerente”, alega o ex-treinador do Siena. “Aqui há um atraso cultural enorme”.

Apesar de positiva para a reputação da escola italiana de técnicos, a fuga de cérebros ajuda a empobrecer o futebol do país. Hoje, dos três principais clubes, dois têm treinadores novatos que ainda precisam demonstrar valor. E se não houver uma mudança cultural significativa, a tendência é que a porta de saída continue aberta.

Mercado a todo vapor

No próximo dia 2 de janeiro será aberta a janela de transferências de janeiro. A principal novela gira em torno do macedônio Goran Pandev, que conseguiu se desvincular da Lazio na justiça após ser afastado pela direção do clube. A proposta da Internazionale é melhor financeiramente, e os nerazzurri precisam urgentemente de uma peça de reposição para o período em que ficarão sem Samuel Eto’o durante a Copa da África.

O temor de Pandev, no entanto, é acabar à margem da equipe quando Eto’o retornar. Contratado aos 18 anos pela Inter, ele nunca conquistou espaço no clube antes de ser definitivamente liberado, em 2004, sem estrear na Serie A.

Confiando nisso, o Napoli oferece um papel de protagonista ao ex-biancoceleste, apesar de a oferta financeira não se igualar à da Inter. O ideal para ele é acabar com a dúvida o quanto antes, já que não joga desde o início da temporada e precisa entrar rapidamente em forma para atuar.

Na Inter, jogadores menos aproveitados já começam a tomar o rumo de outros clubes. David Suazo vai por empréstimo para o Genoa, que por sua vez cederá Sergio Floccari à Lazio. O austríaco Marko Arnautovic, que chegou a Milão com boas perspectivas, esteve sempre fora de forma e nunca se recuperou por completo de uma lesão no pé. Será devolvido ao Twente, da Holanda.

A chegada de Floccari dará mais uma opção a Davide Ballardini para recuperar a Lazio, já que ele também deve contar com o argentino Maxi López, do Grêmio. Corrige-se, assim, um problema de planejamento, já que o clube afastou Pandev sem ter opções válidas para suprir a ausência.

Uma transferência já fechada, pendente apenas da oficialização, é a de Toni para a Roma. O atacante será liberado pelo Bayern de Munique apenas pelo pagamento dos salários, e terá nos giallorossi uma oportunidade de ouro para voltar a jogar com regularidade, reencontrar o caminho dos gols e reconquistar a confiança de Marcello Lippi para jogar a Copa do Mundo. Ao lado de Totti, tem boas chances de marcar com freqüência. Para a Roma, também é importante, já que Vucinic não faz sua melhor temporada.

A Fiorentina consegue, no brasileiro Felipe, ex-Udinese, uma peça de reposição importante para a defesa, pensando na conciliação de Liga dos Campeões e Serie A na sequência da temporada. Como negócio, também foi positivo para a Viola: pagou € 9 milhões, sendo que o clube de Udine recusou € 12 milhões há alguns meses.

O Milan receberá David Beckham, que parece não ter lugar no atual esquema adotado por Leonardo, mas pelo menos dá ao brasileiro opções de variação. O jovem ganense Adiyiah, destaque do último Mundial Sub-20, ficará fora durante a Copa Africana de Nações. O clube ainda cogita emprestá-lo para que ganhe experiência no futebol italiano.