Mascherano anuncia aposentadoria: o volante que virou um zagueiro multicampeão e se tornou bandeira da Argentina

Vocês conhecem o apelido de Marcelo Bielsa: El Louco. É uma maneira às vezes um pouco exagerada de dizer que adota métodos pouco ortodoxos. Outras vezes… nem tanto. Por exemplo, foi responsável pela estreia de um jogador pela seleção argentina antes que ele fizesse o primeiro jogo como profissional no Campeonato Argentino. Foi em um amistoso contra o Uruguai, em 16 de julho de 2003, que começou a carreira de Javier Mascherano, cujo ponto final chegou neste domingo, com o anúncio da aposentadoria do Chefito, aos 36 anos, após uma derrota do Estudiantes, o último clube pelo qual derramou gotas de suor.

E que carreira que foi. Depois daquela partida pela Argentina, estreou, enfim, pelo River Plate, em agosto do mesmo ano, e fez duas temporadas boas o suficiente para ser amado pelos torcedores millonários. Em especial porque conquistou o Clausura de 2004 antes de se transferir para o Corinthians.

Infelizmente, não pudermos ver o melhor de Mascherano no Brasil. O (ainda) volante foi uma das estrelas contratadas pela MSI, mas chegou machucado. Em setembro de 2005, precisou passar por uma cirurgia no pé e perdeu todo o restante da temporada.

“Sai do River ao Corinthians e, como estava em pleno campeonato, não parei. Meu pé começou a doer e eu mancava. No começo, nos últimos minutos de cada jogo, mas a dor foi aumentando e passou a me incomodar no intervalo. Depois, chegava em casa e não conseguia andar. Uma dor terrível no peito do pé, mas não queria dizer nada no clube pela obrigação que sentia: havia acabado de chegar e tinham pagado muito dinheiro por mim”, afirmou, em entrevista ao El Gráfico, em 2017.

Voltaria em 2006 e, para piorar a situação, foi expulso justamente contra o seu ex-time, o River Plate, no jogo de ida das oitavas de final da Libertadores – o de volta foi aquele no Pacaembu em que tudo correu tranquilamente. Sua última partida pelo Corinthians, contra o Grêmio, também terminou em expulsão, antes de Kia Joorabchian juntá-lo a Tevez e levar ambos ao West Ham, em uma transferência que ninguém entendeu.

Ok, o West Ham é um clube de Londres, e havia quase derrotado o Liverpool na final da Copa da Inglaterra, depois de ficar no meio da tabela da Premier League. Quando os rumores começaram a surgir no dia do fechamento da janela, os repórteres foram perguntar a opinião de Alan Pardew, o treinador. “Não sejam ridículos. Nunca vai acontecer”, disse. Mas aconteceu. Pardew estava lá todo feliz entre os dois jogadores segundo a camisa dos Hammers no começo da temporada 2006/07.

Tevez e Mascherano apresentados no West Ham (Foto: SHAUN CURRY/AFP via Getty Imags/One Football)

A realidade, porém, não foi tão gostosa quanto o sonho de contar com duas das principais revelações do futebol sul-americano. Para começar, Mascherano fez apenas sete jogos pelo West Ham antes de se mandar ao Liverpool, em janeiro. A transferência ligou os sinais de alerta nos órgãos reguladores do futebol inglês de que na realidade o West Ham não havia comprado Tevez e Mascherano, mas os tinha tomado emprestados de quatro empresas que detinham seus direitos federativos, por baixo dos panos, violando as regras da Premier League.

Em março, a Premier League aplicou uma multa recorde de £ 5,5 milhões ao West Ham, mas permitiu que Tevez continuasse defendendo o clube. O West Ham nem apelou porque havia evitado a dedução de pontos, cenário que mais temia (com razão). Tevez acabou fazendo o gol que garantiu a permanência dos Hammers na elite, consequentemente rebaixando o Sheffield United. Posteriormente, os Blades conseguiram, por meio de um painel independente da Federação Inglesa, uma indenização de £ 20 milhões. Mas foi pouco diante dos 12 anos que tiveram que passar fora da Premier League antes de voltar, na temporada passada.

Polêmicas à parte, em Anfield, a carreira de Mascherano finalmente decolou. Em alguns meses, foi titular na final da Champions League formando um meio-campo fabuloso com Xabi Alonso e Steven Gerrard. Não conquistou o título, graças a dois gols de Pippo Inzaghi, mas emendou três temporadas como um dos principais jogadores dos Reds, no momento em que Rafa Benítez conseguiu transformá-los de fato em um candidato ao título, embora nunca tenha ficado muito próximo de conquistá-lo.

O problema é que o Liverpool escorregou ao sétimo lugar, ficou fora da Premier League e, de repente, Mascherano se viu sendo treinado por Roy Hodgson. O desejo de sair não era novo, mas se intensificou até o ponto em que se tornou inevitável. Em agosto de 2010, assinou contrato por quatro anos com o Barcelona e daria mais um importante salto em sua carreira – ao lado de uma mudança importante de posição.

