Há jogadores que não precisam vestir uma só camisa para construir sua identidade em um clube. A realidade econômica do futebol leva a mudanças constantes, mas não impede que alguns anos sejam suficientes para se estabelecer uma história de vida. Para que o manto se encarne como uma segunda pele e, independentemente de outras cores, não se imagine algo além da relação profunda de amor. Marquinhos é um desses casos. Nascido em Santa Catarina, o meia começou a sua carreira no Avaí, mas também rodou um bocado.  Defendeu outras nove equipes do Brasil e do exterior, mas nunca escondeu que sua verdadeira morada era a Ressacada. Depois de seu início, retornou ao Leão da Ilha em outras quatro oportunidades, a última desde 2013. Sacramentou uma das ligações mais apaixonadas do futebol nacional. E se despediu como ídolo máximo, mas muito além, ao celebrar também mais um acesso rumo à Série A do Brasileirão. Uma lenda que perdurará no coração de sua torcida.

O início de Marquinhos no Avaí aconteceu em uma realidade totalmente diferente da atual. Naquele momento, os avaianos buscavam mais expressividade no cenário nacional, subindo da Série C para a Série B. Oriundo do futsal, o garoto viu seus rumos mudarem aos 17 anos. Chegou para um teste no Leão da Ilha e simplesmente arrebentou durante um treino, logo assinando com o clube. Fez sua estreia em abril de 1999 e disputou a segundona do Brasileiro, além de brilhar no Campeonato Catarinense. Pois seu talento chamou a atenção do Bayer Leverkusen e, depois de seis meses na Inter de Limeira, se mudou à Alemanha.

 

Enquanto o Avaí amargava o jejum no Campeonato Catarinense e derrapava na Série B, ficando no quase em diferentes tentativas do acesso, Marquinhos perambulava. Atrapalhado por uma lesão no joelho, deixou a Alemanha sem emplacar. Defendeu Flamengo, Paraná, São Paulo e Coritiba. Retornou à Ressacada pela primeira vez em 2006, recuperando sua melhor forma, até se transferir ao Santa Cruz e ao Atlético Mineiro. Já a história gloriosa do filho querido começa a se estabelecer a partir de 2008, em sua terceira passagem pela Ressacada. Justamente uma temporada transformadora. Seria ele um dos líderes na campanha que encerrou a espera de três décadas longe da Série A.

Apenas pelo acesso, Marquinhos já teria moral suficiente para ser venerado em Florianópolis. Ele negou propostas financeiras mais vantajosas para seguir disputando a segundona e possibilitar a promoção. Anotou oito gols, permitindo que o Avaí terminasse a caminhada na terceira colocação. Sonho completo apenas em 2009, quando o maestro também liderou os catarinenses na primeira divisão. Suas atuações magistrais quase renderam a Bola de Prata, apontado como o terceiro melhor de sua posição na Série A. Mais importante, o veterano ajudou seu clube a terminar na sexta colocação do torneio, assegurando uma vaga na Copa Sul-Americana. Também foi campeão e eleito o melhor jogador do Campeonato Catarinense de 2009, que significou o fim de um hiato de 12 anos sem o título estadual.

Marquinhos aceitaria uma proposta do Santos em 2010, ajudando o Peixe em conquistas notáveis. Inclusive, pediu para não enfrentar o Avaí na reta final do Brasileirão e não escondeu as lágrimas diante da vitória dos catarinenses na Ressacada, que os livrou do rebaixamento. Estava claro que o retorno à Ilha aconteceria em breve, o que se consumou em 2011. Comandou o clube até as semifinais da Copa do Brasil, seguindo ao Grêmio durante a Série A. E depois de um ano e meio em Porto Alegre, o ídolo voltaria definitivamente em 2013. O momento para seguir no clube e para encerrar a carreira. Um casamento que, ainda assim, durou outras seis temporadas e encheu o currículo do meia com novas façanhas. Sobretudo, deu motivos incontestáveis para que a torcida avaiana o adorasse como nenhum outro. O camisa 10 foi Avaí de corpo e alma, como ficará marcado para sempre.

Estes anos não se limitaram apenas a momentos felizes. Marquinhos encarou dois rebaixamentos no Brasileirão, além de não ter vencido novamente o Campeonato Catarinense. As lembranças, de qualquer forma, tratarão de exaltar aquilo que realmente merece. O heroísmo do camisa 10, que ajudou o Leão da Ilha a se tornar um postulante sempre vivo ao acesso na Série B. A segunda promoção do Avaí com Marquinhos aconteceu em 2014. O time chegou à última rodada precisando de uma combinação de resultados para subir e conseguiu o milagre, com a participação vital do ídolo. Decidindo uma série de jogos na reta final de campanha, ele anotou o gol de pênalti que determinou o triunfo por 1 a 0 sobre o Vasco. Dois anos depois, na Série B de 2016, mais da lenda azzurra. O time parecia seriamente ameaçado pelo rebaixamento no início do campeonato, arrancando a partir de setembro. A boa sequência não era mera coincidência: depois de nove meses parado por lesão, com a sexta cirurgia nos joelhos, o armador voltou para orquestrar os catarinenses. Outra vez carregou as esperanças, brilhando por suas muitas assistências.

