O tempo parece desacelerar. Marta domina e a bola paira no ar, como se recusasse a obedecer a gravidade. Como se a atração maior sobre si fosse o talento da camisa 10. A redonda cai, magnetizada pela canhota. E a obedece perfeitamente, em um toque desconcertante. De costas para a marcação, a brasileira não vê Tina Ellertson. Mas sabe exatamente onde a americana se posiciona. O espaço ao seu redor se reconstrói pleno em sua mente, onde a jogada antológica já está completamente arquitetada. Marta se vira, passa pela defensora e reencontra a bola. Agora, acelera o tempo, para passar como um feixe de luz por Cat Whitehill. E, sem sequer olhar para o gol, arremata. A goleira toca na bola, mas não consegue fazer a defesa. Depois de tudo aquilo, os deuses do futebol não recusariam o gol histórico.

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Se apenas um lance puder resumir a carreira de Marta (o que é pouco), não existem segundos mais emblemáticos do que os de seu golaço contra os Estados Unidos em setembro de 2007. O tento que coroou a goleada por 4 a 0 sobre a principal potência do futebol feminino, justamente na semifinal da Copa do Mundo. Que encerrou uma noite fantástica da camisa 10 no Estádio Olímpico de Tianjin. Na decisão contra a Alemanha, a taça escapou das mãos da alagoana. Mas não dá para negar que aquele lance serviu de prova irrefutável sobre quem era a melhor do mundo. A sua consagração na história do esporte.

Marta chega aos 30 anos com uma caminhada no futebol feminino que parece ter se iniciado há décadas, tantos são os capítulos notáveis. Maior artilheira da história das Copas. Autora de mais de 100 gols pela Seleção. Dona de cinco Bolas de Ouro – todas consecutivas, entre 2006 e 2010. E responsável por tantas vitórias, por tantos golaços, por tantos sorrisos das companheiras, por tantos pesadelos das adversárias. Sobretudo, por tantos olhos brilhando fascinados enquanto a assistiam. Uma magia que não se compara.

Apontar a melhor jogadora de todos os tempos acaba sendo um assunto bastante subjetivo. Os critérios são extremamente pessoais. E, diante de tantas frustrações nos momentos decisivos da Copa do Mundo ou das Olimpíadas, Marta não se equipara a outras lendas em quantidade de títulos. Em magia, no entanto, é que ninguém consegue chegar aos pés da camisa 10. Dribles, arrancadas, passes, lançamentos, chutes, domínios. A alagoana se fez completa e encantou como nenhuma outra. Em seu melhor, esteve tão acima das demais que o simples fato de receber a bola já se tornava expectativa de gol.

Brazil's Marta celebrates her goal against the United States during their semifinal match at the 2007 FIFA Women's World Cup soccer tournament in Hangzhou, China, Thurday Sept. 27, 2007. Looking on are U.S. players, from left, Kate Markgraf, Cat Whitehill , Shannon Boxx and Lori Chalupny (AP Photo/Greg Baker)

Só que o auge físico de Marta passou. Durante os últimos anos, a camisa 10 perdeu a explosão. As grandes jogadas não saem mais com a frequência de quem parecia jogar quase sempre contra 11 amadoras. Lógico que a atacante permanece muito acima da média. Mas o passar dos anos também cobra o seu preço. Diminuiu a supremacia da brasileira em campo, algo evidente na última Copa do Mundo.

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Mas não, não dá para dizer que Marta está em declínio. Porque a grande capacidade do gênio do futebol é se reinventar. Perceber as transformações no corpo e adaptar suas características. Afinal, o talento permanece intacto nos pés da camisa 10. Assim como o raciocínio privilegiado e tantos outros adjetivos que cabem a uma craque de tamanho gabarito. Assim como a jovem surgiu logo arrebentando na Seleção, a veterana também pode fazer todos os elementos em campo orbitarem ao seu redor.

As maiores oportunidades de conquistar a Copa do Mundo e as Olimpíadas talvez tenham passado, naquele período fantástico entre 2004 e 2008 – quando muita coisa conspirava a favor das brasileiras, menos a própria capacidade de triunfar nos momentos decisivos. Mesmo assim, Marta segue capaz de brilhar. Sua força se concentra, sobretudo, em sua mente. E, neste ano, voltará a um palco de ótimas lembranças: o Rio de Janeiro, onde ganhou de maneira fabulosa o Pan de 2007. Agora, o desafio é bem superior, nas Olimpíadas. Mas a vontade da camisa 10 também pode se superar.

Aos 30 anos, Marta fez mais do que o suficiente para entrar na história. Se quisesse se aposentar aos 25, já estaria entre as melhores de todos os tempos. Entretanto, a maior dádiva que sua carreira lhe oferece é o tempo a mais para jogar em alto nível, para tornar a sua trajetória ainda mais memorável. E isso depende unicamente de Marta, com mais Olimpíadas e Copas do Mundo pela frente. Enquanto se mantiver na ativa, a própria Rainha responderá o quão indiscutíveis são as afirmações de quem a coloca como maior jogadora da história. E nunca, nunca duvide de um gênio.