Era o Barcelona de Guardiola. O Barcelona de Xavi, Iniesta e Busquets. Mascherano não era um brucutu. Sabia jogar com a bola nos pés. Mas não sabia jogar com a bola nos pés como Xavi, Iniesta e Busquets. Mas sabia melhor do que muitos zagueiros e um belo dia se viu escalado na defesa ao lado de Gerard Piqué.

“O primeiro jogo que fiz (como zagueiro) foi em Donetsk, pela Champions League”, afirmou, em entrevista a Piqué para o Player’s Tribune. “Eu não tinha ideia que jogaria. Pep deu a escalação e me colocou como zagueiro. Nós nem havíamos conversado sobre isso. Era a minha chance. Era o único jeito de me agarrar a algo, sobreviver lá e me manter em um time como aquele. Eu pensei que teria muito mais oportunidades como zagueiro do que como meia. Eu encontrei aquele lugar e tentei me segurar a ele. Eu sempre tentei viver o futebol do ponto de vista da sobrevivência”, afirmou.

Mascherano fez mais do que apenas sobreviver no Barcelona. Foi firmado de vez como zagueiro na temporada seguinte, a última de Guardiola no Camp Nou, depois de conquistar o primeiro dos seus dois títulos europeus. Se teve dificuldades naturais, especialmente no jogo aéreo, defendeu os blaugranas 334 vezes e ganhou cinco edições do Campeonato Espanhol – e mais cinco da Copa do Rei. E em 2014, o campeão olímpico teve a chance de ouro de quebrar o jejum de títulos da seleção argentina.

O gol de Götze na prorrogação do Maracanã encerrou esse sonho, mas Mascherano, de volta ao meio-campo, fez a sua parte. Para muitos, foi o melhor jogador da Argentina naquela Copa do Mundo, melhor até que Lionel Messi, eleito o craque de toda a competição. Era o líder de fato do time de Alejandro Sabella, embora a braçadeira estivesse com Messi, exercendo um papel fundamental na marcação e na saída de bola. Na semifinal contra a Holanda, deu um carrinho salvador dentro da área para bloquear Arjen Robben, no que certamente seria o gol da classificação da Holanda. Foi o herói da vaga na final.

O título não veio. Nem na Copa América do ano seguinte. Nem na Copa América de dois anos depois. É verdade que seria uma crueldade histórica se Messi nunca conseguisse ser campeão pela seleção argentina, mas o mesmo vale para Mascherano, que se despediu do time nacional depois da trágica campanha na Rússia como o jogador que mais vezes vestiu o azul e branco: 147 vezes, com três gols.

Pois é. Fazer gol não era a sua. Nem quando foi volante – apenas dois pelo Liverpool em 139 jogos. Menos ainda como zagueiro. Mascherano chegou à sua última temporada completa pelo Barcelona sem nunca colocar uma bolinha na rede até um jogo contra o Osasuna, em abril de 2017. Estava 5 a 1 e era visível que sua passagem estava chegando ao fim. Quando Denis Suárez sofreu o pênalti, foi convidado a bater, em homenagem a tudo que havia entregado ao clube, e encheu o pé no meio do gol.

Alguns meses depois, anunciou a decisão de ir embora. Estava sentindo que não era mais o mesmo jogador, que não conseguia mais atuar no mesmo nível, e perdia espaço. Não queria colocar o Barcelona na posição de ter que mandá-lo embora. “Eu fui muito sortudo. Cheguei sete anos atrás para realizar um sonho e agora é a hora de acabar. O sonho acabou. Durei mais do que pensava. Agora é a hora de dizer adeus e vou carregar comigo muita afeição”, disse.

Foi ganhar um dinheirinho na China, com duas temporadas pelo Hebei Fortune, antes de retornar ao futebol argentino, quase 15 anos depois. Acertou com o Estudiantes para esta temporada, mas a pandemia impediu que ele atuasse mais do que dez vezes. Tomou a decisão definitiva de se aposentar após perder por 1 a 0 para o Argentino Juniors na copa que foi organizada para a retomada da liga argentina.

“Anuncio minha aposentadoria”, afirmou, em entrevista coletiva. “É uma decisão que venho pensando faz tempo. Eu havia falado com o clube. É o momento de terminar minha carreira pelos sentimentos que eu tenho, por um monte de coisas que tenho passado estes meses que me levaram a achar que, na questão pessoal, depois de ter pensado, o mais correto é terminar (a carreira)”, afirmou.

“Eu vivi minha profissão 100%, dei o máximo que podia, e agora vejo que me custa, não quero desrespeitar o Estudiantes, que confiou em mim, nem meus companheiros, nem essa profissão que me deu tudo. Não tem nada a ver com o clube ou com resultados, mas com o fogo que foi se apagando. Depois da pandemia, na pré-temporada, pensei que eu o voltaria a sentir, mas a verdade é que não consegui. É o momento de me afastar. Há momentos em que você não escolhe o final, ele vem sozinho”, completou.

Às vezes o que Mascherano perdeu foi por excesso de uso. Porque a vontade de jogar a bola, a fome de disputar cada bola como se fosse a última, o fogo de defender todas as camisas que defendeu, do River Plate, do Liverpool, do Barcelona e principalmente da seleção argentina, foram a marca da condecorada carreira de um dos melhores jogadores dos últimos 15 anos.

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