Qual a emoção de anotar o gol que vale, pela primeira vez na história, a classificação de seu país a uma Copa do Mundo? Poucos jogadores puderam descrever tal sentimento. O sul-africano Philemon Masinga era um deles, logo após o fim do Apartheid. O atacante teve uma carreira respeitável por clubes. Além de atuar por times importantes de sua nação, também rodou pelo exterior, com sucesso maior vestindo a camisa do Bari. Mas nada se compara à notoriedade que conquistou pelos Bafana Bafana. Parte do primeiro time da “nova África do Sul”, o artilheiro também faturou a Copa Africana de Nações em 1996. Já em 1997, assinalou o tento que botou o país no Mundial da França. Um herói nacional que deixou os fãs saudosos neste domingo, falecendo aos 49 anos, vítima de um câncer.

Masinga nasceu em Khuma, um vilarejo ligado à mineração na cidade de Klerksdorp, nordeste da África do Sul. Sua carreira realmente desabrochou quando foi descoberto por Jomo Sono, lendário veterano local, que o levou ao seu clube, o Jomo Cosmos. Os gols pela equipe atraíram a atenção do Mamelodi Sundowns, que contratou o prodígio em 1991. E, no ano seguinte, o atacante ganhou a primeira convocação pelos Bafana Bafana. Em julho de 1992, aos 23 anos, “Chippa” disputou o primeiro jogo da seleção sul-africana após o fim dos embargos causados pelo Apartheid. Compôs o ataque ao lado do parceiro Doctor Khumalo, que anotou o gol da vitória por 1 a 0 sobre Camarões. Ambos formaram uma das duplas mais célebres do futebol africano na década de 1990.

Dono de ótimo porte físico e também de qualidade técnica, Masinga seria contratado pelo Leeds United em 1994. Era uma aposta dos Whites, em negociação que também levou Lucas Radebe a Elland Road. O zagueiro vinha como companhia para ajudar a adaptação do atacante, mas foi quem realmente vingou na Inglaterra, tornando-se um símbolo dos Whites. Ainda assim, Chippa é muito bem lembrado por lá, especialmente por sua generosidade e por seu sorriso franco. Permaneceria no clube até 1996, quando se transferiu ao St. Gallen, da Suíça.

Titular na conquista da CAN 1996, Masinga anotou um gol naquela campanha, abrindo a vitória sobre Camarões na estreia. Tinha também a sua importância pela maneira como abria espaços nas defesas adversárias. E o ápice de sua história aconteceu nas Eliminatórias para a Copa de 1998. Chippa foi determinante para a classificação ao Mundial, anotando quatro dos sete gols da África do Sul na fase final da qualificação. Assegurou as duas vitórias sobre o então chamado Zaire e ampliou a diferença em um dos encontros com a Zâmbia. O melhor, de qualquer forma, aconteceu em 16 de agosto de 1997. Os Bafana Bafana recebiam o Congo-Brazzaville em Durban, em confronto direto pela classificação. A vitória por 1 a 0 foi garantida logo aos 14 minutos, graças a Phil Masinga. O centroavante acertou um chutaço de fora da área e proporcionou uma alegria indescritível aos compatriotas – algo realmente emblemático quando se pensa no fim do Apartheid.

“Eu anotei o gol da vitória, mas o mais empolgante para mim foi ver os sul-africanos unidos. Nós tínhamos a nação inteira nos apoiando. Os líderes políticos estavam lá, a imprensa nos empurrava e não havia ninguém contra nós. Foi demais ver as pessoas dando as mãos e cantando em uma só voz. Dirigi à minha cidade natal depois do jogo para celebrar com meus amigos, porque alguns deles não puderam ir ao estádio”, contou Masinga, sobre aquele momento histórico, em entrevista concedida em 2012.

Após participar do vice na CAN 1998, Masinga foi titular na estreia da África do Sul na Copa de 1998. Não conseguiu evitar a derrota para a França. Perderia a posição para Shaun Bartlett, saindo do banco na segunda rodada, diante da Dinamarca. O atacante chegou a ter alguns problemas nos Bafana Bafana, entrando em rota de colisão com Radebe e também chegando a ser vaiado pelos torcedores. De qualquer maneira, sua trajetória o coloca entre os melhores atacantes que a seleção já contou. Anotou 18 gols em 58 aparições, quinto maior artilheiro da equipe nacional. Deixaria de ser convocado em 2001.

De 1997 a 2001, Masinga viveu uma passagem positiva pelo futebol italiano. Começou na Salernitana, mas poucos meses com a equipe da segundona valeram a transferência ao Bari. Chippa disputou quatro temporadas na Serie A, destacando-se especialmente nas duas primeiras. Foram 24 gols na liga pelos Galletti, incluindo o que atrapalhou as pretensões da Internazionale na penúltima rodada de 1997/98. Jogaria no sul da Itália até 2001. De lá, ainda ficou próximo de retornar à Inglaterra, mas a transferência ao Coventry City não se concretizou por problemas no visto. Encerraria sua carreira em 2002, aos 33 anos, defendendo o Al-Wahda.

O gol contra Congo-Brazzaville, sobretudo, mantinha Masinga com o status de herói. E não foram poucos os ex-companheiros que prestaram condolências diante da notícia de sua morte. Como Radebe definiu: “Estamos de luto por uma grande lenda. Phil tinha um grande impacto sobre o time e os jogadores. Eu o observava e ele me inspirou bastante. Era fácil conviver com ele, muito respeitado como pessoa. Foi enorme a maneira como ele se adaptou à nossa mudança para Leeds. Para nós, como africanos, foi uma grande experiência”. Ainda hoje, os Bafana Bafana agradecem, pelos gols e pelas histórias que Chippa garantiu.