Ser eliminado na Copa do Mundo dói muito. Pense em alguém que é o maior símbolo do futebol feminino brasileiro. Mais: é o maior símbolo do futebol feminino mundial atualmente. Marta é uma craque mundial que, aos 33 anos, jogava a sua quinta Copa do Mundo, depois de seis prêmio de melhor do mundo. Não se sabe se ela poderá estar na próxima Copa, em 2023. E ao deixar o gramado após a eliminação diante da França, derrota por 2 a 1 em Le Havre, Marta teve uma incrível consciência na entrevista oficial e focou em uma coisa: nas mulheres que estavam ouvindo.

“É lógico que emociona, o momento é muito emocionante. Eu queria estar sorrindo aqui ou até chorando de alegria. E eu acho que é esse o primordial. A gente tem que chorar no começo para sorrir no fim. Quando eu digo isso é querer mais, é treinar mais, é se cuidar mais, é estar pronta para jogar 90 minutos e mais 30 minutos, quanto minutos forem. É isso que eu peço para as meninas. Não vai ter uma Formiga para sempre, não vai ter uma Marta para sempre, não vai ter uma Cristiane. E o futebol feminino depende de vocês para sobreviver. Então pensem nisso, valorizem mais. Chorem no começo para sorrir no fim”, disse Marta em entrevista ao SporTV, logo depois do jogo, ainda em campo.

“A gente deu o nosso melhor. Todas deram seu máximo. Foi um grande jogo. Já esperávamos tudo isso. Torcida contra e tantas coisas mais. Porém a gente fez um grande trabalho. Não conseguimos a vitória. A equipe delas foi melhor na definição. Agora é seguir em frente. Cabeça erguida. Muito orgulho dessa equipe”, afirmou Marta ao Globoesporte.com.

“Será que a gente não vê a Formiga com 41 anos? Será que é milagre o que ela faz? Ela se cuida e treina para caramba. É um apelo: a gente quer cobrar, mas tem de ser cobrada. Cobrada no sentido de querer fazer as coisas: melhorar fisicamente, se cuidar, treinar, viver como atleta. A gente tem os seus momentos de divertir, mas tudo dentro de um cronograma. Vai dizer que eu não tomo uma cerveja? Eu tomo uma cerveja na hora que é conveniente”, disse Marta na zona mista, como relata o UOL Esporte.

“Essas meninas que sonham em estar em uma seleção, comece a fazer agora. O nível do futebol feminino não permite mais que você treine a hora que quer. O negócio está em alto nível, e isso é importante porque abrilhanta o espetáculo, mostra que somos capazes. Não é aquele futebol devagar, mortinho. Gente, o jogo hoje foi maravilhoso! Infelizmente, a gente não venceu, mas era lá e cá, lá e cá, lá e cá”, pediu a craque brasileira.

Não teve desculpa, não falou sobre a falta de apoio, nem sobre o espaço muito menor que o futebol feminino recebe em relação ao masculino. Não falou sobre a falta de alguém coordenando o futebol feminino com conhecimento de causa, e não um profissional sem muito espaço no masculino. Há sim quem trabalhe bem nessa área. A Federação Paulista de Futebol trabalha o futebol feminino com afinco e seriedade. Aline Pellegrino organizou o futebol feminino paulista a partir de 2016, como mostramos em entrevista com ela naquele ano.

Marta falou com quem mais interessa: outras mulheres. O pedido, olhando para a câmera, foi para outras mulheres. Ela sabe que mais do que qualquer dirigente, mais do que qualquer patrocinador, mais do que tudo, quem mantém o futebol feminino são as mulheres. São as mulheres que jogam, que vibram, que lutam, diariamente, pela modalidade.

Não brigam só nos momentos de mais brilho, como Olimpíada, como será em 2020, e como foi agora, na Copa do Mundo. Estão lutando no Campeonato Brasileiro, ainda longe de ter exposição a veículos de massa, com poucos jogos transmitidos; os campeonatos regionais, como os estaduais; nos poucos campeonatos de base; nas muitas quadras por aí, jogando, de forma amadora, só para se divertir, como o Joga Miga. Afinal, o futebol não se faz só do profissional: é na paixão da pelada depois do trabalho, do fim de semana, dos campeonatos amadores em que cada menina se sente uma Marta, uma Cristiane, uma Formiga.

Marta, gigantesca como é, sabe que ela tem força para lutar em todas as áreas, inclusive cobrar as instâncias maiores da CBF. Mas sabe principalmente que quem irá liderar o processo será quem vem pela frente, são as meninas que estão se apaixonando desde cedo, são as meninas que assistiram à sua entrevista, em casa, chorando, sentindo a dor da grande referência, com os olhos marejados, mas as palavras firmes de quem luta, sonha e acredita no futebol feminino.

A Copa vai passar, mas o futebol feminino é feito todos os dias. O seu time tem uma equipe feminina? Que tal acompanhar e cobrar? Temos grandes jogadoras, como a craque Cristiane, que está no São Paulo, e um Campeonato Brasileiro com Corinthians, Santos, tem Internacional, tem Avaí Kindermann e muitos outros times jogando o Brasileirão e buscando o seu espaço, com alguns poucos jogos transmitidos na Band.

Marta focou no futuro. Naqueles que virão. Porque ela sabe que, aos 33 anos, o seu tempo como a líder do time está mais perto do fim. Que a Copa do Mundo ficou mais uma vez para trás. Vem aí a Olimpíada para 2020. Mas é preciso o trabalho todos os dias. A França deu o exemplo com uma liga muito mais forte e evoluíram rápido.

O Brasil pode chegar nesse nível. A Inglaterra segue melhorando, com uma liga que é a cada dia mais forte. O Brasileirão pode ir além e ser mais forte também no feminino. Será preciso trabalhar, porque tem muita gente boa fazendo trabalhos em outros países.

Tem o agora. E o agora é importante também, não só o futuro. E Marta falou sobre o que vem pela frente. “O primordial neste momento… As que estão aqui, as que passaram e as que pretendem (seguir) é que é importante um trabalho cedo para uma preparação de um grande campeonato como Copa do Mundo e Olimpíada. Não adianta fazer isso em meses. Agora já pensa na Olimpíada, que as atletas tenham esse pensamento para não sentir um jogo desse e seguir em alto nível”, analisou a camisa 10 e capitã da Seleção.

Ouvir essa declaração de Marta rasga o peito. Ela sabe o quanto ela é importante. E, por isso, é tão importante que nós ouçamos o que ela diz, atentamente.