Por fim, o quarto acesso do Avaí e de Marquinhos nestes últimos dez anos se consumou neste sábado, em mais uma rodada final cardíaca da Série B. Aos 37 anos, o veterano não foi tão preponderante na campanha, disputando 14 jogos, seis como titular. Desde outubro, esteve em campo apenas três vezes, ausente nos resultados mais importantes desta reta final. De qualquer forma, permaneceu como uma voz ativa e um exemplo nos vestiários. Um símbolo do Leão da Ilha, após a vitória gigantesca sobre o CSA no Trapichão e o empate por 0 a 0 com a Ponte Preta na Ressacada. Pela última vez como jogador, o craque avaiano pôde ser aplaudido por seus súditos – e dando a volta olímpica da maneira mais gloriosa, ao recolocar o clube na Série A. Foi dele a preleção antes do jogo, assegurando que a Macaca não festejaria em Florianópolis, e depois, parabenizando os companheiros.

O apito final após o jogo com a Ponte, aliás, guardou uma invasão de campo não apenas para comemorar o acesso. Os torcedores também estavam ali para homenagear Marquinhos. O veterano, que ficou em prantos, foi carregado nos braços do povo. Foi festejado como merecem os grandes. “Foram muitos jogos, muitas conquistas, muitos gols na Ressacada. Saio com todas as marcas, mas o mais importante, eu saio onde sempre quis deixar, na Série A. Vou ficar com a minha família, eles viveram 20 anos para mim, é hora de viver para eles, levar no colégio, coisa que o pai tem que fazer. Minha mulher foi pai e mãe. Vou curtir, hoje saio como o maior ídolo dos 95 anos da história do Avaí Futebol Clube, sem medo de dizer. Mas eu vou sempre ser o alemãozinho azedo da Serraria. Sei dividir o homem do jogador”, declarou o armador. As dores no corpo brecam o craque, enquanto a cabeça trabalha para lidar com o fim. Mas sempre que quiser um alento, o veterano sabe que encontrará alguém de braços abertos na Ressacada.

De maneira geral, a campanha do Avaí foi bem mais estável desta vez, mesmo vindo de um estadual pouco animador e sem investir tanto em contratações. O clube entrou na zona de acesso na sétima rodada. Teve os seus altos e baixos, mas deixou o G-4 apenas em três momentos distintos, e não mais do que por duas rodadas. Desde o final de setembro, ficou por lá. A boa sequência de vitórias ajudou, especialmente contra rivais diretos, como o Goiás e o CSA. Já no confronto com a Ponte Preta, no qual uma derrota poderia colocar tudo a perder, os avaianos seguraram o placar zerado para celebrar.

Fica o destaque ao trabalho de Geninho, que conduz o elenco desde abril. Responsável pelo acesso em 2014, o veterano substituiu o longevo Claudinei Oliveira, que vinha no comando desde a Série B de 2016. Manteve a competitividade do Avaí. Já em campo, a lista de referências da equipe inclui alguns medalhões – entre eles os goleiros Aranha e Rubinho, os zagueiros Betão e Marquinhos Silva, o meia André Moritz, além do próprio Marquinhos. Todavia, há também uma parte fundamental desempenhada pelas crias da casa. Nomes como Guga e o transferido Rômulo ajudaram a impulsionar o time. Mas nenhum deles com a projeção de Getúlio, O atacante de 21 anos começou a ganhar espaço entre os titulares a partir de setembro e finalizou a Segundona com seis gols nas últimas dez partidas. Foi essencial.

Um dos maiores desafios do Avaí na Série A será contrabalancear a experiência dos veteranos e a energia dos novatos, em equação que não se sustentou nas últimas participações na elite. De qualquer maneira, chegar lá novamente reforça o peso do clube no cenário nacional. Um patamar que se transformou em dez anos e teve Marquinhos como o principal artífice. Se em campo o camisa 10 ofereceu demais ao Leão da Ilha, seja por seu talento ou por sua liderança, sua imagem perdurará além da carreira. É o capitão firme. É o herói de quatro acessos. É o maior artilheiro da Ressacada. É o atleta que se entregou por 398 jogos à instituição, anotando 94 gols. É o guri que chegou para um teste e, entre idas e vindas, deu seu máximo à equipe por duas décadas, sem nunca deixar de amá-la. Por tudo isso, é o maior ídolo da história avaiana, irrefutavelmente. Aos torcedores, resta agradecer e engrandecer. Marquinhos proporcionou ao futebol um exemplo contundente de respeito e dedicação à camisa.


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