Faz parte da cultura, da formação do caráter, é daquelas experiências que você não precisa ter, mas vai ganhar muito se puder vivenciar. Ou é lá ou cá. Ou é Galo ou é Cruzeiro.

O tempo, parceiro ou inimigo, se incumbe de atenuar o calor das discussões e permite uma observação sem o desdém que a juventude fazia questão de exibir. É Galo, sim. Sempre Galo, mas é possível ver que existe um rival e é possível entender que o rival bem pode mudar a dimensão das nossas próprias conquistas.

Cresci torcendo sempre contra. Fui aprendendo a conviver com as diferenças e a valorizar a disputa. Achava balela quando diziam que um puxa o outro para o topo ou para o buraco, mas os últimos anos escancaram que um realmente precisa do outro. Sol e lua.

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Falo com a autoridade de quem viu Revétria, mas viu também Reinaldo. E vi Seixas e Jason. Talvez 87 tenha sido um belo rascunho do quanto Atlético e Cruzeiro se precisam. O Galo lutava pela vaga na final contra um Flamengo e no dia seguinte seria o Cruzeiro que lutaria contra o Inter. O Galo perdeu na quarta e o Cruzeiro na quinta. Atleticanos e cruzeirenses riam da desgraça do outro e observavam Bebeto, que mais tarde foi para o Cruzeiro, bater Taffarel, que um dia foi do Galo.

E dez anos depois o Cruzeiro foi Cruzeiro para o Galo ser Borussia. Assim como o Galo já tinha sido Galo e o Cruzeiro tinha sido Flamengo. O atleticano idolatrou Romário em 2000. E um ano  depois, o cruzeirense riu até da chuva em São Caetano.

A rivalidade não precisa ser irracional, doentia ou covarde. Mas é engraçado saber que vários amigos não usam calça Jeans e nem escrevem com caneta azul. E é verdade que tive uma cozinha toda preta a branca. O atleticano não faz cruzeiro, faz passeio marítimo. Mas a Missa do Galo é para qualquer cruzeirense.

Os dois pensavam em crescer, mas olhavam o quintal do vizinho. E o quintal do Cruzeiro passou a ficar mais bonito. A nova Toca da Raposa doía no confronto com a falta de estrutura do Atlético. Doeu, mas serviu de estímulo. “Eles têm e eu posso ter também”. A seleção do Telê (campeão com o Galo) treinava na Toca, mas também atravessava a Pampulha para jogar na Vila Olímpica. E cada vitória tinha uma alegria maior se o outro lado perdesse. E cada pancada machucava ainda mais se o outro lado triunfasse.

Mas você ainda se lembra daquele papo de que o tempo dá o tempero ideal e apazigua ânimos e emoções? O tempo costuma chamar a consciência de amiga. E é mesmo bom que um ganhe e que o outro se sinta ameaçado e estimulado. Seria ótimo se um pudesse ou soubesse viver sem o outro, mas a nossa grandeza chama o rival para cima e a conquista do rival já põe a pimenta necessária para a próxima Libertadores.  Não só temos que ganhar. Temos que ganhar, defender o título e não podemos deixar que eles ganhem. E assim vamos. Ganhando, empatando, perdendo, respeitando e olhando o que o outro lado faz. O atleticano talvez finja não ver, mas o crescimento deles nos obriga a manter o padrão alto. Se eles ganham, temos que ganhar mais e de novo.